segunda-feira, 7 de maio de 2007

A Patrulha Segue em Frente

Pertinente e justo o protesto do Tenente Coronel Pinheiro Neto, Comandante de BOPE, contra a fotografia publicada no jornal O Globo, do dia 04 do corrente, exibindo o holocausto do Soldado Wilson, do Batalhão de Operações Policiais Especiais, mortalmente ferido, quando avançava em meio a uma troca de tiros entre o BOPE e narcotraficantes da Vila Cruzeiro, tentando romper a linha de fogo inimiga.

Como líder atento aos reclames de sua Unidade, o Oficial Superior conversou, no último sábado, dia cinco de Maio, com um grupo do periódico que se encontrava cobrindo mais uma etapa da operação que a Unidade Especial está realizando naquele local.

Pinheiro Neto buscou mostrar-lhes o desserviço à população do Rio de Janeiro, que é exibir uma fotografia com tamanha carga emocional descontrutiva e, que, sob nenhum argumento, há de promover informação e conhecimento. Mostrar um bravo policial agonizante só pode interessar ao tráfico e seus áulicos. Pinheiro Neto protestou e O Globo exibiu-o, na edição de hoje, 07 de Maio, por constrangedor aos jornalistas ao declarar-se indignado.

É a inversão da verdade. No caso em questão, constrangedor foi o GLOBO.

Aliás, abaixo transcrevo, na íntegra, artigo de minha autoria encaminhado ao Jornal do Brasil e publicado na página A9, do Caderno Cidade.


Morte não foi em vão

Logo cedo, lendo os jornais que adquiri na primeira esquina onde havia uma banca, quebrando uma rotina confortável de conhecer as notícias por um release, me deparei com uma fotografia do Soldado Wilson, meu ex-comandado do BOPE, mortalmente ferido e sendo retirado da linha de fogo que tentara romper, na Vila Cruzeiro. Arriscando-se a ser igualmente alvejado, arrastava-o, num gesto heróico, o seu companheiro de equipe, o Soldado Ros.

O retrato impactante da morte, aliás muito comum em jornais sensacionalistas, contrastando, incompreensivelmente, com a linha editorial do Globo, causou-me profunda impressão. Wilson era um desses vocacionados para a ponta da patrulha, ou seja, para ser o primeiro homem do grupo a ter contato com a presença do opositor. Mais do que fazer bem sua função, gostava disso. Conjugando coragem e sentimento do dever, não se detinha pela possibilidade iminente do combate, agindo da mesma forma sob fogo cerrado. Cumpria, com risco da própria vida e com lealdade, seu juramento de policial e militar.

Qualquer que exerça a profissão policial no Rio de Janeiro, nos nossos dias, sabe que a morte ronda e perscruta.

Vivemos um conflito bélico e o BOPE é um excepcional gládio de guerra. Alguns “especialistas em segurança pública”, mormente aqueles que da agrestia do delito só conhecem as descrições contaminadas de indivíduos com interesses no crime, dirão que “esta afirmativa é uma clara demonstração da mentalidade reacionária e conservadora, que evidencia a face violenta da polícia”. É fácil dizê-lo: eles não conheceram, e nem conhecerão, a verdade pelos olhos do soldado Wilson, ou do soldado Ros, que o retirou da linha de fogo.

Vivemos uma guerra desigual, em que só uma das partes – as polícias - têm obrigações de ordem legal, moral e ética para cumprir. Uma guerra com armas e condutas características das encontradas nos conflitos entre nações, estados, nas guerras civis - insurrecionais ou revolucionárias - mas motivada pela insanidade de algumas bestas humanas, com a complacência de considerável parcela da elite intelectual. Uma guerra em que o “exército do pó” utiliza crianças como escudos para fugir a ação da polícia, quando não busca ferir, intencionalmente, os moradores, mobilizando, logo em seguida, aqueles mesmos, para manifestações contra “a violência policial”.

Vivemos uma guerra com os modernos observadores da benemerência onguista, mediando em favor de um lado só, o do crime, e atacando, com todas as suas armas de pressão política e manipulação da informação, o lado representado pelo Estado; seja quando busca resguardar a vida dos seus integrantes, dando-lhes viaturas com blindagem protetora, ou quando exercem, legitimamente, seus misteres, buscando desarmar criminosos em seus territórios de atuação.

