O artigo abaixo foi publicado no jornal O Globo no dia 26/09/2007 com o título Liberdade para o Alemão.
Eu o escrevi após uma ação conjunta da PM com a Polícia Civil, que resultou na morte de 19 criminosos da facção comando vermelho.
Eu o escrevi após uma ação conjunta da PM com a Polícia Civil, que resultou na morte de 19 criminosos da facção comando vermelho.
Liberdade para o Alemão
Nos últimos vinte anos a escalada da violência perpetrada por criminosos envolvidos com o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, tem preocupado tanto o cidadão comum, quanto estudiosos, governantes, jornalistas e agentes da lei.
Os efeitos do descontrole histórico da segurança pública são tão dramáticos, que já não podemos dizê-los próprios de tal campo.
Uma observação atenta ao que tem se passado em nosso Estado, com destaque para as áreas onde estão localizadas as favelas, irá revelar que a evolução do medo abarca alguns vetores comuns aos “conflitos armados”, semelhantes aos ocorridos em países e territórios envolvidos em guerras internas, com significativo número de mortos entre contendores e inocentes.
No caso carioca, cuja cidade até o início da década de oitenta ainda apresentava uma regular normalidade no seu aspecto segurança, uma combinação explosiva de fatores foi determinante para a proliferaçào de criminosos em nova faceta.
A vulgarização da cocaína, conquistando mercados nas camadas mais pobres da população, fermentada pela chegada dos fuzis e outras armas de guerra, promoveu, duplamente, grande lucro e poder para as quadrilhas que se formavam.
Em pouco tempo, desavenças internas nos bandos deram origem a dissensões e disputas por áreas rentáveis, ocasionando conflitos armados que exigiam pronta resposta dos organismos policiais, em defesa dos moradores, acuados entre o fogo cruzado dos marginais.
Entretanto, despreparadas e desautorizadas, as polícias nunca conseguiram empreender campanha efetiva para prevenção do caos que se avizinhava, concorrendo para que a segurança pública servisse muito mais como ingrediente para confeitos políticos sedutores em época de eleição, e não como objeto real das preocupações dos gestores, exercendo, assim, por inação, papel definitivo para transformá-la num macro-problema.
Por anos, seu enfrentamento, aceitando o desafio de desgastes e danos colaterais, foi postergado, e, um sem número de experimentos para controle da criminalidade foi testado a partir de fórmulas excêntricas, idealizadas por intelectuais ancorados em curiosa episteme sociológica, de tudo explicar pelas desigualdades sociais.
Assim, chegamos aos nossos dias mergulhados numa desordem aterradora, cuja solução só será possível pela realização de esforços conjugados dos poderes legais e legítimos, e da população, a partir de uma visão realista da gravidade da situação e dos ingredientes psicossociais que lhes compõe o quadro.
Primeiramente, é preciso reconhecer que os bandos possuem instrumentos de guerra, como fuzis, granadas e minas; também, que sabem se conduzir como pequenas frações de infantaria, o que inclui “conduta de patrulha”, evacuação de feridos e uso de radiocomunicação; que se estabelecem estrategicamente no terreno, dominando-o e mantendo o controle da população; que utilizam o terror como forma de intimidação, assassinando, fria e barbaramente policiais, adultos e crianças inocentes, imolando, esses últimos, em ônibus que incendeiam, com indiferença bestial.
Além disso, nos últimos anos desenvolveram uma odiosa identidade cultural que inclui: músicas louvando terroristas internacionais e seus feitos; assassínio - com tortura e secção de membros do corpo dos “inimigos”, ainda vivos, para alimentar animais famintos; homicídio de desafetos e “suspeitos” em pneus incendiados, macabramente apelidados por “micro-ondas”; uso de expressões, gestos e palavras provocativas com identidade de grupo, francamente reveladas pelos sites de socialização da internet, principalmente o Orkut, onde se exibem ao lado das cabeças decapitadas dos inimigos.
Sem dúvida, vivemos um conflito urbano armado.
É menos do que uma guerra convencional, mas é muito mais do que um simples quadro de ordem pública que possa ser tratado com instrumentos tradicionais.
Para enfrentá-lo, precisamos bem mais que aplicar modelos de policiamento ostensivo importados do exterior, pois não condizem com nossa realidade.
Se quisermos modificar, definitivamente, essa realidade, devemos aceitar o desafio sem receios, e libertar, ainda que com o “uso da espada”, a população das garras do crime, como estamos fazendo no Complexo do Alemão, livrando-a do horror.
Se quisermos ter a consciência tranqüila, livre do arrependimento comum aos que se escondem em falácias sedutoras, com as quais camuflam inépcia e incompetência, temos que ousar a liberdade, ainda que chorando a dor dos que ofereceram a própria carne ao encontro do aço, como fizeram os policiais que lá tombaram nesses últimos meses, regando com sangue e honra o solo, para a semeadura da paz.
O Complexo do Alemão será liberto. Ele pertence ao Rio. Ele pertence ao Brasil.
