sexta-feira, 19 de maio de 2006

O BOPE Vai Investigar



O campo das idéias é terreno de lutas que freqüentemente apresenta ruidosas batalhas entre contendores, movidos por convicções que se apresentam como bússola orientadora de suas inclinações. Muitas vezes, os provocadores de uma discussão, da qual se é inevitável enfrentar, esperam que se lhes mova campanha difamadora, com intuito de faturarem com a agressão, expondo-se vítimas da injúria.
Todavia, analisar-lhes as idéias, e apontar paradoxos e incongruências no que dizem ou promovem, é fato legítimo, pois a discussão do pensamento é sempre preferível ante fazê-lo sobre o pensador.
Assim, na hipótese de lançar anátema sobre os autores do livro “A Elite da Tropa”, obra que pretende, segundo os escritores, revelar, na forma de ficção, toda sorte de violações cometidas pelos integrantes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) durante um período de sua existência, convém analisar-lhes os objetivos explicitados; avaliar, também, o meio escolhido e projetar os resultados possíveis do empreendimento.
Vejamos:

Na entrevista concedida ao jornal O GLOBO do dia 28 de abril — aliás, espetacular espaço de duas páginas completas — os autores se permitem não apenas adiantar trechos do livro, mas radiografar o Bope, fazendo uma descrição crítica de sua “atuação equivocada”, ideologizada e formadora de uma mentalidade, ora causa, ora conseqüência, da identificação do grupo como “tropa de guerra”. E reforçam, deixando claro que se trata de um apanhado de “histórias reais que teriam acontecido”, misturadas, “alteradas e recombinadas”, recolhidas das “experiências de dois dos autores” e colegas não citados.
A entrevista se dedica, também, a apresentá-los com suas credenciais, e aí ficamos sabendo que dois são capitães da PM, que serviram, ao longo de vários anos, no Bope, comandando tropa nas operações de intervenção, em áreas de forte presença do narcotráfico. O outro, sociólogo que experimentou atuar diretamente na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, no final da década de noventa e início de dois mil.
Embora o livro não seja anunciado como produto de trabalho científico, com os rigores que lhes seriam exigidos, caso tivesse tal pretensão, subliminarmente é apresentado como tal, pois, conhecido como “especialista em segurança pública”, célebre pesquisador de renome internacional que não arriscaria sua credibilidade em exposições “achistas”, levianas, o professor, co-autor (da obra), ao declarar que “O Bope é...” e não apenas “O Livro é...”, naturalmente empresta chancela de autoridade no conhecimento de fatos, apresentados por ficção na literatura supra-real.
E então, ao garantirem que tudo está difuso e misturado, a fim de se impedir a identificação das pessoas, promovem um incômodo que aos poucos se acentua no leitor mais atento, porque, com efeito, aquilo que inicialmente parece algo positivo, com ares de posicionamento ético, e digno de aplausos de aprovação, estanca em perguntas que são absolutamente óbvias: “Será que os dois capitães assistiram a quaisquer daquelas coisas horrendas? Será que não são eles mesmos os criminosos? A confissão escamoteada e remunerada (o livro deverá render muito) os isenta dos crimes que podem ter cometido?”
Ora, se tudo isso for verdade, há débitos com a lei que precisam ser resgatados. Não será a publicação do livro escandaloso que lhes promoverá redenção. Irá render-lhes, certamente, consagração e festejos nos meios intelectuais, mas a injustiça se apresentará ainda mais desafiadora; afinal, que dizer aos familiares das vítimas? Como lhes explicar que criminosos por ação ou omissão estão vindo a público expor as imolações e o assassínio de seus parentes e ainda irão lucrar muito com isso?
É bem certo que ninguém é obrigado a produzir prova contra si, e não creio que os dois policiais escritores se apresentem ao Ministério Público voluntariamente, nem mesmo para delação premiada. Caberá ao Bope colaborar para a elucidação dos fatos, desmisturando-os, descombinando-os e descobrindo-lhes autoria, para que “léxico e sintaxe”, como nas palavras do erudito sociólogo, não sirvam somente para escandalizar uns e enriquecer outros. Para isso, o Batalhão espera contar com a colaboração dos próprios autores e já adotou providências iniciando a recuperação dos registros das intervenções dos dois oficiais, durante todo o período que estiveram entre seus “homens de preto”.
E, por fim, há algo que eles podem fazer para não amargar a perda da respeitabilidade. Algo que não afastará, certamente, as sombras do passado que talvez incomodem os capitães, como “demônios do não esquecimento”, os quais buscam exorcizar na catarse remunerada. Basta que façam doação de tudo que arrecadarem com a venda do livro às famílias que tiveram parentes mortos no período que eles serviram ao Bope. As Ongs dedicadas aos direitos humanos podem ajudar a encontrá-las.
Talvez, assim, “A Elite da Tropa” poderá ser compreendida como obra séria, e não como irresponsável, mas estratégica alavanca para visibilidade de candidatos, num ano eleitoral.
MARIO SERGIO DE BRITO DUARTE é comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Publicado em "O Globo", em 9 de Maio de 2006

5 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo artigo.
O que seria do Rio de Janeiro sem sua PM e seu BOPE?
Marco Cardozo

Cap PM RR Sampaio disse...

