terça-feira, 22 de abril de 2008

Alemão: a hora de acordar*

Por Mário Sérgio de Brito Duarte, tenente-coronel da PM, ex-comandante do BOPE e do 22ºBPM (Maré), autor de "A Verdade da Tropa - Incursionando no inferno"

Nem sempre foi assim no Complexo do Alemão.
Arrisco com segurança dizer, que há vinte e oito anos, quando ingressei na Polícia Militar, o quadro era outro.
Não que não houvesse violência, ou que essa se limitasse a pequenos conflitos entre moradores.
Com efeito, a criminalidade no Complexo do Alemão, mesmo naquelas épocas pré-fuzil, já ultrapassava a ação pitoresca dos ladrões de galinha e bandidos pés-de-chinelo, que, em tempos quase remotos, tinham sido vetores de um medo “pitoresco” e exagerado para a população “remediada” de sua vizinhança; da Penha e bairros arredores.
Havia quadrilhas de traficantes drogas e outros bandidos, sim, com seus revólveres, algumas escopetas e talvez uma ou outra metralhadora de mão; todavia, preferiam fugir da presença da polícia, não enfrentá-la, e isso perdurou até meados da década de oitenta, quando armas poderosas foram sendo adquiridas e granadas, lança-rojões, fuzis de assalto e metralhadoras. 30 surgiram na cena carioca, modificando-lhe completamente os quadros de segurança pública.
Não vou asseverar que as políticas adotadas desde então foram lenientes ou complacentes com o tráfico de drogas, mas ouso dizer que até o início do ano passado, uma certa ingenuidade e uma excessiva contemplação sociológica do problema empurraram governantes para estratégias não efetivas de controle da criminalidade e promoção da tranqüilidade pública e paz social.


Se de um lado a ação policial mais ativa para desarmamento de quadrilhas e bandos ocorreu em alguns momentos, ações outras, de natureza social requeridas para desestimular a vontade coletiva de crime com ingredientes psicológicos característicos de subcultura, foram absolutamente procrastinadas.
A antítese da política de polícia de repressão, como se costuma rotular a primeira, quando e quanto pôde tratou de refrear a ação das polícias, teorizando pela predominância das desigualdades sociais como fatores essenciais, fundamentais ou genéricos, promotores do crime, semeando uma espécie de culpa coletiva na população e fazendo-a co-responsável da própria vitimização, identificando, subliminarmente, no criminoso, a verdadeira vítima.
Ora, é certo que haveríamos de acordar de tal sono letárgico. Mais dia menos dia haveríamos de ver que crime, criminosos, combustíveis e comburentes de fatos anti-sociais de anormalidade jurídica, devem ser considerados conjuntamente para se viabilizar políticas de segurança pública; e haveríamos de buscar soluções que aglutinassem os diferentes poderes e esferas do Estado Legal, como vemos agora pela aplicação do PAC, PRONASCI e POLÍCIA de pacificação, que, cada qual com seu papel, espera concorrer na promoção definitiva da tão sonhada inclusão social das populações dessas zonas de conflito e dor.
Às sofridas e mal-remuneradas polícias cabe, certamente, o papel menos sedutor e menos simpático; enquanto houver narcotraficantes empunhando fuzis no Complexo, e se comportando como narco-soldados, Policiais Militares e Civis do Rio de Janeiro e os homens e mulheres da Força Nacional que os apóiam, estarão trabalhando diuturnamente ali, em condições dificílimas de ocupação temporária, com a morte rondando, para cumprir seus deveres traduzidos em suor, sangue e honra, em duro processo de libertação das comunidades das garras do crime.
O Complexo do Alemão completa um ano de intensa movimentação policial. Os números revelam uma impressionante belicosidade, agregada como valor coletivo pelo crime local. Somente na delegacia onde se registram ocorrências do Alemão (lembremos que as Especializadas também fazem registros, apreensões, inquéritos e flagrantes), tivemos apreendidas, pelas Polícias Civil e Militar, de 18 de Abril de 2007 a 17 de Abril de 2008, 366 (trezentas e sessenta e seis) armas, e 62 (sessenta e dois) artefatos explosivos. Além disso, quatro agentes da lei morreram em confronto e registraram-se 107 (cento e sete) autos de resistência de criminosos vitimas de suas escolhas, além de outras 470 (quatrocentos e setenta) prisões realizadas.
Um preço caro, o da liberdade, mas que importa e convém.
O Complexo é do bem.