Mário Sérgio de Brito Duarte
Tenente Coronel PM
Ex-Comandante do BOPE
Publicado em em 29/06/07Caderno Opinião - O Globo
15 comentários:
Olá,
Se me permite, vale adicionar comentários sobre o futuro. Acredito, que como você comentou em detalhes, a displicência da sociedade entre os anos 70 e 90, principalmente os anos 90, nos levaram a necessidade do aço.
Acho importante ponderarmos em todas as cidades, que todos, tenham a consciência que a paz que iniciada hoje no Rio, só será efetiva, na transformação individual e trabalho de cada um. Argumentos na qual esperamos o governo, a "sociedade" são meros descasos como nas décadas passadas pra esconder a nossa preguiça e conivência, pois a crítica é fel fácil de se pronunciar.
Não sou aqui adepto a realizar esta modificação futura pela espada , mas sim, votando corretamente em políticos, agindo de forma social no nosso meio, trabalhando muito, estudando, enfim, usando do conhecimento e trabalho para promoção de todos.
O início pode ser governamental, porém o meio e fim só será atingido individualmente.
[]'s,
A materia presente diz respeito, não apenas ao Estado do Rio de Janeiro, mas, de todos os Estado brasileiro.
As realidades, embora não sejam, mas, são semelhantes, por isso, como diz o provérbio Biblico, de onde menos se espera de lá é que vem a "Salvação", ou entenda, a solução. Tanto pelo conceito teológico ou sociologico. O que importa é abrir a questão além da fronteira institucional. Uma atividade simpres que não custa, nada para o Estado de direito, talvez o custo, seja simplesmente a perda da vaidade, algumas "autoridades em ajar que é o salvador da pátria.
Em nosso Brasil, há pessoas e trabalhos, em muitas das vezes, nem academico, que merecem ser, lido, ouvido, conhecido, portanto, abro uma lacuna de sugestão, que tal fazemos um concurso (ou festival) de elaboração de bons Projetos na área de Segurança Pública, aí sim, vamos ver se a solução está apenas nos meios insticionais.
Sejamos todos nós povos brasileiros, um exemplo de democracia ao mundo.
Parabéns ao Sr Comandante e a todos Policiais envolvidos na ação de retomada do Complexo do Alemão.
Nunca em toda história da PMERJ,se teve um comandante à frente de uma Tropa em uma operação desta forma.
Viva o Estado,Viva a PMERJ!!!
Cabo Policial Militar Barbosa DGP.
Glorioso texto
Cel. Mario Sergio.
Quero apenas deixar aqui registrado, todo o meu apoio às ações recentes das forças de segurança. Principalmente aos gerreiros do BOPE, sob o comando do Cel. Paulo e do seu, o nosso grande CG.
Força SEMPRE, iremos e venceremos !!!
Cel Mario Sérgio,
Primeiro eu gostaria de parabenizar a ação orquestrada pelo secretário Beltrame e comandada pelo sr. Sou casado com uma ex-policial que quase foi às lágrimas se emocionando com o que nos pareceu a volta da dignidade e do orgulho de ser policial e ser reconhecido como um cidadão que se sacrifica em prol da comunidade e não um bando desorganizado de facínoras corruptos como antes os mostravam.
Fugimos do Rio há quase 5 anos e estamos até repensando o futuro da família... Será que nossa cidade voltará a ser maravilhosa?
Mas lhe escrevo tb para pedir, por favor, que comento o texto publicado em http://www.cartacapital.com.br/sociedade/violencia-no-rio-a-farsa-e-a-geopolitica-do-crime . Temos assistido vários textos que condenam a ação, que dizem que isto de nada adiante sem uma política social (o que eu de certa forma até que concordo, em parte), que seria um uso exagerado da força, repressão a sei lá quem, etc, etc...
Mas este texto vai mais longe: afirma que as ações deste governo são exclusivamente contra uma facção para intencionalmente privilegiar outra. Esta acusação me deixou até assustado...
Gostaria de saber a opinião dos envolvidos... Pois acho grave demais para ficar "no ar".
Grato cel!
E continue com o excelente trabalho!
Otavio
Senhor Comandante,
Quero aqui demonstrar o meu respeito e admiração ao seu trabalho e às suas idéias enquanto cidadão.
O seu texto foi excelente.
Paradoxalmente, apesar do lema "Ordem e Progresso" da nossa bandeira, a sensação quando paro para refletir é que estamos constantemente à beira da desordem generalizada.
Faço parte de uma classe média, mas não nasci nela e por isso, me recuso a acreditar que todos estes atos inescrupulosos podem ser explicados exclusivamente pela desigualdade social. Se assim fosse, minha família e eu seríamos todos marginais.
Eu creio cada vez mais que existe uma séria inversão de valores na nossa sociedade.
Outro dia, um policial militar, pai de uma garota decapitada aqui em Salvador, deu entrevista para a televisão. Ela havia sido seduzida por um bandido na internet. Quando questionado sobre se sabia do que a filha fazia, ele fez uma colocação excepcional. Disse que ele sempre impôs limites a ela, mas assim como muitos jovens de hoje, ela queria ter os seus direitos ampliados, porém não queria conquistá-los através do comprimento dos seus deveres.
Isso reflete exatamente o que vivemos hoje.
