sábado, 20 de setembro de 2008

Ó Pá!

O jornal carioca “Povo do Rio” veiculou neste sábado, dia vinte de setembro, interessante matéria publicada no periódico português "Correio da Manhã", sobre a existência em Portugal de um grupo auto-intitulado "Primeiro Comando Português.

Formado por jovens brasileiros que lá residem e sobre os quais o jornal afiança haverem indícios de possuírem fichas criminais e serem originários “de favelas de vários estados do Brasil”, o grupo se exibe em Orkuts com armas, materiais produtos de roubos, e simbolismos de violência, como um certo “hino do PCP” com o qual se declaram “revolucionários, terroristas e sanguinários”.

Segundo o jornal lusitano o grupo se estabeleceu na cidade de Setúbal, onde, conforme informa o jornal, “este ano já se registraram cerca de 400 assaltos à mão, enquanto durante os 12 meses de 2007 foram apenas 70 casos do gênero”.

Não obstante a onda de medo que tomou conta da cidade, fenômeno exibido na matéria (http://www.correiomanha.pt/Noticia.aspx?channelid=00000228-0000-0000-0000-000000000228&contentid=6609931F-4665-4D92-A7A1-96EFB3A8C7AE), as autoridades de segurança de Portugal parecem não terem dado muita importância ao fato, havendo o responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança, Tenente General Leonel Carvalho, dito, em entrevista ao periódico, que “são meninos a brincar no YouTube [site de partilha de vídeos onde o grupo incita à violência, exibe armas e dinheiro roubado], mas podem ser claramente perigosos. A questão da 'brincadeira' diz respeito à comparação com as favelas do Brasil – não são elementos ao nível de máfias criminosas”.

Alto lá!

A relação “criminosos brasileiros” com “oriundos de favelas”, pode carregar apenas um preconceito contra a população das áreas de favelas do Brasil.

Digo isto porque o jornal não apresenta nenhuma evidência de que os brasileiros sobre os quais noticia ações criminosas - e exibicionismo igualmente criminoso - são originários de estratos sociais de qualquer posição. Daí, dizê-los “de favelas” é especulação e acaba comprometendo o que é de fato importante na questão, ou seja, a clara demonstração de completa ousadia e desprezo à hipótese punitiva frente às leis do país-irmão. E, o que creio ser ainda mais grave: o espargimento da IDEOLOGIA DE FACÇÃO, com seus elementos subculturais perversos, sanguinários e desumanizadores.

Se oriundos de favelas ou não, para Portugal isso é o que menos deve importar na consideração sobre os magotes marginais que andam furtando, matando e botando a cara na internet, com claros objetivos de se fazerem conhecer para conquistar, numa espécie de “contra-colonização pós-moderna”

E, se no Brasil as armas de guerra do narcotráfico estão nas favelas, isso em hipótese alguma se deve em função dos valores cultuados pela imensa e esmagadora maioria da população dessas comunidades; gente produtiva, criativa, pacífica e solidária. As armas do narcotráfico são os grilhões que submetem a população pobre das favelas à vontade da estupidez naturalizada, mas em hipótese nenhuma poderá impor-lhes o “rótulo de exportadores do mal”.

As naus da “Ideologia do Narcotráfico” atravessaram o Atlântico.

“Santa Maria, Pinta e Nina” espectrais do medo.

Torcemos para que as tribos portuguesas não sejam indefesas perante tais conquistadores.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Plin Plin

