sábado, 12 de novembro de 2011

J'accuse


A expressão que dá título a esta postagem foi utilizada no século 19 pelo famoso escritor Émile Zola, num artigo escrito ao jornal L’Aurore.

Nele, Zola tratava da acusação que se fizera contra o Capitão do Exército francês Alfred Dreyfus, de traição contra a pátria em favor da Alemanha, motivando sua condenação e degredo na Ilha do Diabo.

Muito tempo se passou até que Dreyfus tenha sido finalmente inocentado.

O caso Dreyfus era escandaloso; seu tema favorecia as pulsões emotivas. Até que surgissem vozes em seu favor, apontando as incongruências das provas contra ele, Dreyfus amargara o ódio dos franceses por sua traição.

Então, eu inicio esta postagem lembrando Dreyfus e seu degredo na longínqua ilha próxima da Guiana Francesa, uma espécie de Bangu I misturada com Ilha Grande, da época.

Não faço isso apenas porque presumo a inocência do Tenente Coronel Claudio, mas porque Bangu I, neste momento, me faz pensar na Ilha do Diabo.

Minha opinião sobre um fato cujo juízo de verdade não deve se afastar das provas, e ontem tinha que ser colocada para inferência do meu questionador, naquele momento o advogado de defesa do Tenente Coronel Claudio, convinha ter uma estética de silogismo.

Ele pretendia que eu dissesse crer o Tenente Coronel Claudio inocente, mas eu não disse. Não claramente. Deixei que concluísse e, neste particular o assistente da acusação, Dr Técio Lins e Silva, foi percuciente e, ao perceber minhas intenções, buscou sutilmente me atirar para uma posição em que não me encontrava.

No passado tivemos nossos Dreyfus. O então Tenente Marcelo Cortes, por exemplo, permaneceu vários anos preso acusado da morte dos meninos da Candelária, até que o verdadeiro culpado, arrependido e convertido ao cristianismo, inocentou o oficial.

Outro Dreyfus foi o Cabo Sérgio Cerqueira Borges, que teve ele mesmo que gravar na cadeia onde se encontrava preso, as confissões dos verdadeiros culpados da chacina de Vigário Geral e assim provar sua inocência.

Por outro lado, os documentos que eu tinha comigo, ali, para colocá-los à disposição da justiça, nos remetiam a informações reais, comprovadas, diametralmente opostas ao que até então se sabia sobre o caso em certas particularidades.

Um exemplo era o fato de que a Dra Patrícia não possuía escolta, de qualquer natureza, oficial ou informal, mas vinha sendo veiculado que sim, a partir de trechos do inquérito que apurara sua morte.

O documento que eu tinha em mãos não deixava dúvidas de que ela não tinha escolta, repito, e, o que é mais intrigante, os policiais que estavam à sua disposição para expediente no fórum, (fora das normas estabelecidas entre a PM e o TJ), haviam sido cedidos justamente pelo Tenente Coronel Claudio, a ela, como se lê no documento com despacho de próprio punho, embora nem tivesse ele autoridade para fazê-lo.

Repeti isso (porque fui reperguntado) com a cópia do documento às mãos: os policiais Poubel e Pascoal, que estavam à disposição da doutora Patrícia, haviam sido cedidos pelo Tenente Coronel Claudio a pedido dela.

Foi um longo depoimento e vou tentar reproduzir, no máximo que me recorde, tudo o que disse lá.

Não está na ordem de meu depoimento, por certo. Não fiz anotações enquanto depunha. Mas, vamos lá:


1. Fiz três tentativas de reduzir o crime em São Gonçalo: com o Coronel Daflon, um especialista em orçamento, ótimo oficial, e ex-integrante do 7º BPM. Tenente Coronel Roberto, um homem de planejamento, que fizera ótimo comando no 2º Batalhão, fora a segunda tentativa. O último foi Tenente Coronel Claudio, até então Subdiretor Administrativo do Hospital da PM de Niterói. Um oficial da linha operacional.

2. Os dois primeiros fizeram muito bons comandos administrativos e de relações institucionais, mas não foram bem sucedidos na parte operacional.