Que exemplo estamos dando aos nossos adolescentes? Se os bandidos (e aqui incluo os de todas as classes sociais e níveis de poder), que descumprem todos os deveres de cidadãos podem exigir tantos direitos e têm penas tão abrandadas, que tipo de argumentos teremos para provar que é necessário conquistar direitos através de boas práticas sociais?
Fico impressionada com a quantidade de bandidos perigosos e procurados pela justiça que já foram presos e conseguiram fugir facilitados por instrumentos legais.
Fico envergonhada quando vejo um jovem como eu desrespeitando a autoridade policial na mesma medida que me envergonho quando vejo esta mesma autoridade dando maus exemplos.
Onde estão a ordem e o progresso?
Eu acho que a disciplina ÉTICA deve ser ensinada e praticada nas escolas, desde cedo. Precisamos urgentemente despertar nas pessoas a necessidade de agirmos todos dentro da ordem para o bem comum.
Parabéns e força na batalha, Comandante!
Cel.Mario Sergio:
Eu e minha família gostaríamos de parabenizar o senhor e toda a corporação pela bem sucedida ocupação do Complexo do Alemão.
Esse fato foi tão emocionante que creio que se meu irmão estivesse aqui (hoje em dia seria um Tenente-Coronel)ele estaria participando junto com os outros companheiros do Bope por esta conquista.
Prezado Coronel Mário Sergio. Sou advogado, tenho 36 anos de idade e durante 32 anos morei no Rio de Janeiro. Nasci no Méier e depois fui morar em Copacabana. Cursei faculdade na Estácio de Sá, localizada no Rio Comprido e acabei saindo do estado por causa da violência e da latente inversão de valores que se instalou no referido estado. Há 3 anos que estou em Joinville, SC., onde montei um escritório e posso sair na rua com meu celular e relógio sem ser assaltado. Venho acompanhando o seu trabalho e me encho de orgulho quando vejo o Sr. firme e combativo diante do problema que ora se coloca sob análise. Pode acreditar, tenho formação militar e afiro com toda a certeza: És um homem digno da farda que veste. És um EXEMPLO a ser seguido.
Formidável a sua existência e seu caráter contagiante. Voltei a confiar na PM carioca graças à sua figura.
Coronel Mário Sérgio, parabéns.
És um grande homem.
As forças do bem agradecem o seu empenho. Eu mesmo, um dos mais céticos guerreiros do bem, agradeço pela sua existência.
Me orgulho muito do Sr. e espero sinceramente, quando um dia voltar ao Rio para visitar meu pai que há dois anos não vejo (pois da última vez que fui ao Rio fui assaltado quando atravessava a rua) queria muito apertar sua mão.
Não tenho sonho de apertar a mão de pagodeiro, jogador de futebol nem nada dessas coisas vazias. Tenho sim, uma imensa vontade de lhe conhecer e poder apertar sua mão.
Parabéns. Vamos dar passos verdadeiros para uma mudança definitiva dessa sociedade que aí está.
Vamos dar um basta a isso tudo pois já chegou a hora.
Nossa, chorei com o comentario do J. Oliveira.
Aí eu digo que vc é o CARA e vc diz q eu exagero.
MAKTUB!
Cel. Mário Sérgio
Parabéns!
Quando o esforço é verdadeiro o resultado é profícuo. O universo agradece o empenho nos oferecendo mais possibilidades de trabalho e crescimento. O momento então é de paz e assim como o frio do inverno dá lugar às flores e o calor da primavera, a vida reverencia o bom homem que absorve o ensinamento da lida, no esforço do esmero pelo aprimoramento próprio pelo bem comum. O crescimento se dá de forma gradual e lenta e quando temos perseverança ele é continuo e intenso.
Olá Comandante Mario Sergio,já enviei outro comentário, mas deve estar em outro texto,mesmo assim novamente venho lhe PARABENIZAR e aos policiais de seu comando,a todos que realizaram a ÓTIMA ocupação do Complexo do Alemão e da Penha!!
Eu e minha família ficamos tristes quando vimos notícias ruins do RJ,pois há mais de vinte anos fomos ao Rio, eu era uma menina de 10/11anos, nós andávamos por tudo,andávamos de ônibus também e não nos aconteceu nada de mau.A população era simpática, atenciosa, acolhedora. Temos ótimas e engraçadas lembranças! Temos ESPERANÇA que esses Bons Tempos voltem ao RJ!
Que Deus lhe acompanhe e a todos lutam c/ dignidade e coragem,p/ melhorar essa cidade! Cristiane do RS
Caro comandante ,interessante como algo passado a tres anos, se faz vivo e tao atual, com a diferença do resultado, que com certeza ja e definitivo.Que bom auniao das forças nacionais,que bom nao haver orgulho e vaidade, e todos se unirem em prol de todos. Vitoria das policias, e do povo.Parabens ao senhor, e aos que o senhor comanda, te admiro muito.Deus te abençoe.P.S. o senhor fica bem bonito de BOPE.
Glorioso texto
eu quero os 500,00 reais de bonificação sou IFP.porem trabalhei igual a todos!
isto é vergonhoso tirar nossos direitos
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