A morte do soldado Wilson não vai abater os homens do BOPE, não obstante a saudade que sua ausência deixará. Seu sacrifício pela sociedade vai se multiplicar em luta, como bem disse o Secretário de Segurança, doutor Beltrame.

O aguerrido Soldado Ros assumiu a ponta. O Tenente Coronel Pinheiro Neto, seu Comandante, já sinalizou a direção.

A patrulha segue em frente.

Mário Sérgio de Brito Duarte é Tenente Coronel PM e ex-comandante do BOPE

12 comentários:

Anônimo disse...

Ilustríssimo Senhor Coronel Mário Sérgio,


A opinião que expresso aqui, em verdade, não tem relação com a postagem a qual está atrelada.
Penso que tratamentos respeitosos, como o que exordia este comentário, deveriam ser - em quaisquer circunstâncias - absolutamente facultativos. Se o fossem, gostaria que soubesse que estas linhas seriam iniciadas rigorosamente da mesma forma.
Sou Praça da Polícia Militar, e, após a leitura atenta de alguns de seus post, sinto-me desafortunado em – nos longos anos em que habito esta caserna - não ter servido sob seu comando.
À primeira vista, poderia até parecer bajulação de um subordinado. Considerando, entretanto, que ao dirigir-me à V. Sª, o faço de maneira anônima, espero estar descartando esta possibilidade.
Sou entusiasta da idéia de desmilitarização e unificação das polícias estaduais. Esta posição se solidificou justamente pela ausência de líderes como o Senhor. Seus artigos parecem ratificar minhas impressões sobre liderança e Oficialato.
Vossa Senhoria poderá - se o desejar - ter idéia do estado de espírito em que me encontro. Ele está expresso em diversos comments, em especial no blog “O Alvo da Chibata”, onde sempre são identificáveis, por serem encerrados com a interjeição DESMILITARIZAÇÃO JÁ!!
Como já disse, não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas, acredito que a lavra seja incapaz de disfarçar a alma. E, considerando que é sereno e firme; considerando a rima, o conteúdo, as idéias e o ritmo com que as expressa, seria capaz de jurar que seu texto verdadeiramente traduz quem o Senhor é.
Cuide de sua carreira, Coronel. Ela já não lhe pertence mais. É patrimônio do povo sofrido deste Estado, que precisa demais de homens como o Senhor.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Respondendo ao Missivista que identifico como “Desmilitarização Já!!”

Prezado companheiro de lutas.

Inicialmente queria agradecer-lhe a deferência especial. Tenho acompanhado vossas postagens no Alvo da Chibata, e confesso que já de algum tempo vinha imaginando uma maneira de contatá-lo. Se não o havia feito, foi porque não estava convicto de que isso poderia contribuir para a discussão que o prezado companheiro tem se esmerado em trazer aos valorosos integrantes da PMERJ.

Todavia, a profundidade das questões aventadas, e apresentadas com uma estética de qualidade que vai do bom português ao emprego de instrumentos filosóficos pertinentes - como a argumentação racional - motivaram-me a não desanimar.

Acredito que somos uma Corporação de Bravos, e o ilustre companheiro me brinda, agora, com a oportunidade de produzir conhecimento e ganhar sabedoria.

Não tivemos o prazer de compartilhar mútua convivência até hoje, e vejo, com clareza, que a honra de servirmos juntos seria minha.

Gosto de debater idéias, discutir pontos de vista e nem sempre tenho interlocutores na Corporação por vários motivos, entre eles porque somos muito ocupados, e sonegar, com dialética ou qualquer conversação extra-profissional, no quartel, em horário de folga, o tempo precioso que devemos dedicar à família, não ajuda muito na construção de uma imagem popular, convenhamos.

Também, não quis convidá-lo a conhecer meu blog por recear ser entendido como pretensioso. Se fosse da Providência conhecê-lo, tal acabaria ocorrendo, como de fato aconteceu. Nada é por acaso.

Termino por dizer-lhe, nesta resposta, que vossa bandeira é oportuna e legítima, pois, não obstante anônima, tem identidade expressa na coerência, na correção e na completude sempre presentes nas análises e provocações filosóficas.