3. Claudio teve sucesso, e retirou o Batalhão de posições desconfortáveis, e o colocou em quarto lugar - ou sétimo, após os três primeiros com premiação acima de 2000 reais. O Batalhão foi premiado, e todos os policiais receberam 2.000 reais.

4. As metas não são da PM, e a avaliação também não, pois são estabelecidas pela SESEG.

5. Um mês após o Coronel assumir o Batalhão (ele assumiu em outubro de 2010) ele recebeu um ofício da juíza Dra Patrícia pedindo dois policiais para o seu Gabinete . Ela não pedia escolta; pedia “gente de sua confiança” para plantão diferenciado no fórum, em razão do seu horário que terminava após meia noite.

6. O Tenente Coronel Claudio atende a juíza e, contrariando o convênio, cede os homens.

7. Eu só tomo conhecimento dois meses depois. Como responsável signatário do convênio, ordeno que seja cessada a irregularidade e os policiais retornem para o Quartel.

8 . Mando que sejam transferidos, pois, o cabo Poubel é "execrado pela tropa", como nas próprias palavras da juíza, num documento que me encaminhara em 2009.

8. Ordeno que não sejam transferidos sem minha ordem, pois não os quero sendo jogados de um lado para o outro, e condiciono suas saídas a pedido dos próprios. O Cabo Pascoal pede para sair do 12ª BPM e eu autorizo.

9. Explico que a reunião que tive com o promotor Paulo Roberto, da 4ª VC, se deu em fevereiro. Foi na presença do Procurador Geral de Justiça, Dr Claudio Lopes, e do Procurador Dr Astério. Nesta reunião só tratamos do novo protocolo que queríamos implantar de redução de autos de resistência, e expliquei que a transferência da Corregedoria para São Gonçalo iria ser um facilitador para meu programa, piloto em São Gonçalo.

10. Declaro que Dr Paulo Roberto nada me disse sobre ameaças contra a Juíza. Se o tivesse feito, os Procuradores teriam me cobrado providências imediatas, que eu as tomaria.

11. Disse que o Coronel Claudio havia sido transferido de um Batalhão hierarquicamente superior, o 7º BPM, classe A, para o 22º BPM, classe C, não para puni-lo, mas porque ele iria iniciar ações com vistas à pacificação da Maré, somando-se ao BOPE. Não declarei quando haveria UPP.

12. Disse que minha decisão para a transferência do coronel Claudio, que se daria no mês seguinte, foi antecipada para atender um pleito do poder judiciário, que preferia que os três comandantes - do 7º BPM, 12º BPM e 35º BPM - fossem outros que não os que comandavam as Unidades quando do assassinato. Isso seria um facilitador das relações.

13. Disse que não iria opinar se o Coronel Claudio era culpado ou inocente, pois seria pisar num terreno muito perigoso. Mas, o que tinha de provas documentais não indicavam que o Coronel Claudio deixasse de atender a juíza, tanto no que tinha um caráter oficial, como fora o pedido dos dois policiais para plantão em seu gabinete na 4ª VC, como aquele de caráter pessoal, que ela relata no termo de declarações prestada à PM no dia 25 de Março de 2011, quando pediu ao Comandante do 7º BPM (Tenente Coronel Claudio) uma viatura para dar cobertura à família do agente penitenciário David, que fora agredido por seu ex-segurança e ex-marido Poubel, de quem a família de David temia sofrer um revés.

14. Disse que no mesmo documento ela declara que Poubel, com quem vivera maritalmente, é um paciente psiquiátrico, com transtorno bi-polar, e que dele separara pois ele não "aceitava a atividade profissional dela" e buscava "apresentar argumentos em defesa de colegas, quem quer que fosse, nos processos de autos de resistência, isso em detrimento da harmonia do casal".15. Disse que não conhecia denúncias em que a Juíza Patrícia estava ameaçada, e menos ainda quem a ameaçava.

16. Disse que sabia que Claudio tinha sete ou oito anotações penais, mas não me recordava de cada uma, talvez de três, ou quatro, mas lembrava que na maioria ele havia sido absolvido.

Eu disse outras coisas, por certo, e na medida em que for me lembrando vou organizá-las para colocar numa segunda postagem.

A última pergunta que me foi formulada veio do Juiz, excelentíssimo Doutor Peterson. Ele me perguntou se eu considerava os vinte e um tiros como um sinal de crime contra o Estado, uma sinalização de algo para a sociedade.

