sexta-feira, 29 de junho de 2007

Liberdade para o Alemão


Nos últimos vinte anos a escalada da violência perpetrada por criminosos envolvidos com o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, tem preocupado tanto o cidadão comum, quanto estudiosos, governantes, jornalistas e agentes da lei.

Os efeitos do descontrole histórico da segurança pública são tão dramáticos, que já não podemos dizê-los próprios de tal campo.

Uma observação atenta ao que tem se passado em nosso Estado, com destaque para as áreas onde estão localizadas as favelas, irá revelar que a evolução do medo abarca alguns vetores comuns aos “conflitos armados”, semelhantes aos ocorridos em países e territórios envolvidos em guerras internas, com significativo número de mortos entre contendores e inocentes.

No caso carioca, cuja cidade até o início da década de oitenta ainda apresentava uma regular normalidade no seu aspecto segurança, uma combinação explosiva de fatores foi determinante para a proliferaçào de criminosos em nova faceta.

A vulgarização da cocaína, conquistando mercados nas camadas mais pobres da população, fermentada pela chegada dos fuzis e outras armas de guerra, promoveu, duplamente, grande lucro e poder para as quadrilhas que se formavam.

Em pouco tempo, desavenças internas nos bandos deram origem a dissensões e disputas por áreas rentáveis, ocasionando conflitos armados que exigiam pronta resposta dos organismos policiais, em defesa dos moradores, acuados entre o fogo cruzado dos marginais.

Entretanto, despreparadas e desautorizadas, as polícias nunca conseguiram empreender campanha efetiva para prevenção do caos que se avizinhava, concorrendo para que a segurança pública servisse muito mais como ingrediente para confeitos políticos sedutores em época de eleição, e não como objeto real das preocupações dos gestores, exercendo, assim, por inação, papel definitivo para transformá-la num macro-problema.

Por anos, seu enfrentamento, aceitando o desafio de desgastes e danos colaterais, foi postergado, e, um sem número de experimentos para controle da criminalidade foi testado a partir de fórmulas excêntricas, idealizadas por intelectuais ancorados em curiosa episteme sociológica, de tudo explicar pelas desigualdades sociais.

Assim, chegamos aos nossos dias mergulhados numa desordem aterradora, cuja solução só será possível pela realização de esforços conjugados dos poderes legais e legítimos, e da população, a partir de uma visão realista da gravidade da situação e dos ingredientes psicossociais que lhes compõe o quadro.

Primeiramente, é preciso reconhecer que os bandos possuem instrumentos de guerra, como fuzis, granadas e minas; também, que sabem se conduzir como pequenas frações de infantaria, o que inclui “conduta de patrulha”, evacuação de feridos e uso de radiocomunicação; que se estabelecem estrategicamente no terreno, dominando-o e mantendo o controle da população; que utilizam o terror como forma de intimidação, assassinando, fria e barbaramente policiais, adultos e crianças inocentes, imolando, esses últimos, em ônibus que incendeiam, com indiferença bestial. Além disso, nos últimos anos desenvolveram uma odiosa identidade cultural que inclui: músicas louvando terroristas internacionais e seus feitos; assassínio - com tortura e secção de membros do corpo dos “inimigos”, ainda vivos, para alimentar animais famintos; homicídio de desafetos e “suspeitos” em pneus incendiados, macabramente apelidados por “micro-ondas”; uso de expressões, gestos e palavras provocativas com identidade de grupo, francamente reveladas pelos sites de socialização da internet, principalmente o Orkut, onde se exibem ao lado das cabeças decapitadas dos inimigos.


Sem dúvida, vivemos um conflito urbano armado. É menos do que uma guerra convencional, mas é muito mais do que um simples quadro de ordem pública que possa ser tratado com instrumentos tradicionais.

Para enfrentá-lo, precisamos bem mais que aplicar modelos de policiamento ostensivo importados do exterior, pois não condizem com nossa realidade.

Se quisermos modificar, definitivamente, essa realidade, devemos aceitar o desafio sem receios, e libertar, ainda que com o “uso da espada”, a população das garras do crime, como estamos fazendo no Complexo do Alemão, livrando-a do horror.

