domingo, 9 de janeiro de 2011

Dois Cappuccinos e a conta

A revista de domingo do jornal O Globo publicada hoje, 9 de janeiro de 2011, com o número 337, traz uma entrevista que concedi ao jornalista Mauro Ventura, há cerca de três dias.

Mauro tem uma coluna muito apreciada no jornal, chamada: “Dois cafés e a conta” que, desta vez, foi publicada com “Dois cappuccinos” substituindo o café tradicional.

O texto que republico abaixo, confirma o que eu disse ao Mauro Ventura e ele exibe em trecho da entrevista absolutamente fidedigna embora não tenha visto o Mauro gravar, fazendo apenas anotações de minha narrativa.

Aliás, o único reparo fica por conta do fato de eu não ser formado em Filosofia, mas ainda estudante; um aluno que não consegue fechar o curso e sofre bastante com isso.

Com um abraço ao Mauro e felicitações por haver reproduzido tão bem a minha fala, encerro republicando a postagem que fiz em 28 de Julho de 2006, quando era Tenente Coronel e comandava o BOPE.

A leitura no original pode ser feita clicando-se no título desta postagem.




Incursionando No Inferno - A Verdade da Tropa

Eu era capitão, quando escrevi o livro Incursionando no Inferno – A verdade da Tropa, há onze anos atrás. Vivíamos uma situação não muito diferente dessa, dos nossos dias, mas ainda não havíamos naturalizado o caos.

Talvez seja este o ponto crucial: hoje, tanto a população quanto às forças policiais acostumaram-se à previsibilidade do imprevisível. Tudo pode acontecer, seja topar com um “bonde”, ou “blitz falsa”, de marginais, às duas da tarde, numa segunda feira, ou ferir-se com um tiro de fuzil a dois quilômetros de uma favela, sem sair de seu apartamento. A diferença é que não há surpresa no fato, só no azar de ter acontecido consigo.

Muitas coisas contribuíram para essa situação de descontrole e, certamente, isso começou nos anos oitenta, logo após a redemocratização do país.


Como sabemos, às polícias sempre são imputadas toda sorte de violações e arbítrio quando ocorrem mudanças nos cenários políticos, Em geral, as personagens alijadas à força pelas estruturas que estiveram no poder, quando assumem funções executivas que lhes permitam manipular as forças de garantia da lei e da ordem, como os governadores com as instituições policiais, logo tratam de talhar-lhes novo perfil, deixando explícito seu repúdio pelo organismo que serviu ao sistema anterior.

Então, uma nova postura na política de segurança é alardeada e, por sedutora, logo recebe os aplausos da opinião pública: “as violentas e impiedosas forças da repressão” devem ficar longe de suas vítimas, o que deve ser entendido pelas forças policiais na forma: quero vocês longe das favelas.


Como a estrutura de poder anterior era marcadamente organizada privilegiando a manutenção da ordem, os governantes que assumiram, (e assim foi com o Brizola no Rio), trataram de afrouxar as rédeas, argumentando em favor da cidadania e dos direitos humanos para frear as forças policiais, essas sim, segundo eles, promotoras exclusivas da violência nas comunidades pobres, ou contra as camadas sociais marginalizadas devido a sua condição de pobreza.


Ora, somente a ingenuidade pode argumentar que a ausência dos serviços de polícia em locais onde invariavelmente se homiziam criminosos, como nos espaços de desorganização social, é preferível para promoção de justiça.


E foi justamente o afastamento intencional e dirigido das polícias das favelas que provocou tal situação. Ao invés de se priorizar a inclusão daquelas áreas, criando estruturas regulares de serviços públicos de polícia, de forma potencialmente forte, com a implantação de batalhões, companhias ou pelotões da PM nas áreas mais carentes, o Estado preferiu retirá-las das favelas, abrindo mão, tacitamente, do monopólio da força, abandonando as comunidades ao seu próprio destino. O resultado hoje é este que vemos: áreas, bairros, empórios, em todo lugar há espaços onde a polícia é entendida como força invasiva, e o tráfico poder reconhecido.

Malgrado a gravidade do problema, obviamente que a situação tem saída, e não está apenas na esfera policial (grifo somente nesta re-publicação).

Mas não há mais tempo para se perder com ilações e onanismo intelectual. É preciso deixar bem claro qual quadro enfrentamos na Segurança Pública, e o que deve ser feito no nível estadual pelos governos, para enfrentar com essa estrutura legal a criminalidade e o banditismo.

