terça-feira, 9 de setembro de 2008

Plin Plin

Infeliz do homem que se indispõe com Deus, que O desafia ou O critica. Vai penar no inferno!Já ouvimos algo parecido em nossas vidas, pelo menos muitos de nós.
De minha parte não creio assim, embora não goste de dirigir imprecações ao Todo-Poderoso.
Penso que mesmo aquele movido por algum mal-estar, por algum incômodo existencial, pode, segundo se abstrai dos atributos da divindade, ser destinatário de Sua perfeita benevolência e receber o benefício do Seu perdão, após Tê-lo enfrentado.
Encontramos isso à luz de diferentes religiões e nas diversas interpretações do cristianismo, em fórmulas diferentes de salvação (salvação exclusivamente pela fé – salvação pelo conjunto “fé + obra” – salvação pela fé que se depreende da obra – salvação que não significa permanecer eternamente num paraíso de beatitude contemplativa, mas manter-se a salvo de padecimentos evitáveis quando se busca o bem e se permanece no amor, etc.).
Destino diferente, todavia, para quem se atreve a desafiar as Organizações Globo, principalmente seu jornalismo.
Enfrentá-las, apontar suas incongruências, seus paradoxos e interesses econômicos diluídos e disfarçados em meio às “ferramentas” de informação de sua mídia, é assinar uma sentença de morte: metafísica, inexorável e insuspeita.
Lembro-me do Governador Leonel Brizola, com quem até não me simpatizava com suas idéias e políticas, lutando ferozmente contra a Globo, atirando-lhe denúncias, chamando-a para a briga.
Pobre Brizola. Aquelas brigas ele nunca venceu.
Só um nefelibata como o Brizola (que ele me perdoe de onde estiver) para atentar contra a Globo, expondo sua ira contra um poder irrefreável, incontrolável, incontradito (me perdoem a invenção) e subdivino (me perdoem mais esta).
Só um estúpido, como eu, para fazer alguma coisa parecida (mesmo que muito mais tímida e “desimportante”); para afirmar, publicamente, que a Globo usa medidas diferentes de avaliação e julgamento para fatos e coisas que veicula, quando intenta firmar um ponto ideológico ou persuasivo sobre seu público leitor-expectador.
Vamos lá. Vou demonstrar:
Fantástico de domingo último, dia 07 de setembro. Patrícia Poeta e Zeca Camargo exibem uma matéria na qual Policiais Militares aparecem em situação no mínimo desconfortáveis para suas Corporações. Numa delas, integrantes da Polícia Militar de Santa Catarina realizam um churrasco com seus familiares, na Unidade onde se encontram presos à disposição da justiça. Em outra, um Soldado da Polícia Militar de São Paulo se exibe diante de uma filmadora, talvez de um telefone celular, não sei, dançando mambo, acompanhado de um “cantor” improvisado, no pátio de um destacamento policial militar paulista.
Vou me deter no caso do policial paulista.
Não que o caso catarinense não mereça nossa atenção, mas porque a questão que me move não é aquela tratada seguramente com toda importância, serenidade e seriedade pelo Comando da histórica Polícia Militar de Santa Catarina, prestadora de reconhecidos bons serviços ao seu povo, desde sua existência. Não sou legítimo para isso e devo olhar para meu próprio umbigo.
Mas não posso me calar sobre o outro caso.
Relativamente ao PM?
Não, relativamente à Globo.
Explico:
Ano de 2005. A Polícia Militar de Minas Gerais estabelece uma parceria com o grupo cultural AfroReggae. O grupo, cuja gênese leva a marca de um drama, a chacina de Vigário Geral, é “convocado” a ensinar à respeitada Policia Militar mineira uma forma alternativa de aproximação com a população pobre, das favelas. Um projeto piloto é estabelecido e uma Unidade engajada, o 22º BPM (coincidentemente eu comandava, à época, o 22º BPM, no Rio: o Batalhão da Maré), e logo vários Policiais Militares estão aprendendo percussão com o AfroReggae, com direito a uma grande apresentação popular.
Não faço julgamentos sobre a nobre Polícia Militar de Minas Gerais. Gosto dela e a respeito, muito. Gosto de sua história, de sua estética e de sua disciplina.
Sei muito pouco desse projeto, dessa parceria. Pelo que vi, o AfroRegae entrou com o saber e a PMMG com a necessidade de saber. Professores e aprendizes de alternativas para promoção de cidadania e respeito, tudo nesta ordem.
Não sei se a turma do AfroReggae se dispôs a cumprir alguma “etapa”, se havia alguma condição, dada por contrapartida de "convênio", para os “atores sociais” Afroreggaeanos; coisas como cortar o cabelo à moda da casa e prestar culto à bandeira nacional, pela manhã.
Mas não ficou aí.
No dia 5 de fevereiro de 2006 cerca de vinte Policiais Militares da PM de Minas se apresentaram no Domingão do Faustão, fardados. Militarmente fardados, como o Policial Militar paulista; batendo tambores e dançando Reggae. Dançando como o soldado paulista. Dançando desinibidamente para milhões de espectadores.
Volto a repetir: não se trata de uma crítica à PMMG. Ela tem suas razões e estratégias, e isto deve ser respeitado também.
O AfroReggae tentou bater tambor no terraço do BOPE quando fui seu Comandante. Acabaram batendo no pátio do QG.
Nada contra o AfroReggae, mas não acredito que “diferentes” possam se reconhecer “iguais” apenas porque foram colocados forçadamente juntos, a partir da vontade da “superestrutura”. Com negociação, porém, julgo que se ambos os lados conviverem participando de rotinas e práticas legais e legítimas, comuns “ao outro”, conhecendo-lhes os pontos-de-vista e a estrutura lógica coletiva, talvez seja possível a construção de algum tipo de identidade real, que vá além, no tempo e no espaço, de suas permanências sob os holofotes e câmeras.
E, particularmente, o AfroReggae toca mal pra cacete!
Mas duro, duro mesmo é pensar que o soldado paulista, que nem vou citar seu nome para não complicá-lo ainda mais, pode ser punido por sua dança não autorizada, não chancelada, não validada politicamente.
Pronto. Agora é só rezar.
Vai depender de uma banda.
Se ela quiser mesmo, eu "danço".