*Texto publicado parcialmente na edição deste domingo, 20 de abril, de O DIA

4 comentários:

Anônimo disse...

Com todo respeito, mas o Sr esta se saindo um Puxa de saco de primeira do governo. Nem parece um policial durão do BOPE que esta dando jeito no Complexo da Penha.

Carla disse...

Caro cel. Mário Sérgio,
Gostei muito do artigo sobre o Complexo do Alemão, mas e depois?????
O Estado está pronto para entrar de fato no local com educação, lazer e saúde? O PAC irá resolver de fato isso? Particularmente - e de coração espero estar redondamente enganada- creio que é mais um projeto de fachada com obras eleitoreiras e populistas que visam muito mais a coisa privada que a pública como de fato deveria ser.
O papel de consolidador da pacificação feita a sangue e ferro pela polícia caberá a quem?À União? Ao Estado? Municipio? As três esferas? entidades particulares? Associações de moradores? ONGs?
Tomara que eu esteja redondamente enganada e que a inclusão social realmente ocorra para o bem de todos aqueles que necessitam morar nas comunidades que compõem o Complexo e que estão à mercê de um estado paralelo, paramilitar e há muito abandonados pelo poder público que só apareceu por longos anos por meio de seu braço armado, colocando a polícia como a única algoz do sofrimento de centenas de inocentes que tiveram suas vidas destruídas nos milhares de confrontos na região.
Queira Deus que o Estado entre de fato e proporcione aquilo que é de sua competência. Bem - Estar Social. Saúde e educação pública e de qualidade e segurança para todos os moradores do local.E não apenas pão e circo.
Um abraço fraterno meu amigo,
Carla

PS:

Produza uma pérola

Pérolas são produto da dor, resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia.
A parte interna da concha de uma ostra é uma substância lustrosa chamada nácar.
Quando um grão de areia penetra, as células do nácar começam a trabalhar e cobrem o grão de areia com camadas e mais camadas para proteger o corpo indefeso da ostra.
Como resultado, uma linda pérola é formada.
Uma ostra que não foi ferida, de algum modo, não produz pérolas, pois a pérola é uma ferida cicatrizada.
Você já se sentiu ferido pelas palavras rudes de um amigo?
Já foi acusado de ter dito coisas que não disse?
Suas idéias e atitudes já foram rejeitadas ou mal interpretadas ?
Então produza uma pérola...
Cubra suas mágoas e as rejeições sofridas com camadas e camadas de amor...

Anônimo disse...

Sr. Cel., como oficial superior, o sr. sabe muito bem que a guerra é, além do último recurso da diplomacia, "algo que antagoniza os princípios básicos da civilidade. Se assim não fôsse, acabaríamos gostando". Desculpe parafrasear tão mal o Gal. Robert Edward Lee. A guerra é pensada e o único diálogo que se tem na guerra é o confronto. Na guerra que se trava contra a narco-traficância carioca, está objetivada a falha do poder constituído e à polícia, cabe o trabalho sujo de impor a lei, mesmo que à força. A guerra é violenta e execrável. "Sibs pacem, parat bellum", dizia o Gal. romano Caius Iulius Caesar. Para que a civilidade seja atingida, a máxima de César tem de ser aplicada, repito, infelizmente; esta é a única linguagem que se entende. PAC, PRONASCI, BOLSA FAMILIA, PRÓ-UNI, COTAS RACIAIS EM UNIVERSIDADES, são manobras políticas, ainda por cima tardías, manobras anestésicas que somente tornam indolor as feridas abertas na sociedade, que nós, homens e mulheres de bem, não temos responsabilidade nenhuma. A epidemia de dengue é outro exemplo: do que adianta a propagando ideológica do govêrno estadual veiculado na mídia, quando 95 pessoas(índice oficial sujeito a ingerência política=grifo meu), já morreram? Como culpar a sociedade por este crime de lesa-pátria do próprio govêrno, que não se preparou para esta outra guerra, onde morrem inocentes, e não as autoridades responsáveis por isso? Todos falharam Cel., mas os mortos é que pagaram o preço, quer na guerra do alemão(sejam os bandidos e principalmente a polícia), sejam os inocentes(cite-se uma criança de 8 mêses), que como o sr., poderia honrar a caveira.

EL CURA PEREZ

Anônimo disse...

Pelo que conheço do blogueiro é o governo que está puxando o saco dele. Afinal o que o governo tá fazendo ele pede a anos.