Não defendo a mesma bandeira (da desmilitarização), que vós, mas me sinto melhor, muito melhor, vendo "Generais de Ideais" expondo sua formação para combate, com lealdade e franqueza.

Força e Honra!
Lealdade, Destemor e Integridade.
Mário Sérgio de Brito Duarte
Tenente Coronel
Caveira nº 37

Unknown disse...

Parabéns pelo comentário!
Saiba que cidadãos conscientes apoiam a polícia equipada, bem remunerada, motivada e honesta. Só acho que deveria haver mais ação política de aproximação da polícia com a sociedade, principalmente com as crianças. Se isso já é feito, a mídia deve ser utilizada como forma de divulgação, pois infeliamente a notícia ruim é que dá audiência, mas acredito que o exposição do dia a dia da polícia levará a população a se orgulhar mais da polícia.

Anônimo disse...

Caro Coronel Mário Sérgio,

Inicialmente, peço escusas por não manter em meu comentário o mesmo padrão de erudição que norteam os textos aqui publicados.
Gostaria de poder escrever de forma tão naturalmente culta como o Senhor.
Sou leitor assíduo do seu Blog, gostaria de estar em posição hierarquicamente superior a do Senhor, só para ter força cogente suficiente para incumbi-lo da missão de postar textos novos diáriamente.
Mas desta vez peço a venia de discordar do Senhor.
Sempre considerei deveras complicada as relações da imprensa com a sociedade, principalmente quando em um dos lados esta qualquer organização militar, que por questões históricas e sociológicas, que não cabe aqui enfrentar, possuem uma relação um tanto quanto conturbada.
A linha entre a liberdade de informação e o abuso no direito de informar é muito tênue e instável e em linhas gerais temos que a "liberdade de expressão" acaba por justificar toda e qualquer publicação, mesmo que o fim dela seja meramente mercadológico, ou seja não tão nobre assim.
Mas no caso em questão, muito embora entenda sua plenamente justificada opinião, bem como a do Comandante que o sucedeu, entendo que a foto deveria sim ser publicada.
Para um leigo como eu, o BOPE, inclusive utilizando-se da imprensa e de outras formas de divulgação(não sei se de forma voluntária ou não, como disse sou leigo)criou uma verdadeira mística em torno da sigla, seus guerreiros são quase uma "entidade" que desafia a morte.
Por mais que as pessoas que verdadeiramente conhecem o batalhão procurem desmistifica-lo, aduzindo sempre que o eu nível de excelência vem de muito treino, seleção rigorosa e muito, mas muito trabalho em suas incursões diárias pelas favelas cariocas, o fato é que o BOPE possui esta imagem e tudo que envolve o batalhão é potencializado.
Ao publicar a foto, o jornal mostrou que BOPE é feito de pessoas, que podem morrer em um confronto, e nem sempre de forma heróica.
A foto é forte, mas extremamente humana, desgraçadamente humana, mas humana.
Não vejo na foto um efeito desmoralizador do Batalhão, e o interesse da bandidagem nela, duvido que ela encoraje algum bandido a enfrentar o BOPE, pelo contrário quem se vangloriar do ato sabe que enfrentara as consequências.
Mas se a bandidagem a foto pouco representa, para as pessoas de bem, que estão no asfalto ela é significativa, até o BOPE às vezes encontra a morte e isso foi registrado, é real e portanto deve ser divigulgado.
Sempre existiram opiniões e visões divergentes sobre a imagem, como a minha e a do senhor, e só o fato de elas existirem já seriam motivos suficientes para a sua divulgação.
Bem acho que já me extendi demais.

Cordialmente

Benito

Unknown disse...

Olá Mário, estou retribuindo o seu comentário no meu blog sobre o seu livro! Vou dar uma olhada legal no seu blog... o assunto é interessante!

abcs
Valdecir
www.valdecircarvalho.com.br/blog

Hugo Rodolfo disse...