Se quisermos ter a consciência tranqüila, livre do arrependimento comum aos que se escondem em falácias sedutoras, com as quais camuflam inépcia e incompetência, temos que ousar a liberdade, ainda que chorando a dor dos que ofereceram a própria carne ao encontro do aço, como fizeram os policiais que lá tombaram nesses últimos meses, regando com sangue e honra o solo, para a semeadura da paz.

O Complexo do Alemão será liberto. Ele pertence ao Rio.

Ele pertence ao Brasil.

Mário Sérgio de Brito Duarte
Tenente Coronel PM
Ex-Comandante do BOPE

Publicado em em 29/06/07
Caderno Opinião - O Globohttp://www2.senado.gov.br/bdsf/bitstream/id/81730/1/noticia.htm

11 comentários:

Samuel Mourão disse...

Olá, meu nome é Samuel, tenho 15 anos e moro em Macaé-RJ.

Acompanho seu blog desde a sua despedida da liderança da BOPE, e acho seu blog interessantíssimo.

Segurança pública é sim o mais o importante, o direito de ir e vir é o mais irrevogavel direito de um cidadão, direito pelo qual o estado é responsável.

Apoio a polícia, apoio o governo e principalmente os métodos por eles adotados quanto aos niveis de criminalidade absurdos aos quais, nós, os honestos, estamos expostos. A tática adotada no complexo do alemão é sim a ideal, uma vez que os suprimentos do tráfico são limitados devido ao cercamento das entradas das favelas, ele se vê em progressiva desvantagem quanto a polícia, polícia composta por policiais que vão para casa e têm uma noite de sono "tranquila", enquanto os foras-da-lei têm que ficar de prontidão caso a polícia suba o morro, as armas e munição da polícia não vão chegar ao fim, já a dos traficantes vai.
A tática de asfixia é de longe a melhor e mais viável, sem dúvida é também a mais desgastante, tanto para os policiais quanto para os marginais, porém é a que oferece menos riscos para a população, que não é culpada e não devia estar no meio do fogo cruzado.

Acredito na polícia, polícia é ordem social, polícia é a indispensável instituição que zela pelos contribuintes que todos os dias levantam cedo de suas camas para ajudar a fazer um país melhor.

"Pela lei, com a lei, dentro da lei, pois fora da lei não há salvação"

Anônimo disse...

muito bom artigo
bravos!

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezado Samuel Mourão

Honrado com seu lúcido comentário, retribuo a atenção agradecendo-lhe a presença.

A clareza das idéias por ti apresentadas, aos quinze anos , sinaliza seu futuro como pensador.

Força e Honra, amigo!

Mário Sérgio
Tenente Coronel
Caveira 37

Fabrício Reis disse...

Alguém viu o "Fantástico" no domingo? Ou perdi algum bloco ou nenhuma reportagem sobre a ação policial do dia 27/06/2007 foi para o ar. Alguém sabe o por quê do silêncio? Será que o espectador de massa precisa esperar por todos os pós e contras da operação para receber mais informação? Ao meu ver todo texto ou reportagem ainda que na tentativa de ser imparcial possui um caráter pessoal de opinião mas será que a informação precisa de uma opinião a favor ou contra para ser transmitida? Não entendo como a decisão de transmitir informação possa ser mais difícil que a decisão da Secretaria de Segurança Pública, o governo estadual, federal e população do Rio de Janeiro no enfrentamento ao domínio de traficantes em favelas.

Fabrício Reis disse...

Programa Fantástico

Informações básicas:

Emissora: Rede Globo

Descrição detalhada:

Apresenta reportagens investigativas, de comportamento e de interesse para toda a família.

Roberta Mendes disse...

Gostei muito deste texto, aliás, gosto da sua linha de raciocínio.

O trabalho que a PM está executanto nos últimos dias, parece estar desenquilibrando o mundo ilícito carioca, ou até mesmo brasileiro. Com megas operações, em conjunto com a Polícia Civíl, os resultados demonstrados são um tanto que prazerosas à sociedade, não tendo pelo menos, "trabalhadores" mortos no meio da rua.

NO ENTANTO, É POSSÍVEL REALMENTE ACREDITAR QUE UM DIA AINDA VAMOS TER PAZ NO ALEMÃO, NA ROCINHA, ETC?

É uma questão que cada cidadão se pergunta todos os dias, ao sair pro trabalho.
Confesso que sou uma delas, acreditando que, em regra a esperança é a última que morre.
Tenho como exemplo a cidade de New York, que a uns 20 anos atrás era um pandemônio, hoje em dia, vive dias melhores.

