quarta-feira, 24 de março de 2010

Sem lenço, sem documento.

Eu sou fã de Caetano Veloso, e espero que ele me perdoe se algum dia descobrir que eu o citei no meu blog, num texto tão sem importância.

Mas, eu fiquei um bom tempo sem escrever em minha página e hoje me ocorreu Caetano; sua genialidade, seu bom humor, seu senso de julgamento, sua axiologia.

Estou com minha agenda em colapso, e só uma sintaxe caetânica como esta para me conduzir ao teclado do computador.

A história é meio às avessas, vejam só:

O ex-governador Anthony Garotinho volta e meia faz citações à minha pessoa em seu blog.

Os amigos vivem me perguntando se não irei responder; afinal, Garotinho fica me espetando, fazendo-me críticas e lançando-me imprecações dissimuladas, que, se não elegantes, pelo menos não são criminosas.

Eu respondo aos meus amigos que não dou importância ao que o ex-governador diz.

Na verdade nunca levei a sério muitas de suas atitudes, como aquela que empreendeu para protestar uma questão política, que já não me recordo bem, mas que o levou a uma greve de fome em que saiu mais corado do que quando iniciou.

É fato que no passado as coisas não eram assim.

Durante o mandato da governadora Rosinha, quando o ex-governador era Secretário de Segurança, muitas vezes me elogiou pessoalmente, o que nunca me convenceu, porque uma secreta desconfiança me alertava para a falta de sinceridade de seus elogios.

E então me dei conta que estou caetaneando o ex-governador.

Eu estou me comportando em relação a ele como Caetano faz com certos críticos e certas críticas.

É assim: estou expondo um sorriso discreto e uma resposta tipo, “Leva a sério o ex-governador não! É brincadeira dele!, quando meus amigos me cobram uma atitude, uma réplica.

Não tenho a dimensão histórica nem a importância política do Caetano.

Mas, Garotinho não é tão bom quanto os críticos de Caetano; quero dizer, não é tão bom crítico, ou não!?

Eu e o ex-governador estamos um para o outro como Caetano está para seus detratores.

Mas, somos menos que aqueles outros.

Caetano não liga muito, porque desconfia de suas sinceridades; eu não ligo para o ex-governador porque acho que é brincadeira o que ele diz.

Alguém poderia dizer que estou esnobando Garotinho, mas não estou.

É que, vocês sabem, este ano tem eleição e estou calejado para não saber que hoje Garotinho irá falar mal de mim, porque convém, e amanhã falará bem, se convir também, e falará mal e bem, tudo ao mesmo tempo e na mesma hora, num vai-e-vem, se for para seu bem.

Não quero brigar com o ex-governador Garotinho e nem quero que ele me queira mal, mas gostaria que ele soubesse que não quero ser inserido nesse vale-tudo, onde vale até esquecer o que aconteceu com alguns próceres de seu staff da Segurança Pública num passado recente, fazer cara de paisagem, e sair atirando geral para poder aparecer.

Se o ex-governador quer mesmo investir na pauta “segurança” como sua plataforma de pré-campanha, e para isso vai-me transformar alvo de sua artilharia retórica, não posso deixar de lembrá-lo dessas pequenas coisas. Tão pequenas que não engordam e nem matam, mas também não emagrecem, ou fazem definhar, como seria comum às greves de fome.

Quantos aos amigos, alguns argumentam que me tornei mais importante por receber críticas do ex-governador, e outros me asseguram que passei à condição menos importante justamente pelo mesmo motivo, mas ambos concordam que ele está mais preocupado comigo do que eu com ele.

De minha parte posso garantir que não vou praguejar contra nosso ex-governador, e nem atacá-lo no meu blog, como faz comigo no seu, mas vou deixar claro que me conforta muito saber que é ele o meu crítico da hora.

E me conforta mais ainda saber que tenho (aliás, temos) a chance de tê-lo assim, para sempre.