Vejamos:

1. Primeiro aceitar e enfrentar com coragem, mesmo com todos os desgastes que isso possa acarretar, o fato que a situação transcendeu os níveis normais, assim entendidos, para a Segurança Pública.

2. A partir daí, encará-lo como o que de fato é: um conflito armado de baixa densidade, com características embrionárias de uma guerra interna, como nas palavras do ex-carbonário Alfredo Sirks, com condutas para-militares características de ações de guerrilha por parte dos seus elementos integrantes que buscam não apenas comercializar drogas, mas causar baixas nas forças policiais com objetivo de desmoralização e promoção de descrédito nos governos e autoridades responsáveis, mas tudo sem ideologia política.

3. Estabelecer prioridades nas ações de enfrentamento com o reequipamento dos organismos policiais, e adoção de novos conceitos em substituição a alguns totalmente ultrapassados, como, por exemplo, o conceito de destacamento de policiamento ostensivo (DPO) que já de muito não funciona como braço da lei vigilante. Os DPOs, em especial aqueles instalados nas favelas, perderam completamente a capacidade preventiva e repressiva de polícia, sendo meros prédios guardados por policiais militares amedrontados, quando não corrompidos pelos esquemas das drogas. (grifo apenas nesta re-publicação).

4. Em atendimento ao que se propõe acima, dotar as PMs de carros blindados leves para patrulhamento em ruas e logradouros onde carros comuns de polícia não podem fazê-lo sem grandes riscos para os PMs, a exemplo da rua Leopoldo Bulhões, Avenida dos Democráticos e rua Itararé, na zona norte do Rio, locais onde vários milicianos (entenda-se como policiais: a expressão ganha novo sentido somente após o advento das milícias criminosas) foram abatidos ou gravemente feridos, durante patrulhamento, por atiradores postados nas lajes das construções das favelas.

5. Construção nos acessos das favelas de destacamentos panorâmicos de policiamento ostensivo, um novo conceito de base fixa policial que conjuga prevenção e repressão pela vigilância ininterrupta de áreas-problema.

6. Criação de unidades especiais de áreas-problema, semelhante aos GPAEs, mas com efetivos realistas para superar as forças do narcotráfico, e não para funcionar como veículo de propaganda política. Aliás, o conceito de GPAE é suficiente, caso seja aplicado nas condições de superação do tráfico estabelecido, ou seja: em número de elementos, superioridade de armamento e munição, capacitação técnica para atuar tanto preventiva como repressivamente. Deverá possuir uma estrutura de inteligência que dê suporte ao planejamento das ações e operações, que promova o conhecimento sobre as quadrilhas, seus integrantes, modus operandi e os desvios de conduta da tropa. (grifo também existente só nesta re-publicação)

7. Adoção de medidas para reavivar a auto-estima profissional, como, por exemplo, modificações nos uniformes das praças, que, em épocas passadas, possuíam os mesmos uniformes dos graduados e dos oficiais, diferindo apenas nas insígnias e divisas. Nos nossos dias, os cabos e soldados possuem apenas um tipo de farda para toda e qualquer atividade. Nas apresentações festivas, solenidades, reuniões de círculo, representações oficiais e tudo mais, os cabos e soldados utilizam os mesmos uniformes que usam para os rústicos serviços operacionais e instrucionais. Dessa forma, compreendem-se desvalorizados e desqualificados e, o que deveria ser tão somente uma questão de círculos hierárquicos para definição de responsabilidades, culmina por revelar uma estratificação social indesejada.


A verdade é que para adoção dessas providências, o maior esforço deverá ser de natureza política, ou seja, somente com a compreensão da gravidade do problema que já se arrasta há décadas, iniciando-se pelos nossos governantes do nível federal, é que uma mudança significativa poderá ser intentada. (de novo, grifo particular a esta edição).


Também é verdade que essas são apenas algumas ações de um conjunto que deve ser incrementado, mas são essenciais estratégica e taticamente.


Não posso me furtar de dizer da minha convicção, de que as lideranças das nossas forças policiais conhecem e reconhecem a dimensão do problema, e vêm se esforçando na orientação das instituições no sentido de reduzir os índices de criminalidade, além de buscar enfraquecer o poder de combate dos “exércitos do tráfico”, seja pela apreensão de seus arsenais, seja pela prisão de seus líderes, todavia, administrando escassos recursos e lutando contra muitas interferências.

Sair dessa é possível. É preciso coragem, é preciso ter força, é preciso acreditar.

Mário Sérgio de Brito Duarte

Tenente Coronel da PMERJ

Comandante do BOPE

16 comentários:

Tahiane Stochero disse...