Se pleiteassemos por exemplo, o combate aos pequenos delitos, como o uso de drogas. Ultimamente os políciais não dão mais tanta ênfase ao assunto, até vejo casos, deles mesmos se tornarem dependentes, não visando o retorno.
Como também, os "mini- investidores", que vendem qualquer coisa no sinal. E se não comprármos nada, ainda corremos risco deles passarem e arranharem o seu lindo carro 0 Km!!!
Sem falar nos moradores de rua, que te abordam com toda "educação" possível, lhe pedindo 10 centavos, que provavelmente é pra comprar cola, ou algo do gênero.

Enfim, a sociedade tem diversos problemas, e a Secretária de Segunrança tem poucas soluções, não conseguindo assim atender de forma simétrica.

Enquanto isso, vamos vivendo.
Mas como isso vai mudar? Se cada vez que todos os combatentes do BOpE vão para a rua, sempre tem alguém sem arma ou até mesmo sem colete? E isso se repete por anos.
A unidade não tem armamento pra todos, e nem proteção para todos.
Isso porque é o BOpE, nas demais unidades a situação é muito mais precária, é vtr quebrada, sem motor, a seção de manutenção de transporte (smt) também não ajuda muito, por falta de recurso. Fora os desvios extra oficiais que existem na liberação de material bélico. Pelo menos determinados impasses nunca ouvi do BOpE.

SENDO UMA TROPA COM UM NÍVEL DE TREINAMENTO SUPERIOR AOS DEMAIS, NÃO DEVERIA TAMBÉM RECEBER UMA ASSISTÊNCIA MAIOR?

O Secretário de Segurança atual em rede nacional (Jornal Nacional) declarou a liberação de 8 milhões ao BOpE, isso já tem um certo tempo, e até agora ninguém sabe desse assunto no EMG, muito menos no Cmdo UOpE. Entendo que não depende dele, mas a Polícia deveria estar melhor equipada, trabalhando assim com mais confiança.

Aguardo anciosamente por dias melhores para todos nós, mas infelizmente muita coisa ainda tem que ser mudada.

(" Lealdade, destemor, integridade serão os primeiro lemas ... Idealismo como marca de vitória..."
Começando assim, conseguiremos.)

Espero que meus comentário lhe seja de bom agrado, mesmo estando mais para visão política!!!

ass: Roberta

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezada Roberta

Reverter o quadro não apenas é possível, mas necessário. A sobrevivência da Cidade depende disto. O narcotráfico, ainda que inconscientemente, pleiteia reconhecimento como "organismo social".

O banditismo das drogas se transformou num problema que se não tratado, JÁ, em breve as leis do país se tornarão "letra morta".

É claro que não estou afirmando que acabaremos com a "venda" das drogas. Isto é impossível. Mas a "coexistência pacífica com o narcotráfico", como os governos fizeram até agora, se tornou insustentável.

Não está sendo fácil reparar tantos erros, mas temos uma grande chance de fazê-lo: agora !

Sobre as verbas do BOPE, elas foram definidas há dois anos, pela SENASP, num convênio Estado x União. Quase a perdemos, mas o problema foi sanado pelo Dr Mariano.


Abraços

Ana Claudia disse...

Caro Coronel Mário Sérgio,

Concordo plenamente que o Complexo do Alemão seja libertado das mãos desses bandidos que vivem enquartelados no alto do morro e deixam moradores honestos reféns. Aliás não são só os moradores do Complexo do Alemão que são reféns desses traficantes armados de fuzis. Toda a populção do Rio de Janeiro, de uma maneira ou de outra, está nas mãos desses bandidos . O medo tomou conta do cidadão carioca que hoje não sai de carro à noite e busca cada vez mais métodos de segurança pessoal e para sua residência.

Acredito que a polícia tem sim que subir o morro, enfrentar esses bandidos. Só há hoje uma única maneira de sanar os problemas causados por traficantes que é o enfrentamento. Operações como a que aconteceu no último dia 27 têm que ser feitas sempre. Está na hora da população carioca fazer seus heróis. Aqueles que subiram o morro e, mesmo exercendo seu trabalho e obrigação, arriscaram também as próprias vidas para entrar em um "antro" onde nos últimos oitos anos nada nem nenhuma política de segurança quis entrar.