Infeliz do homem que se indispõe com Deus, que O desafia ou O critica. Vai penar no inferno!Já ouvimos algo parecido em nossas vidas, pelo menos muitos de nós.
De minha parte não creio assim, embora não goste de dirigir imprecações ao Todo-Poderoso.
Penso que mesmo aquele movido por algum mal-estar, por algum incômodo existencial, pode, segundo se abstrai dos atributos da divindade, ser destinatário de Sua perfeita benevolência e receber o benefício do Seu perdão, após Tê-lo enfrentado.
Encontramos isso à luz de diferentes religiões e nas diversas interpretações do cristianismo, em fórmulas diferentes de salvação (salvação exclusivamente pela fé – salvação pelo conjunto “fé + obra” – salvação pela fé que se depreende da obra – salvação que não significa permanecer eternamente num paraíso de beatitude contemplativa, mas manter-se a salvo de padecimentos evitáveis quando se busca o bem e se permanece no amor, etc.).
Destino diferente, todavia, para quem se atreve a desafiar as Organizações Globo, principalmente seu jornalismo.
Enfrentá-las, apontar suas incongruências, seus paradoxos e interesses econômicos diluídos e disfarçados em meio às “ferramentas” de informação de sua mídia, é assinar uma sentença de morte: metafísica, inexorável e insuspeita.
Lembro-me do Governador Leonel Brizola, com quem até não me simpatizava com suas idéias e políticas, lutando ferozmente contra a Globo, atirando-lhe denúncias, chamando-a para a briga.
Pobre Brizola. Aquelas brigas ele nunca venceu.
Só um nefelibata como o Brizola (que ele me perdoe de onde estiver) para atentar contra a Globo, expondo sua ira contra um poder irrefreável, incontrolável, incontradito (me perdoem a invenção) e subdivino (me perdoem mais esta).
Só um estúpido, como eu, para fazer alguma coisa parecida (mesmo que muito mais tímida e “desimportante”); para afirmar, publicamente, que a Globo usa medidas diferentes de avaliação e julgamento para fatos e coisas que veicula, quando intenta firmar um ponto ideológico ou persuasivo sobre seu público leitor-expectador.
Vamos lá. Vou demonstrar:
Fantástico de domingo último, dia 07 de setembro. Patrícia Poeta e Zeca Camargo exibem uma matéria na qual Policiais Militares aparecem em situação no mínimo desconfortáveis para suas Corporações. Numa delas, integrantes da Polícia Militar de Santa Catarina realizam um churrasco com seus familiares, na Unidade onde se encontram presos à disposição da justiça. Em outra, um Soldado da Polícia Militar de São Paulo se exibe diante de uma filmadora, talvez de um telefone celular, não sei, dançando mambo, acompanhado de um “cantor” improvisado, no pátio de um destacamento policial militar paulista.
Vou me deter no caso do policial paulista.
Não que o caso catarinense não mereça nossa atenção, mas porque a questão que me move não é aquela tratada seguramente com toda importância, serenidade e seriedade pelo Comando da histórica Polícia Militar de Santa Catarina, prestadora de reconhecidos bons serviços ao seu povo, desde sua existência. Não sou legítimo para isso e devo olhar para meu próprio umbigo.
Mas não posso me calar sobre o outro caso.
Relativamente ao PM?
Não, relativamente à Globo.
Explico:
Ano de 2005. A Polícia Militar de Minas Gerais estabelece uma parceria com o grupo cultural AfroReggae. O grupo, cuja gênese leva a marca de um drama, a chacina de Vigário Geral, é “convocado” a ensinar à respeitada Policia Militar mineira uma forma alternativa de aproximação com a população pobre, das favelas. Um projeto piloto é estabelecido e uma Unidade engajada, o 22º BPM (coincidentemente eu comandava, à época, o 22º BPM, no Rio: o Batalhão da Maré), e logo vários Policiais Militares estão aprendendo percussão com o AfroReggae, com direito a uma grande apresentação popular.
Não faço julgamentos sobre a nobre Polícia Militar de Minas Gerais. Gosto dela e a respeito, muito. Gosto de sua história, de sua estética e de sua disciplina.
Sei muito pouco desse projeto, dessa parceria. Pelo que vi, o AfroRegae entrou com o saber e a PMMG com a necessidade de saber. Professores e aprendizes de alternativas para promoção de cidadania e respeito, tudo nesta ordem.
Não sei se a turma do AfroReggae se dispôs a cumprir alguma “etapa”, se havia alguma condição, dada por contrapartida de "convênio", para os “atores sociais” Afroreggaeanos; coisas como cortar o cabelo à moda da casa e prestar culto à bandeira nacional, pela manhã.
Mas não ficou aí.
No dia 5 de fevereiro de 2006 cerca de vinte Policiais Militares da PM de Minas se apresentaram no Domingão do Faustão, fardados. Militarmente fardados, como o Policial Militar paulista; batendo tambores e dançando Reggae. Dançando como o soldado paulista. Dançando desinibidamente para milhões de espectadores.
Volto a repetir: não se trata de uma crítica à PMMG. Ela tem suas razões e estratégias, e isto deve ser respeitado também.
O AfroReggae tentou bater tambor no terraço do BOPE quando fui seu Comandante. Acabaram batendo no pátio do QG.
Nada contra o AfroReggae, mas não acredito que “diferentes” possam se reconhecer “iguais” apenas porque foram colocados forçadamente juntos, a partir da vontade da “superestrutura”. Com negociação, porém, julgo que se ambos os lados conviverem participando de rotinas e práticas legais e legítimas, comuns “ao outro”, conhecendo-lhes os pontos-de-vista e a estrutura lógica coletiva, talvez seja possível a construção de algum tipo de identidade real, que vá além, no tempo e no espaço, de suas permanências sob os holofotes e câmeras.
E, particularmente, o AfroReggae toca mal pra cacete!
Mas duro, duro mesmo é pensar que o soldado paulista, que nem vou citar seu nome para não complicá-lo ainda mais, pode ser punido por sua dança não autorizada, não chancelada, não validada politicamente.
Pronto. Agora é só rezar.
Vai depender de uma banda.
Se ela quiser mesmo, eu "danço".

Ps: confiram nos sites

www.pindoramafilmes.com.br/tv/policia-mineira

http://fantastico.globo.com/Jornalismo