Li seu livro, Comandante, muito bom. Desejo-lhe Força e entusiasmo para contar agora a conquista do Alemão. Sucesso na pacificação deste Rio maravilhoso!

Anônimo disse...

Major PM Barriga Azul

Cel Mário Sérgio a PMERJ não é só o BOPE, acho que eu não preciso lembrar isso para o Sr.

Hoje o Governo e o seu Comando, estão criando uma situação maléfica jamais ocorrida entre os PPMM, por conta dos tratamentos diferenciados como: gratificações, DG, DAS, pecúnias, riocards, bolsas, etc.

O Sr vai ficar conhecido e citado no futuro por essas atrocidades, assim como o Cerqueira secretário de segurança, que hoje só é lembrado pelas cagadas que fez na promoção de PPMM bandidos e acomodados o que gerou oficiais e sargentos que mesmo promovidos por tempo de serviço preferem permanecer como motoristas e faxineiros bem como "apanhadores" de trânsito.

Tá todo mundo revoltado, manda perguntar a tropa (oficiais e praças), mas manda alguém que não fique com medo de lhe trazer uma resposta que o Sr. não queira ouvir.

Artes da Marina disse...

Todas querem o Coronel Mário Sérgio

Que raios de título é esse? Perguntei a mim mesma assim que digitei. Pare, ponderei e percebi que, de fato, não havia título mais apropriado pra descrever o estado de comoção nacional em torno desta figura tão rara.
A idéia para escrever este post surgiu quase que imediatamente após a constatação de que desde o início das ações policiais nas favelas do Complexo do alemão e Vila Cruzeiro, podemos acompanhar de perto, e ao vivo, nossa formosa tropa de elite de soldados, oficiais, civis e militares, desfilando sua potentes máquinas de guerra ....e seus músculos bem torneados. Pronto! Estava pintado o cenário. Nos dias seguintes só se falava disso em meio às ações policiais...”Você viu aquele oficial do BOPE?”, “ E aquelezinho da Polícia Civil? Noooosssssaaa!!!”...Mas em meio à tanta farda, fuzis e câmeras de TV, uma figura reinou soberana por entre todos os outros mortais: o bendito Coronel Mário Sérgio. Digo bendito, porque foi exatamente isso que ele personificou: um bendito homem que materializou o que muitas mulheres sonham por décadas. A partir daí, a figura do policial nunca mais seria a mesma.
Minha irmã foi a primeira a me dar o sinal.
- Você viu o Coronel Mário Sérgio? E eu, na minha alienação, respondi: Não, quem vem a ser?
- Nossa, corre pro google e digita lá.
Uau!!! Não é que ela tinha razão?

Mário Sérgio, com todo o respeito, colocava por água abaixo a figura do policial truculento, massa de músculos e sem cérebro. Ao contrário, o nosso herói aqui na berlinda é graduado em filosofia pela UFRJ !!! E que fluência!! Que articulação!!
As moças comentam por todos os lados: “Não só é lindo, mas inteligente!!! É muita areia pro meu caminhãozinho!!!”
E deve ser mesmo, mas o fato é que todas sonham e desejam o Coronel Mário Sérgio por vir a encarnar a mais pura essência masculina. Cara de bom pai, bom marido, feições talhadas pelo tempo (só 50 aninhos!!!), competência profissional, seriedade, lisura e mais, muito mais....
E sabe por que todas nós sonhamos com ele? Porque é brasileiro, é produto nacional. E aí, pensamos: se tem um dele por aqui em nosso território, certamente terão outros exemplares perdidos por aqui...é só olhar com mais cuidado.
Se por acaso ele vir a ler estas singelas linhas, que considero um honesto e autêntico elogio de admiração, peço desculpas pela brincadeira, mas é a mais pura verdade.
Em um país que valoriza a degradante figura do macho abusado, sem modos, sem virtudes; que quer levar vantagem em tudo e se orgulhar pela malandragem, não me admira que a esperança volte a reinar de que os bons homens ainda existam.
Seja feliz, virtuoso e bem sucedido em sua jornada Sr Coronel...com todo respeito!
Um fraterno abraço
Cláudia

Anônimo disse...

Caro amigo, siga em frente e saiba que admiro o seu trabalho desde o inicío.
Adorei a ocupação do Complexo de São Carlos e adjacências. Espero que o governo cuide dos bairros do Rio Comprido,Catumbi e Estácio que há anos se encontram abandonados.Um abraço e boa sorte de uma pessoa amiga.