Ps: confiram nos sites

www.pindoramafilmes.com.br/tv/policia-mineira

http://fantastico.globo.com/Jornalismo






26 comentários:

Eduardo disse...

Sensacional.
Brigar com o quarto poder não é de fato o mais indicado, mas quedar-se calado, como faz o povo deste amado país, seria humilhante.

Anônimo disse...

Muito bom...
Estou sem palavras!
E se o senhor nao conhece, assista ao documentário "Muito além do cidadão Kane", que a Globo conseguiu proibir a veiculação no Brasil.

Se eu fosse o senhor, teria medo, muito medo dos discípulos "Marinhos"..

Anônimo disse...

Sr. Mário Sérgio, o senhor pode achar que não mas o Rio precisa de um Coronel com força, destemor e honrra para defender o estado. Defender a PM é salutar, mas a PM serve ao Rio e o senhor população do Rio. O Rio precisa de Homens como o senhor. Não nos abandone!

Anônimo disse...

Coronel, o senhor até hoje foi um crítico inteligente. O que houve? Torço para que este texto passe em branco. Uma batalha perdida não significa uma derrota amarga. Volte a ser o intelectual de outrora, por favor!
A PM já apanhou antes e o senhor soube defendê-la sem se expor desta forma.
Força e Paz!

Anônimo disse...

Calma meu Capitão! Calma!

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezados comentaristas

Agradecendo vossas considerações e esperando contar, sempre, com vossas presenças aqui, gostaria de fazer saber que meu julgamento sobre mim mesmo é bem mais modesto.
Estou no ISP de passagem, na PM de passagem e na vida de passagem.
De resto sou como todos que transitam nesta terra: alguém cheio de incertezas.

Anônimo disse...

Essa crítica não é para a Globo é para mídia. Mas não adianta reclamar muito afinal estes que hoje escrevem tem horror ao militarismo com raras exceções. Um exemplo de MídiaXPM está no filme “Era uma vez...”. Conseguiram estragar o filme nos minutos finais apenas para afirmar e reafirmar o quanto a PM do Rio é mortífera.
Acho que nesta briga é melhor tentar melhorar a PM do que brigar com toda uma massa de pensadores anti-PM!
De qualquer forma, boa sorte escritor Mário Sérgio!

Anônimo disse...

Gostaria de deixar os meus parabéns
ao amigo Cel.Mario Sergio por sua
promoçao e que seja protegido e bem
orientado pelos bons guias.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Obrigado, amigo!

Anônimo disse...

