sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Incursionando no Inferno

No dia onze de outubro o BOPE estabeleceu duas Bases de Ocupação Dinâmica no Complexo do Alemão, onde permanece até a postagem deste texto.
O objetivo era agir repressivamente contra o braço armado do narcotráfico, a fim de realizar a apreensão de seus arsenais e a prisão dos envolvidos no esquema criminoso do comércio das drogas, com prioridade sobre os que se apresentam armados, afrontando o poder público e semeando medo coletivo.
Sob meu comando direto, a tropa deslocou-se ao grande conglomerado de favelas e, desde os primeiros momentos de nossa chegada, esteve engajada em confrontos com marginais que portavam fuzis de assalto, e se comportavam como forças guerrilheiras urbanas, dado seu comportamento tático.
É bem certo que os facínoras não tiveram nenhum sucesso em suas empreitadas e, do contrário, foram as forças legais, representadas pelo BOPE e o 16º BPM, que lhes reduziram os arsenais e retiraram de circulação dois vocacionados criminosos, até agora.
Nas vinte e quatro horas que passei no morro, pude verificar, in loco, as dificuldades enfrentadas pelos policiais militares que concorrem a serviços em destacamentos e postos, fincados nessas áreas de risco máximo.
O perigo enfrentado por nossos companheiros é de tal ordem, que somente a banalização da própria vida, com a naturalização radical da morte em serviço, pode nos fornecer pistas de como eles, por força de suas posições hierárquicas Sargentos, Cabos e Soldados, os cumpridores desses serviços, podem ignorar sentimentos de autopreservação e juízo de risco, para exercer a mais arriscada atividade policial do país.
Havia nove anos, desde que, como major, cumprira uma missão noturna no morro do Turano, na Tijuca, que não enfrentava uma jornada tão desgastante, com enfrentamentos furtivos, mas de fogo pesado, por vinte e quatro horas ininterruptas.
Mas, a melhor pedagogia não é a do conhecer por ver, mas do fazer para constatar.
Foi lá na Nova Brasília, extensa comunidade do Complexo do Alemão, liderando minha tropa, lado a lado dos homens, que relembrei meus tempos de Tenente, Capitão e Major do BOPE, reminiscências que me levaram à realidade dos nossos Praças, profissionais da mesma Instituição gloriosa a que pertencemos, nós, Oficiais Superiores em função de mando, que, não raro, fazemos ouvidos moucos e vista grossa para as evidências do absurdo, denunciadas por nossos milicianos.
Para entender o Elemento de Execução, o combatente PM, o nativo, nesse caso, no jargão antropológico, não basta, todavia, estranhar-se. É preciso, do contrário, ser um deles. Sentir na própria pele os sabores do front. É preciso muito mais do que flanar. Faz-se necessário pelejar, combater, sentir ódio e medo, piedade e segurança, tudo junto, separando-os pela racionalização, indispensável aos que se propõe a comandar homens.
Há tempos não me sentia tão mal.
Há tempos não me sentia tão bem.
O BOPE continua ocupando o Alemão e Incursionando no Inferno. Inferno não pelo local, de esmagadora maioria de trabalhadores e inocentes, mas inferno pela situação causada pelo flagelo provocado pelo narcotráfico.
Os Postos de Policiamento Comunitário nos servem de Bases para a empreitada, fato já noticiado pela mídia.
A qualquer momento sairemos de lá, pois somos tropa de intervenção e não de ocupação.
Todavia, outros Policiais Militares, nossos irmãos do 16º BPM, Unidade Operacional responsável territorialmente pelo policiamento da área, estarão, todos os dias, embrenhados naquelas instalações físicas, pretendidos signos da lei.
Viverão a perigosa rotina de se deslocar, a pé ou de viatura convencional não–blindada, do sopé do morro até seu posto, sob olhares argutos e percucientes de ollheiros do tráfico, a sondar-lhes as intenções.
Desejo aos nossos valentes companheiros de lutas e desafios, toda sorte do mundo.
Somos uma Corporação de Bravos.
Vitória Sobre a Morte!
Para nós, Caveiras, e para todos os irmãos da PMERJ.