Olá caro amigo.
Tendo visto recentemente a foto de um “BOPEANO” (SD PM Wilson) tombado e agonizando, transportei-me à época em que ainda servia no BOPE, quando, então tenente, juntamente com outros caveiras de nosso curso. Recordo-me que fato idêntico aconteceu com um companheiro e amigo, além de excelente profissional, o “caveira” SGT José Renato de Menezes. Na realidade, naquela época, sofremos por mais quatro dias, pois nosso companheiro permaneceu ainda vivo, mas completamente em coma no CTI do HCPM. Foram dias de profunda tristeza e angústia para todos nós oficiais e praças. Éramos naquela época, um grupo de pouco mais de 120 homens, assim sendo, muito ligados individualmente por se tratar de um pequeno contingente. Os periódicos também deram relevância ao fato, querendo dar um cunho informativo, sempre homiziados na tal da “liberdade de imprensa”. Os editores dos mesmos, sequer pensaram em publicar algo que se solidarizasse com a tropa do BOPE, muito menos com a família do SGT Renato, exatamente como aconteceu com o SD Wilson.
Lembra-se que já mencionei, inúmeras vezes, que seguimos linhas diferentes, principalmente no campo profissional? Pois é! Naquela época, ninguém ficou parado após a morte do SGT Renato. Quem viveu a experiência sabe do que eu estou relatando. Nossas linhas de pensamento e atuação, certamente hão de se cruzar brevemente. A razão do planejamento, a objetividade da informação, a preparação e o incentivo aos nossos homens, certamente estão sendo colocados em prática diariamente. Contudo, quero lembrar que não se pode somente lamentar a perda de qualquer homem no cumprimento de seu dever, muito menos um homem do BOPE. Não se combate desvio de conduta, com palavras. Não se repele a agressão de um tiro, distribuindo rosas. Não se pode arrancar, a dor da perda de um amigo, de dentro do peito, com homenagens póstumas. Assim sendo, não se pode ficar esperando que novas mortes venham a ocorrer. Já comentei em outro “post”, desse seu blog, que está na hora de se iniciar uma forma mais dura e severamente orientada para acabar com toda essa balburdia que o Estado do Rio está passando. Não se deve ficar culpando a política e os políticos, por tudo que eles não querem realizar. Afinal de contas, nós somos os profissionais da segurança e eles simples políticos e suas políticas. ALGUÉM PRECISA DIZER ISSO A ELES!!!!
Não se pode ficar simplesmente, discordando de idéias e contrapondo opiniões. Isso já acontece desde a época de “Castrioto”. Há que se desconhecer os interesses, dessa mídia oportunista, pois já estamos vivendo em um estado intragável de acontecimentos, e, não ficar imaginando que algum dia, algo de positivo e grandioso será publicado enaltecendo as operações policiais. Não devemos sequer ficar comentando esta ou aquela notícia, é pura perda de tempo. Temos que agir. Lamento ser atualmente o “Patinho Feio”, pois coragem não me falta para dizer algumas formas “científicas” de como poderemos minimizar o estado atual das coisas. Porém, como já disse acima, não há outra forma... em breve nossas linhas de pensamento, e maneiras de agir, terão que se cruzar, quer queria ou não!!!!
Abraços
SEMPER FIDELIS
Caveira nº 48

Hugo Rodolfo disse...