O que não pode acontecer é a segurança do estado deixar com que órgãos ligados aos direitos humanos tentem desviar a atenção e o foco do verdadeiro objetivo da operação, que é acabar com o tráfico de drogas. Acredito que é mais fácil para essas entidades defenderem as quase duas dezenas de mortos do que procurar as centenas de famílias de policiais que morreram em confronto. Esse último caso, claro, não dá ibope, não lhes garante uma página na mídia impressa e nem minutos no rádio ou na TV. Creio que como eu, grande parte da população esteja ansiosa por segurança e esteja dando apoio a esse tipo de trabalho. Resta -nos saber agora se essa política de segurança vai se perpetrar durante os restantes três anos e meio de governo ou vai se transformar em mais uma pirotecnia como as que vimos em governos passados.

Que essa " virada de página" na história da segurança do estado seja só o início para o resgate de locais como o Alemão, Rocinha, Vidigal, Mangueira entre outras favelas onde moradores ainda ficam de mãos atadas diante dos bandidos.Não é só o Alemão que é nosso não. O Rio de Janeiro é e tem que ser do carioca!

Anônimo disse...

E não havia guerra

Amigo Mário,

Dessa vez não posso concordar inteiramente com você, senão vejamos. Concordo quando você diz que estamos numa guerra urbana, embora os cientistas políticos digam que o conceito de guerra civil exija pelo menos duas ideologias distintas em conflito, o que não ocorre no nosso caso, diriam. Ora, se as armas e os equipamentos envolvidos são de guerra, as vítimas e seus ferimentos têm as mesmas características das de uma guerra, o medo e o sentimento de ódio, que antagonizam grupos de pessoas nascidas num mesmo país e rasga uma cidade, ocorrem como numa guerra civil convencional, é claro que estamos no meio de um tipo de guerra. Alguns, como você, dizem mesmo que se trata de uma “guerra urbana”, mas o conceito, que ainda permanece ambíguo, é o que menos importa nesse momento dramático. Concordo ainda que não restasse outra opção ao secretário de segurança que não fosse a de agir como agiu, ou seja na causa, sob o risco da situação piorar cada vez mais. Entretanto, não posso concordar com o fato de você ter esquecido em suas análises a parcela de responsabilidade que coube às instituições policiais no processo que culminou nessa “guerra”.
Lendo o seu texto, percebo que nossa responsabilidade (digo na terceira pessoa para ressaltar que se trata de uma responsabilidade institucional, embora, individualmente, sabemos que muitos não contribuíram para tal) passa ao largo da questão nele levantada. Sinceramente, acho que seria uma tremenda covardia de nossa parte se jogássemos toda a responsabilidade nos ombros de políticos e de pesquisadores (os policiólogos). Principalmente destes últimos, que só chegaram recentemente quando o problema já se avolumava, não tendo participado, como nós, desde o início do processo (ou não gostamos mesmo de dizer, para mostrar o valor de nossa corporação, que estivemos presentes nos momentos mais importantes da história política do país?).
O que eu quero dizer é que antes mesmo de haver essa tal guerra, nós já agíamos como se ela existisse. Criamos uma unidade especial nos molde das forças especiais sem ao menos termos, naquele momento, motivos especiais para isso, muito embora hoje não possamos mais prescindir dela. Antes mesmo dessa guerra se tornar realidade nós a imaginávamos; sonhávamos para que ela fosse a remissão de nossas ambigüidades institucionais, que ora nos põe como uma instituição militar pronta para uma guerra convencional que não vem, ora como uma instituição policial ainda que ociosa de seu papel numa sociedade democrática. Por tudo isso, você há de convir que nós também produzimos essa guerra.
Talvez a falta da ideologia oponente que o conceito político tanto clama, tenha deixado muito a vontade, e de uma maneira hegemônica, a única ideologia que existe nos dois lados da linha de guerra; livre leve e solta para fazer o que mais sabe: criar a necessidade do consumo, antes mesmo de existir o consumo.
Concordo quando você diz que a queda dos preços da cocaína no mercado internacional afetou a geopolítica interna (se assim se pode dizer), especialmente ao redefinir os espaços das chamadas favelas cariocas. Digo mesmo que isso ocorreu no início dos anos 80, quando os cartéis colombianos, alçando vôos mais altos, passaram a dominar todo o processo de produção da cocaína. Agora plantando a folha de coca em seu próprio território e deixando de importar a pasta para refino de países tradicionalmente produtores, como a Bolívia e o Peru. Assim, diminuíram os custos e passaram a auferir lucros cada vez maiores. Com isso o mercado se expandiu e o Brasil deixou de ser apenas uma das rotas de passagem da droga para a Europa para se tornar um consumidor a plenos pulmões ( ou narizes).