Anônimo disse...

Ola Mario Sergio,

Otima a sua visao do DPO's nas favelas. Mas o que mais gostei e admiro e` o fato de discursar com inteligencia e sagacidade sem apelar para a truculencia. Quando vi daqui do exterior sua atuacao no Complexo do Alemao,disse para alguns amigos ingleses: do not worry,won't be a Bloody Sunday! Eu sabia que sua inteligencia e poesia no coracao,sempre ira prevalecer..O conhecimento eh arma poderosa,eh coragem!Abraco grande..Fatima Carvalho,Londres.

Roseli Laranjeira disse...

Prezado cmte, por que esse silencio ?

Anônimo disse...

Sr. Comandante, sou um internauta contumaz e costumo frequentar todos os sites e blogs que têm assuntos relacionaados com a PM, e muito me incomoda as constantes postagens dos SGT de curso, seja de 2004, 2005 e por ai vai, os mesmos vivem dizendo que são injustiçados que já era tempo de terem sido promovidos a 2º SGT e por ai vai a choradeira. Pergunto por que o Sr.não acaba definitivamente e publica em seu blog que os mesmos deverão aguardar os seis anos de interstício, e que eles foram promovidos antes a 3º SGT graças ao CEL UBIRATAN, e que eles só serviram para engrossar o policiamento de eventos como Maracanã? Acho que se o Sr. se posicionar acabará definitivamente com essa encheção toda vez que chega as datas de promoção por merecimento. Eu por exemplo estou tranquilo pois tudo foi ao seu tempo, com 15 vou ser promovido a 3º SGT e daqui a pouco serei promovido a segundo muito antes de alguns SGT de curso. No BTL eu costumo encarnar nos SGT de curso dizendo que quando eu passava no PATAMO e eles estavam soltando pipa eu passava em cima da lata de linha, agora eles tem que esperar. Como o cara vai ser mais antigo do que eu que cheguei primeiro.
Obrigado CMT.
REALISTA

Anônimo disse...

O PM do Rio de Janeiro,Ganha uma Miseria.

Mario Zeferino disse...

AQUELE QUE ENTENDE A SEGURANÇA PÚBLICA COM FILOSOFIA, PERCEBE A DINAMICA DE COMBATE TAMBEM COM FILOSOFIA.

♥cinderela♥ disse...

Passei por aqui
Bjs meus !
Sigo-te!

História e Arte disse...

Oi Mario sergio!!!Admiro muito você,acompanho cada momento seu pelos jornais e pela tv,e sou solidaria em tudo que ha de seus conhecimentos.

Anônimo disse...

Cel. Mario. Sou ex militar e estou na reserva, mas tua pessoa inspirou muitos verdadeiros combatentes contra o crime de qualquer esfera... Que Deus faça o melhor pela sua recuperação meu amigo. FORÇA E HONRA... SEMPER FI..."VÁ E VENÇA" CAVEIRA! Lima Santos. www.otaae.blogspot.com

Anônimo disse...

Comando infelizmente todos acham que policia é só o BOPE, ninguem lembra dos outros policiais que botam suas vidas em risco pela população.O senhor consegui fazer o que o governador queria ou seja dividiu a policia.Fico triste pelos acontecimentos pois mancha nossa farda!Vida que segue nos policiais vamos continuar trabalhando e recebendo quando fazem deposito R$50.00(cinquenta reais) de riocards uma vergonha, fazer o que, sem direito a ir ao hospital pois chefia acha que estamos armando!Boa sorte em sua nova vida pois como Comandante não foi muito feliz!

Anônimo disse...

Parabéns pela Coragem, Cel. Mario Sérgio.

Fica dificil realizar nosso quando é a politicagem e o abuso da boa vontade que reinam soberanos no munod atual.

Força e Honra sempre!

Abraço

Anônimo disse...

Amigo pessoal do Tenente-Coronel matador de juíza? E que já cometia crimes e mais crimes antes? Me decepcionei enormemente. Não vou pré-julgar mas a decepção com a nossa PM aumenta a cada dia. Reforma urgente em toda a estrutura da PM. Aumento de salários também. Mas se salário e trabalho estressante fossem os´culpados de tanto crime teríamos vários professores do estado e do município criminosos.

Anônimo disse...

cel mario sergio obrigado pelo que o senhor fez pela pmerj, o senhor foi meu comandante no 22btl e sei da sua capacidade só tenho a agradecer pode ter certeza que a pmerj só ganhou no periodo que comandou a nossa querida pmerj um forte abraço.