Olá caro amigo.
Tendo visto recentemente a foto de um “BOPEANO” (SD PM Wilson) tombado e agonizando, transportei-me à época em que ainda servia no BOPE, quando, então tenente, juntamente com outros caveiras de nosso curso. Recordo-me que fato idêntico aconteceu com um companheiro e amigo, além de excelente profissional, o “caveira” SGT José Renato de Menezes. Na realidade, naquela época, sofremos por mais quatro dias, pois nosso companheiro permaneceu ainda vivo, mas completamente em coma no CTI do HCPM. Foram dias de profunda tristeza e angústia para todos nós oficiais e praças. Éramos naquela época, um grupo de pouco mais de 120 homens, assim sendo, muito ligados individualmente por se tratar de um pequeno contingente. Os periódicos também deram relevância ao fato, querendo dar um cunho informativo, sempre homiziados na tal da “liberdade de imprensa”. Os editores dos mesmos, sequer pensaram em publicar algo que se solidarizasse com a tropa do BOPE, muito menos com a família do SGT Renato, exatamente como aconteceu com o SD Wilson.
Lembra-se que já mencionei, inúmeras vezes, que seguimos linhas diferentes, principalmente no campo profissional? Pois é! Naquela época, ninguém ficou parado após a morte do SGT Renato. Quem viveu a experiência sabe do que eu estou relatando. Nossas linhas de pensamento e atuação, certamente hão de se cruzar brevemente. A razão do planejamento, a objetividade da informação, a preparação e o incentivo aos nossos homens, certamente estão sendo colocados em prática diariamente. Contudo, quero lembrar que não se pode somente lamentar a perda de qualquer homem no cumprimento de seu dever, muito menos um homem do BOPE. Não se combate desvio de conduta, com palavras. Não se repele a agressão de um tiro, distribuindo rosas. Não se pode arrancar, a dor da perda de um amigo, de dentro do peito, com homenagens póstumas. Assim sendo, não se pode ficar esperando que novas mortes venham a ocorrer. Já comentei em outro “post”, desse seu blog, que está na hora de se iniciar uma forma mais dura e severamente orientada para acabar com toda essa balburdia que o Estado do Rio está passando. Não se deve ficar culpando a política e os políticos, por tudo que eles não querem realizar. Afinal de contas, nós somos os profissionais da segurança e eles simples políticos e suas políticas. ALGUÉM PRECISA DIZER ISSO A ELES!!!!
Não se pode ficar simplesmente, discordando de idéias e contrapondo opiniões. Isso já acontece desde a época de “Castrioto”. Há que se desconhecer os interesses, dessa mídia oportunista, pois já estamos vivendo em um estado intragável de acontecimentos, e, não ficar imaginando que algum dia, algo de positivo e grandioso será publicado enaltecendo as operações policiais. Não devemos sequer ficar comentando esta ou aquela notícia, é pura perda de tempo. Temos que agir. Lamento ser atualmente o “Patinho Feio”, pois coragem não me falta para dizer algumas formas “científicas” de como poderemos minimizar o estado atual das coisas. Porém, como já disse acima, não há outra forma... em breve nossas linhas de pensamento, e maneiras de agir, terão que se cruzar, quer queria ou não!!!!
Abraços
SEMPER FIDELIS
Caveira nº 48

Anônimo disse...

Ilustríssimo Senhor Coronel Mário Sérgio

Considerando o currículo, e, considerando a coerência objetiva, e a retórica do autor – há de se concordar que - comentar seus artigos, não é tarefa lá muito atraente.
Entretanto, acredito que a enorme paciência e a generosidade - presentes na resposta à minha intervenção anterior - me permitam continuar tentando.
Mais uma vez seu texto é pertinente. Ele chama atenção para a responsabilidade que os órgãos de imprensa tiveram, na construção do quadro atual da violência no Rio de Janeiro. Resvala também, em uma das maiores deficiências na nossa política de segurança: relações públicas e marketing.
Obviamente não me refiro aos profissionais de polícia empenhados neste segmento, e sim à política administrativa referente a este mister.
Já existe consenso quanto à importância da informação. Precisamos agora aprender que a divulgação inteligente dela, é tão importante quanto a sua aquisição. Se por um lado, o acesso e o correto gerenciamento de informações relevantes, traduzem-se em fatores fundamentais para tornar o aparato policial mais eficiente, por outro, a correta divulgação de suas ações certamente redundará em tornar suas corporações mais sólidas, confiáveis, reconhecidas e bem remuneradas.
A história recente nos ensina o quão decisivo a propaganda foi, em todas as guerras do ultimo século. As físicas e as ideológicas.
Muitos dos que lutam ao lado da legalidade e da razão, e em prol da liberdade e da justiça, vem cometendo de maneira recorrente o mesmo erro ao longo dos últimos tempos: acreditar que suas batalhas - por legítimas que são - não necessitam de homologação da opinião pública.
Não é bem assim: a maneira como se vende uma idéia, é ás vezes, mais determinante para o sucesso ou fracasso, do que a visão ética da questão.
Hitler percebeu isto, e - embora de maneira empírica - os traficantes cariocas também. Uma demonstração clara é que, atualmente, ser chamado de “X-9” nas favelas do Rio de Janeiro é ofensa muito maior, que ter a virtude da genitora questionada.
Com relação à publicação da foto, embora respeite opinião dele, e ache o debate saudável sob qualquer circunstância, discordo do comentarista Benito, que postou aí acima. E discordo porque – como alguém que vive este cotidiano – sei ser a intervenção do BOPE, a medida mais temida pelos traficantes.
Em alguns casos, é a única medida realmente temida por eles.
O cidadão comum – não por sua culpa – desconhece determinadas nuances desta guerra. Atualmente, pela mística que se criou em torno destes, o assassinato de um dos “homens de preto” gera para o assassino, destaque e ascensão hierárquica no contexto de sua quadrilha. Pior ainda se o crime for documentado com destaque pela mídia.
Efeito análogo se produz se o criminoso praticar um seqüestro, por exemplo. Se este for bem sucedido, quanto maior o pânico gerado na sociedade, tanto mais temido pelos outros bandidos ele será. Quanto maior for a “ousadia” do marginal, quanto maior for o destaque dado ao crime por ele praticado, tanto maior será o seu “status”.
E a maioria dos jornalistas não desconhece este resultado.
Já está na hora da imprensa – por formadora de opinião que é – assumir seu papel na luta contra o crime. A prerrogativa de fiscalizar lhes é legítima, mas, exercida isoladamente, muito cômoda.
É complexa a discussão sobre liberdade de imprensa. Muito mais em um País cheio de “vítimas a indenizar” como o nosso. Mas, se a imprensa é a guardiã da sociedade, fica no ar a velha pergunta: "quis custodiet ipsos custodes?".