Enquanto procurávamos essa guerra, a segurança pública, que sempre foi tema para iniciados devido nossa vocação centralizadora -mais acirrada nos períodos de exceção-, era implementada como política pública verticalizada, ou seja, de cima para baixo sem que a sociedade efetivamente participasse. Tratava-se de assunto a ser resolvido pelos estados e, consequentemente, pelas polícias estaduais. Em cada estado membro, portanto, havia seu general de plantão assumindo a pasta, com oficiais do Exército nos comandos gerais das PM, o que lhes garantia o monopólio da segurança pública, confundida com segurança nacional. Assim, a ideologia da segurança nacional e a ideologia do consumo, de braços dados naquele momento, realizaram a alquimia de um caldeirão cultural explosivo. Nesse contexto, transportar a tão sonhada guerra para o campo da segurança pública foi um pulo. Nada melhor que utilizar uma instituição de identidade ambígua (policial e militar) para tratar de uma guerra em seu conceito ambíguo. Criamos assim, nossos demônios, ao criarmos a necessidade da guerra.
Como você mesmo disse, não havia guerra na ditadura (nos anos 80), mas eu digo que foi ali, no momento em que a concebemos simbolicamente, que também ajudamos a criá-la. Acredito que naquele momento inicial, fosse mais fácil quebrar as barreiras simbólicas do apartheid social que isola essas espaços esquecidos pelo Estado e que, atualmente, foram apropriados por grupos armados. As chances de agirmos naquela oportunidade como polícia, e sem precisar fazer “uso da espada”, eram factíveis. Ali, sem dúvida, seria muito mais fácil livrar seus moradores do futuro sombrio que os aguardava e que inapelavelmente nos atinge a todos agora. Agindo assim, não ajudaríamos a criar ou reforçar diferenças, mas, com certeza, as teríamos diminuído ao longo do tempo. Ao invés disso, preferimos ouvir e ser orientados por falácias belicistas que (incrivelmente) não partiam de políticos profissionais e nem de policiólogos.
Em conseqüência, o diagnóstico enviesado da guerra foi exportado para mundo afora com a ajuda da mídia. E o mercado, que além da mão invisível tem ouvidos e olhos bem abertos, percebeu que o capital acumulado com o varejo do narcotráfico nos morros e favelas cariocas fez do “zé-ninguém” um potencial consumidor, inclusive para adquirir poderosas armas de guerra. Afinal de contas, onde existe “guerra”, precisa-se de armas de guerra, exatamente como acontece ou aconteceu noutros cantos do mundo em conflito, como na Somália; na Etiópia; no Líbano; na Cisjordânia; no Peru, quando o Sendero Luminoso ainda era atuante; na Colômbia; em Gaza etc. Só, faltava ainda criar a necessidade.
Também nesse aspecto fomos garotos-propaganda ingênuos e eficientes. Antes mesmo de essas armas se tornarem realidade nos morros, policiais assistiram gratuitamente a aulas e palestras sobre as melhores armas do mundo. Invariavelmente eram (e ainda são) fornecidos cursos gratuitos (nada vem de graça) em países que quase sempre são os maiores produtores dessas armas. Passamos a sonhar com elas, da mesma forma como sonhamos com a guerra; e tudo isso, antes mesmo de haver a guerra. Uzi, Sig Sauer 551, HK MP5SD6, Glock, Ar 15 Colt, Kalashnikov, AK 47, URU, dentre outros, foram termos que passaram a fazer parte dos discursos de quem se propunha a ser um “agente multiplicador” da doutrina da guerra urbana. O incrível foi que imediatamente após aquele bombardeio ideológico que gerou sonhos de consumo, elas (aquelas mesmas armas dos discursos) estavam ali materializadas, apreendidas em larga escala pela polícia carioca, como também matando policiais cariocas.
Hoje, como você mesmo disse, não há mais como negar essa realidade; não há como retroceder. Os equívocos de um quando nem tínhamos policiólogos ainda, não deram alternativa ao nosso Secretário de Segurança que, mesmo diante do risco político, não titubeou. Mostrou-se um homem de coragem; obcecado, mas sem desvarios. Já podendo ser colocado ao lado de nossos policiais civis e militares que lutam contra todas as adversidades, inclusive dos tombaram para recuperar esses espaços esquecidos, há muito, não só pelo poder público, mas também por nossas elites e classes médias. Estas que sempre preferiam anestesiar-se moralmente para não sentirem o peso de terem usado a velha fórmula de por os conflitos debaixo do tapete. Com isso estimularam um distanciamento que aumentou a cada dia, produzindo mais e mais diferenças e antagonismos.
Agora o tapete apodreceu e leva junto os alicerces da casa. O pacto tácito do apartheid (nós aqui e eles lá) tem sido desrespeitado pelas armas de longo alcance. Todavia, os mesmos fatores que geraram o problema ainda se intensificam sem que nada seja feito para saná-los, e tem cabido à polícia (como sempre coube) atuar nas causas como escora desse muro simbólico. Nesse sentido, é necessário refletirmos se queremos mesmo livrar homens bons do jugo dessa realidade nefasta que causou tantas diferenças e conflitos reprimidos (tanto aos de lá quanto aos de cá da cidade partida), ou se, na verdade, não estamos mais uma vez lutando apenas por nossa honra militar ofendida e, assim, reproduzindo também as mesmas estruturas que propiciaram o problema.