Dr Petenson me fez uma pergunta sobre aquilo que considero a segunda mais importante questão desse caso tão triste.

A primeira é definir quem participou do assassinato da Dra Patrícia Acioli, deixando seus filhos, seu parentes, desamparados e cheios de dor, como fiquei um dia, quando meu saudoso pai foi igualmente assassinado.

A segunda, essa que o Sr Juiz me fez, é: POR QUE a mataram?

Sua pergunta me exigiu a opinião que busquei evitar ao longo de meu depoimento.

Os vinte um tiros disparados contra a vítima indefesa, de emboscada, de forma preparada, são a descarga do ódio, da ira, da raiva.

Sim, claro, isso nos suscita novamente a mesma pergunta:

E... POR QUÊ?

9 comentários:

Anônimo disse...

o circo que a civil montou começa a pegar fogo.
A mentira vai ser desmascarada.
Força coronel que o senhor vai ganhar esta.

Sérgio Borges disse...

http://ondeoventofazacurvalagoinha.blogspot.com/2011/11/seguranca-publica-ideias-e-acoes-espaco.html#links

Marcos Contreiras disse...

O Senhor é um homem honrado, fiel aos seus princípios e às causas da nossa gloriosa Polícia Militar. Nesses vinte anos que tenho de profissão, nunca havia experimentado tamanha tranquilidade e certeza de que estavamos no caminho certo.
Hoje, saiba que continuo tendo muito orgulho de poder ter sido o seu comandado, e, que os seus ensinamentos levarei comigo para o restante de tempo do meu serviço ativo, como também para a minha vida pessoal. Força Coronel Mario Sérgio !! Que Deus esteja sempre com o senhor. Att: Ten Cel CONTREIRAS - CHEFE DO CIEAT.

Anônimo disse...

Depoimento irretocável, sem qualquer parcialidade ou protecionismo. Digno de quem só quer prezar pela justiça no presente caso. Suscitou a "interrogação" nos "pré-julgamentos" feitos por segmentos sensacionalistas da Sociedade, da Imprensa e de determinadas instituições. Que a verdade sublime e a Justiça se faça.

Vanessa Souza Moraes disse...

Caso Dreyfus, amplamente discutido na obra de Marcel Proust.

Anônimo disse...

O que eu achei mais intrigante foi o fato da imprensa não ter divulgado mais nada sobre a audiência.
O que houve Coronel?
O que está acontecendo?
Por que a imprensa não colocou o seu depoimento como um furo no caso?

Anônimo disse...

Já dirigi dois hospitais, um deles público em cargo comissionado; solicitei exoneração para manter-me fiel aos valores que acredito e defendo. Aprendi que o poder é solitário e que os sabores doce e amargo nada mais são que as lágrimas do mesmo fruto. Somos poeira de estrela e a brisa é suave aos pés que se deixam banhar pelo acalento.
Nanci

O homem do futuro disse...

Fez um bom trabalho...Pena q n pode concluir a reformulação nas promoções como queria...N sei se deixou encaminhado...Esse plano de carreira automático está transformando a PMERJ num monte de jagunço...N se respeita mais o sargento pois ele foi transformado num igual pra tropa, desvalorizado e q qq um pode ser com o tempo, sem estudo, sem preparo. Muito triste.

CHRISTINA ANTUNES FREITAS disse...

Sr.Cel Mário Sérgio,

Muito bom vê-lo retomando o Blog, e de certa maneira nos lembrando do julgamento sobre o caso da Juiza Patricia Acioli, que de forma pontual ficou completamente esquecido pela mídia, encoberto que foi pelo evento da "tomada da Rocinha" e prisão do vulgo Nem.

Triste destino da Juiza - que pessoalmente acredito - quebrou um tanto a "liturgia do cargo", com amores, desamores, destemperos, enfim: parecia uma pessoa no limite da explosão.

Sempre penso que lidar diariamente com o crime é um desafio para pouquíssimos... Uma parcela mínima sai ileso desse convívio, pelo menos emocionalmente.

Parabéns pelo resultado da biopsia, e bom regresso aos textos!

Abraço fraterno,
CHRISTINA ANTUNES FREITAS