Ao Senhor, o meu respeito.



Desmilitarização Já !!

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezado companheiro “Desmilitarização Já”. (com extensão ao companheiro Benito)

Vou iniciar esta postagem discordando do valoroso companheiro. Não naquilo que é essência em vossa bandeira, sua síntese; não vou entrar nesse campo, porque posso desperdiçar oportunidade preciosa de me permitir desfrutar de sua interlocução lúcida e franca. Por ora não falaremos disso, se me permitir. Deixemos para uma oportunidade vindoura.

Minha discordância é sobre vossa consideração sobre sua dificuldade em comentar meus textos. Do contrário, vossa facilidade em fazê-lo é evidente e, ainda que essa seja a segunda correspondência a mim dirigida, não tenho nenhum receio de reconhecê-lo por um excelente escritor; e ótimo, ótimo mesmo, argumentador, credencial maior de um pensador. A tradição européia considera filósofo quem filosofa. À moda européia, filosofemos, então.

Estou de pleno acordo sobre a questão da mídia. Aliás, não tive tempo de responder ao companheiro Benito, outro pensador de fácil identificação em sua envergadura, já na primeira impressão. Buscarei responder a ambos.

Já de algum tempo que venho lendo material (textos, artigos, ensaios) produzido por críticos e observadores da mídia. Silvia Moretzon é minha preferida. Lúcida e corajosa, já enfrentou o sarcasmo e a objeção de sua contundente produção intelectual, principalmente em ambientes de mídia. Embora conhecidíssima há poucas informações sobre ela na internet; muito menos do que deveria haver, considerando seu quilate.

Mesmo assim, não faço uma crítica generalizada à imprensa, mas, se encontro algo que julgo indevido, apresento francamente minha refutação. Assim se deu com a declaração de apoio ao coronel Pinheiro Neto, comandante do BOPE. Não pus em cheque o direito do jornal em publicar a foto; critiquei, sim, como o valoroso Cmt, a exposição do holocausto do policial, porque somente ao narcotráfico poderia servir a veiculação gratuita daquela “obra” odiosa do crime, o assassínio intencional de um Policial Militar. O jornal aumenta a tiragem, mas dá aos matadores extensivos de Tim Lopes o insumo apetecido de suas almas doentes, que é a visibilidade do mal que podem causar.

Mas, prezado amigo, continuo lendo vossas postagens no Alvo da Chibata; profundas nos argumentos e abundantes nas lições de intelectualidade vigorosa, sem exageros. Não deixe de fazê-lo e quando puder, ficarei honrado com vossos comentários no meu blog. Nossos companheiros da PM conhecem pouco os meus escritos. Sou mais lido fora.
Escândalos ainda são mais interessantes.

Anônimo disse...

Ilustríssimo Senhor Corenel Mário Sérgio e ao companheiro doravante denominado Francisco.