ROBSON RODRIGUES DA SILVA
TEN CEL PM

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezado amigo Robson

Muito me honra sua presença em meu blog. Dos pensadores, defensores da sociologia como melhor instrumento para aferições e interpretações dos fenômenos que compõem a Segurança Pública, você é o que mais respeito, não obstante nossas ideologias em sentido contrário.

Digo isto porque você é muito mais que um desavisado elucubrador. Diferentemente dos festejados cientistas sociais, que acreditam, piamente, serem os detentores exclusivistas da verdade que, paradoxalmente, alardeiam não existir, você possui a autoridade do técnico, do profissional, do prático, do “operador”, expressão muito usada por aqueles mesmos cientistas, com objetivo subliminar de desqualificar os encarregados da execução de qualquer atividade, ao reduzi-los a executores não reflexivos da ação.

Agradecendo vossa postagem - uma análise sutil e elegante do meu ponto de vista - ao publicá-la me permito, também, analisá-la, facultando ao leitor a possibilidade de extrair informações mais profundas dos padrões mentais que nos facultam a idéia, além de bem exibir nossas âncoras de realidade e episteme.

Como disse, você é um técnico e dos melhores que conheci até hoje. Aprendi muito contigo na valorização do conceito de Segurança Objetiva, cuja ferramenta imprescindível de análise, a estatística, era muitas vezes por mim desprezada. Amarrado ao conceito de Segurança Subjetiva, onde as sensações mais ou menos intensas de sua existência, na população, era o que importava, foi contigo, me coadjuvando no Batalhão da Maré, que aprendi a lançar outro olhar sobre a objetividade possível na segurança pública.

Todavia, como bem sabes, seguimos caminhos ideológicos diferentes, e são essas bússolas que culminam por nos permitir escolhas de caminhos lógicos diversos, nos pondo em campos antagônicos.

Sobre vossa postagem, irei, então, comentá-la. Farei da forma que mais me apetece, dividindo-a em partes para analisar detidamente cada idéia-força e, assim, não permitir que o fundamento extratexto se perca, já que há muito que se considerar no dito e no não dito, e me parece conveniente refutar, ou assentir, em qualquer caso, consoante minha idéia, e inconveniente seria desprezá-las.

Comecemos pela seguinte afirmativa:

1. ...os cientistas políticos digam que o conceito de guerra civil exija pelo menos duas ideologias distintas em conflito...

Resposta: Inicialmente devo esclarecer que o que está em evidência é o logos e não o que algum pensador diz. Embora em momento algum eu tenha me referido à guerra civil, mesmo assim se o tivesse feito teria situado meu conceito a partir de um padrão lógico, e não de assentimento simples ao “argumento da autoridade”. De qualquer forma, não falei de guerra civil, mas de “conflito urbano armado de pequena intensidade”, e expliquei o porquê ao afirmar o conceito.