Fico feliz quando vejo um Oficial PM com as características do TCel Mario Sergio, pois me dá esperança e força para acreditar que o futuro da PMERJ pode ser melhor.
Só o fato de um Comandante de Unidade ( e que unidade!!!!) ser capaz de abrir um espaço desses e estar sujeito a qualquer comentário, já denota, além das melhores intenções, que é capaz de reponder os questionamentos advindos, ou tomar providências para melhorar o serviço policial.
Todas as questões colocadas neste Blog são explicadas com a lucidez, transparência e conhecimento de um Oficial que reúne teoria e prática no mais alto nível.
Ser capaz de escrever com responsabilidade e embasamento sobre a política que envolve o aparelho policial, não só no RJ, como em todo o Brasil, sobre campanha para difamar o nosso Caveirão, tão importante instrumento de aplicação tática da nossa briosa PMERJ, bem como sobre a utilidade de se escrever um livro contanto as possíveis mazelas de uma tropa de elite e a que devemos tão bons serviços, são atributos de um Oficial COMANDANTE a quem devemos louvar.
Estando afastado da ativa há cerca de 10 anos, jamais, na minha formação poderia entender e aceitar que um capitão pudesse expor de forma tão contundente uma unidade, quer dizer, a melhor unidade operacional da PM. Mas, como bem analisou o Cmt Mario Sergio, a política e os interesses individuais passam a ser maiores dos que os da Coorporação. Será que se ele não fosse um Capitão "caveira" suas palavras sortiriam o mesmo efeito????? Creio que não.
Bem..... meu amigo Mario Sergio, pois assim o considero, e muito, sua tarefa é árdua, mas tenho certeza que de alguma forma vc será capaz de melhorar a vida não só dos policiais que estão a seu Comando ( e que um dia espero possa ser todos o do nosso Estado), mas finalisticamente, de toda a sociedade, que é o objetivo final de todo o Policial Militar. Espero, ainda, que vc possa obter mais espaço na mídia para defender suas idéias..... quem sabe tão grande quanto ao do lançamento do citado livro???? ( soube desse blog hoje através do jornal)
Siga em frente!!!!

Centurião disse...

Faço minhas as palavras do Cap Sampaio. Espero que Deus o abençoe Ten Cel Mário Sérgio e dê vida longa para que possa continuar batalhando e mostrando a nossa face da história aos que não temem a verdade. Vida longa à Polícia Militar. Vida longa ao BOPE e a todas as tropas de elite, que são, em todo o mundo, a útlima fronteira entre a Justiça e o CAOS.

Ten Riani
BME/PMES

Francimar AL SD PMES disse...

Sempre apreciei o trabalho da PM,ainda mais se tratando das tropas de elite, concordo plenamente com o Ten Riani elas estão no fronteira, quando nada mais resolve, elas sempre controlam as situação. Espero um dia ter o prazer de servir em uma força de elite.

Anônimo disse...

Sou Sgt Pm dessa briosa corporação,embora cinematograficamente falando esse filme agradou a muitos,tenho o desprazer de manifestar meu descontentamento quanto essa obra de pura ficção,porque declarar que são os salvadores da pátria isso é um absurdo,porque eu mesmo ja trabalhei no 6ºBPM(tijuca)e ja pude presenciar esses herois de preto,indo ao encontro do perigo destemidamente sem avisar os seu colegas comuns(farda azul)e tendo o desprazer de serem encurralados e pedirem socorro aos pobres Pms comuns,e sem querer entrar n o mérito da corrupção,ora quanta hipocresia,só quem vive essa realidade sabe que tanto na tropa comum quanto na ELITE existe esse cancêr,isso naum é um previlégio da tropa comum,ela existe tanto de um lado como de outro,mas graças a Deus é uma minoria que est á sendo estirpada gradativamente e a passos largos.
Grato por esse espaço onde consigo expressar minha indignação por essa tamanha hipocresia que foi esse filme.E que o sr. Cel Mário Sérgio de Brito Duarte seja sempre abençoado.