Inicialmente agradeço as deferências e mim feitas, mesmo acreditando que não as mereça. E aproveito para fazer minhas as palavras do colega Francisco, que se adequam com perfeição ao letrado do ilustre genitor do Blog.
O debate neste nível de erudição se torna magnificante e ao mesmo tempo ardiloso, dada a dificuldade em ao menos tentar manter-se no nível daqueles que considero muito mais valorosos debatedores.
Mas voltando ao assunto, como disse acho que toda e qualquer relação que envolva a mídia e órgãos da administração estatal é muito complexa.
O papel da mídia e seus efeitos sobre sobre as mais diversas parcelas da sociedade(incluindo ai, bandidos e policiais) merece um blog próprio e uma discussão acalorada.
Li alguma coisa da grande Silvia Moretzon, sobre a realidade e a ficção na produção do medo. O professor Paulo Vaz da UFRJ fez um estudo interessante sobre a relação entre a mídia e a sensação de medo da população.
De fato a imprensa costuma se pautar muito mais em valores de mercado do que de ética. A desgraça em geral vende muito mais jornal do que a foto de um belo jardim florido e, com a foto em questão não foi diferente.
Mas é neste ponto que delimita-se nossa discordância, não conheço a realidade dos bravos combatentes que incursionam nas favelas cariocas.
Acho natural que diante da foto de um companheiro tombado, o nível de indignação dos companheiros de caserna, seja muito maior do que o meu, até pq provavelmente a imagem deve aflorar sentimentos que eu não seria leviano a ponto de sequer tentar entender.
E talvez este seja o mister de nossos entendimentos divergentes.
Não acho que a imagem interessa só a bandidagem, acho que ela interessa a sociedade, se foi explorada de forma sensacionalista ou não, cabe a cada um discernir, dentro de seus conceitos e sob a sua ótica.
Por isso defendi a publicação da foto.
Bom, novamente me alonguei demais, nunca cumpro meu objetivo de escrever um comentário pequeno, e por isso peço desculpas se por ventura, ou melhor por falta dela, o texto ficou massante.

Cordialmente,

Benito

Anônimo disse...

Realmente vejo tal fotografia como um insulto ao psicológico de cada cidadão que se põe a comprar um jornal, é completamente doloroso ver que até as emissoras de tv/jornal estão fazendo jogadas políticas.
Sempre assim, quando um "trabalhador" morre, é aquele escândalo. Com manifestos de parar o trânsito,sendo reflexos continuos de "chefes" do morros.
Usando sempre as mulheres e crianças para chorarem bastante de frente para as câmeras!!!
E quando um militar morre, os sociólogos somem, não existe protesto algum, nem passeata. Há um tempo atrás algumas mães de militares se juntaram e fizeram um protesto, mas a sociedade já se esqueceu.

É possível esquecer daquele protesto da "Faixa de Gaza", uma verdadeira vergonha...
Este soldado teve seu rosto estanpado na capa do jornal, foi injustamente assassinado por bandidos ( levando - se em cansideração que a bala veio da onde tinha aquele muro que foi demolido), e assim consequentemente muitos chefes de facção fizeram festa!!!
(Me lembrei do caso do 174,todos nós queriamos tanto que aquilo tudo terminasse logo, com todos vivos, quando vi as entrevistas, uma pessoa falou: "A sociedade não estava preparada para ver os miolos do ... espalhados pelo vidro do ônibus" - pura verdade)

É, mas isso não pode continuar assim... o BOpE volta e desarticula aquele bando que fez chorar a tropa de elite...
Muito bem pago...
A saudade vai sempre ficar nos corações de cada combatente, mas a sociedade quer mais, a sociedade quer que a polícia faça uma limpa, ninguém está mais aguentando viver assim.

Antigamente eles respeitaram os moradores, vizinhos...
Hoje em dia eles não querem nem saber, se não dançar conforme a música, esta perdido...

É, essa realidade realmente é muito forte, a sociedade não tem que ver isso nos jornais, até em consideração aos seus familiares...

É bom saber que o trabalho vai sempre continuar... Acredito.

Aguardo resposta
Roberta Mendes

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezada Roberta Mendes

Felizmente a sociedade começa a se dar conta da odiosa cultura espargida pelo narcotráfico, nas mentes invigilantes dos nossos jovens.

Agora vamos torcer para que a mídia encontre um caminho que privilegie seu papel social, e não vise só o lucro que vem pelo escândalo, como no caso da fotografia em questão.

Obrigado por seu comentário.