Te conheci no BOPE,quando o senhor
era capitao e estava finalizando o
seu livro.Fiquei muito contente em
saber que consiguiste realizar dois sonhos:Um publicar o livro e o outro ser comandante do BOPE.
Faz muitos anos que nao tenho a
oportunidade de conversar com o senhor,mas fico aqui na torcida pra que tudo dê certo na sua vida.
FORÇA E HONRA!

Tania disse...

Coronel Mário Sérgio :
integridade, honestidade ... são palavras que o definem muito bem ...
Quanto ao texto publicado, sem palavras: oportuno demais.
O conheço há anos e sei o quanto
luta pela PMRJ ... aprendi a admirar
a PM por causa do meu filho e ... por causa de POLICIAIS como o senhor.
Parabéns!

Anônimo disse...

"O Elefante e o Escorpião" Uma Pequena Fábula Oriental
 
Um dia, estava o Escorpião à beira de um riacho,
calado e acabrunhado.
O Elefante se aproximou, e solidário perguntou:
"O que tens, Escorpião, com essa carinha tão cabisbaixa?"
"Queria atravessar esse riacho... Mas não sei nadar..."
O Elefante, em gigante generosidade disse:
"Não seja por isso, suba às minhas costas, que eu te levo
até lá. Mas prometa-me, que não vai me ferroar?"
"Prometo, claro que sim".
Respondeu um escorpião feliz, subindo nas costas do Elefante.
Em quatro passadas já estavam do outro lado.
O Elefante, baixou a tromba até o chão, para o Escorpião
descer.
Ao descer, já na altura do meio dos olhos do Elefante, ele
desceu a sua calda elegantemente, introduzindo seu ferrão
venenoso na carne dura do Elefante, e disse:
"Desculpe-me Elefante, eu não queria te ferir, mas é da minha
natureza... Entende?"
E o Elefante, em olhar tirste, não teve tempo de responder.

Poderia ser renomeado para a PM e a Política.

Anônimo disse...

Caro Cel,que crítca...como poderia definir seu texto:gnóstico,cristão, animista(tomando como referência a sua constante afirmação "de passagem", ou pantha rei, afirmação típicamente pré-socrática)?Nominalista(flatus vocis), realista(universas ante-rem ou universas in re)?Sem dúvida, concordo com sua afirmação "ipsis litteris":"...mas não acredito que 'diferentes' possam ser 'iguais' apenas porque foram colocados juntos, a partir da vontade da superestrutura".Será que os nossos superiores sabem o mínimo de deontologia para separarem bem as coisas, como, por exemplo,a gloriosa missão institucional de nossas PMs, sejam de quais estados forem, de um grupo carismático e de relevância restrita como o Afroreggae(perdoe a grafia)?Percebi uma crítica velada, ou é um um mero "insight" meu mal dirigido?Aliás,não tenho conhecimento de sua parcialidade sobre algumas questões tão peculiares de nossa bi-centenária corporação, como o "movimento dos barbonos", p. ex.Percebo um viés hegeliano no seu fio de ariádne argumentativo: existe tese, antítese, mas sinto dizer que a síntese não se faz clara ao interlocutor, e como bom hegeliano, os universais estão muito presentes em seus discursos.Sugestão: que tal um pouquinho de Sartre para polemizar?
BRAVO ZULU.

EL CURA PEREZ

Anônimo disse...

"Nada contra o AfroReggae, mas não acredito que 'diferentes' possam se reconhecer 'iguais' apenas porque foram colocados forçadamente juntos. Como assim diferentes? Primeiro, os PMs de todo o país são provenientes do mesmo estrato social que os traficantes. São pobres, pardos ou negros.Ou o seu 'diferente' estaria colocando os integrantes do AfroReggae como "marginas"? não entendi. Aliás, se o AfroReggae toca mal, posso dizer que o senhor escreve pavorosamente, na mesma proporção da sua ideologia tacanha, fascista e deslocada da realidade, que encontra espaço apenas em uma cidade dominada pelo populismo barato como o Rio.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezado(a) comentarista.

Quando falo de diferentes me refiro a representações. Qualquer tentativa de fazer com que indivíduos e coletividades se reconheçam iguais em algum ponto ou conjunto de pontos, quando possuem representações diferentes, como, por exemplo, o AfroReggae e a PM, isso exige uma convivência onde ambos se permitam as práticas do outro; dos ritos mais comuns do dia-a-dia às celebrações especiais. Entender o ponto-de-vista alheio exige reflexão e dose de boa-vontade. E mais: exige vivenciar seus gozos e suas dores, suas possibilidades e suas limitações, seus valores e suas objeções. Se não for assim, não vejo como haver identidade; no máximo poderá haver simulação onde o “lado aprendiz” faz de conta que aprendeu e aceitou e isso dura até acabar a “parceria”.
Sobre eu não considerar a qualidade da música do AfroReggae boa, e você não considerar minha literatura boa, igualmente, além dos outros adjetivos que me confere, isso faz parte das nossas subjetividades; é democrático e salutar. O mais importante é que você e eu podemos nos expressar num país livre.
Obrigado por comentar.

Anônimo disse...

Mário Sérgio, imagino que a todo debate do qual participa tenha como por quase obrigação receber adjetivos desclassificatórios semelhantes ao postado assima. Como sempre muita cajadada!Sinceramente, tem que ser muito sem noção para proferir tais impropropérios contra você. Parabéns pela demonstração de civilidade! Sinceramente acho que já está passou da hora de termos alguém como vc no comando! Boa sorte.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Amigo comentarista.
Obrigado pela postagem e referências elogiosas, todavia já comandei o que deveria comandar. Tenho outros planos para o futuro.
Força e honra!

TONAN disse...

Grande amigo Mário Sergio,é com grande satisfação que recebi a notícia de sua promoção,justíssima
por sinal,ainda que tardia em minha
opinião.E parabens pelo post acima,pois somente pessoas com o seu carater e honestidade tem a coragem de enfrentar "A TODA PODEROSA'.

PARABENS QUE DEUS LHE GUARDE SEMPRE!!! AMIGO TONAN.

Anônimo disse...

Ultimamente,fala-se muito sobre a
desmilitarizaçao da Polícia Militar
e a unificaçao das policias.Gostaria de saber sua opiniao á respeito desse assunto

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Ouço falar disso desde que entrei na PM, há quase vinte e nove anos.
Sou contra ambas as coisas: desmilitarização e unificação.

Anônimo disse...

Na minha humilde e sincera opinião ser comandante da PM seria como fechar com chave de ouro a brilhante carreira, mas como o conheço muito bem salvar o Rio é mais importante do que isso. Topar uma briga com 40 grandes em troca de dias melhores não é pra muitos. Perder velhas amizades pra salvar um Estado muito menos. Hoje te chingam idealista mas o tempo dirá quem está certo. A PM não tem tudo o que precisa nem tudo que merece mas sua obstinação continua a mesma por um Rio melhor. Você se preparou durante 29 anos por esse momento. Sem riqueza, sem glória, sem rastro e sem fama e a certeza de dever cumprido. Comandante ou não, boa sorte!

Anônimo disse...

Na minha humilde e sincera opinião ser comandante da PM seria como fechar com chave de ouro a brilhante carreira, mas como o conheço muito bem salvar o Rio é mais importante do que isso. Topar uma briga com 40 grandes em troca de dias melhores não é pra muitos. Perder velhas amizades pra salvar um Estado muito menos. Hoje te chingam idealista mas o tempo dirá quem está certo. A PM não tem tudo o que precisa nem tudo que merece mas sua obstinação continua a mesma por um Rio melhor. Você se preparou durante 29 anos por esse momento. Sem riqueza, sem glória, sem rastro e sem fama e a certeza de dever cumprido. Comandante ou não, boa sorte!

Anônimo disse...

Não sei se irá publicar mas aí vai: se o El Cura Perez quer saber sua opinião sobre temas polêmicos é só ele dar uma olhadinha nos posts antigos principalmente os de 2006 (abril). Creio não ter mudado muito!

Anônimo disse...

quis dizer 2006 e abril 2007.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Vou buscar responder El Cura. Seus textos são "densos" (na expressão utilizada pelos filósofos da linha pós-modernista) e respondê-los requer tempo.
Não me incomodo com temas polêmicos, desde que os temas sejam o tema e não os "temólogos".
El Cura é um interlocutor que merece meu respeito. Assim que puder vai num pacote.

Emir Larangeira disse...

O texto de EL CURA PEREZ fez-me lembrar Shopenhauer e sua lição "Sobre o Ofício do Escritor". Quanto ao Sistema Globo, - que comigo exagerou e perdeu um bom dinheiro (ajudou a adquirir a minha casa), ressalvados os excelentes profissionais que lá se exercitam,- quanto ao Sistema Globo, nada se assemelha tanto ao estilo de William Randolph Hearst. Parabéns pelo artigo!
Emir