2. Ora, se as armas e os equipamentos envolvidos são de guerra, as vítimas e seus ferimentos têm as mesmas características das de uma guerra, o medo e o sentimento de ódio, que antagonizam grupos de pessoas nascidas num mesmo país e rasga uma cidade, ocorrem como numa guerra civil convencional, é claro que estamos no meio de um tipo de guerra.

Resposta: É isso mesmo! A questão é que na visão sociológica, marcadamente marxista, os ódios são justificados, além de explicados, como naturais e anteriores à guerra. Vê, as ciências sociais, que parecem abominar qualquer idéia de naturalização, nesse particular procuram fazer crer, pelo não-dito, que é natural o quadro de violência odiosa perpetrada pelo lúmpem existente em favelas, pois aquele parasitismo social é formado pelos mais legítimos filhos das lutas de classes, que marcam toda história das sociedades.

Assim, quando você discursa “...antagonizam grupos de pessoas nascidas num mesmo país...”, você exibe, implicitamente, a idéia-força que contem os seguintes ingredientes: 1. As diferenças das condições sociais são geradoras e justificam ódios entre pessoas de mesma nacionalidade, ou seja, isso é natural. 2. Os moradores das favelas estão identificados com os ódios experimentados pelos traficantes, e os traficantes são a própria população em armas, em atividade capitalista informal, ou de rua. 3. Os sentimentos hostis são a essência das diferenças, a começar pela social.

Eu penso que “Pessoas nascidas num mesmo país” é, para mim, uma idéia muito inconsistente para se esclarecer sobre quem são os soldados dessa guerra e muito menos para quem são os inimigos

O lúmpem dedicado ao tráfico, inimigo das forças da lei, desprezado por Marx em suas teses, onde existir irá se aproveitar dos insumos disponíveis para potencializar seus intentos. Mas, como a “o meio”, o “coletivo” é hipótese única das ciências sociais para explicar toda “vontade de crime”, o criminoso será sempre, para a “melhor” sociologia, uma vítima dos seus iguais de pátria, com condições sociais diferentes.

É preciso esclarecer Robson, se os braços do tráfico devem ser entendidos em sua “inelutável historicidade”. Se a idéia é esta então convém evidenciar que são eles esses que você alega que se “antagonizam com seus identicamente nacionais”; é preciso deixar claro se são, ou não, esses, as grandes vítimas do caos, ou se são criminosos de nacionalidade brasileira, cometendo crimes no Brasil, contra brasileiros de qualquer origem, classe social, credo, cor de pele, espalhando o terror nas suas áreas de domínio e nas outras que lhes permitem trânsito por fraqueza estatal. Se de fato são bandidos, se são facínoras, ora incentivados pelo meio – que desfavorável nas condições sociais gerais faz-se favorável na fermentação dos desígnios para o banditismo – e ora motivados por suas próprias inclinações, vontades, desejos, personalidade e que se deliciam na irresponsabilidade do ato criminoso, então é preciso dizê-lo. Mas, se você disser que é uma e outra coisa, com as duas exercendo forte influência no conceito “força motriz do crime”, aí então iremos concordar, declarando, ambos, que “pessoas nascidas num mesmo país”, não predica o conceito “iguais”, se não muito relativamente.


3. Conceito de guerra urbana, que ainda permanece ambíguo, é o que menos importa nesse momento dramático.

Resposta: Concordo. Só que a recusa em se usar a tal expressão nos meios sociológicos, está fundamentada na inexistência (creio) de precedentes de “autoridade”. O problema parece ser justamente este: Quem é autoridade para se falar em guerra urbana? Qual especialista? Quem tem alguma pesquisa? Há alguma dissertação de mestrado ou tese de doutorado sobre isso? Noutras palavras, é “ambíguo” o que não foi ainda apropriado por um desses especialistas.

Só que anfibologias e ambigüidades, de qualquer ordem, têm, para mim, outro conceito, e sua origem está na idéia e não na sua apropriação, e invocá-lo é para mim da maior importância.


4. ...ainda que não restasse outra opção ao secretário de segurança que não fosse a de agir como agiu, ou seja na causa, sob o risco da situação piorar cada vez mais. Entretanto, não posso concordar com o fato de você ter esquecido em suas análises a parcela de responsabilidade que coube às instituições policiais no processo que culminou nessa “guerra”.

Resposta: Às polícias sempre são imputadas toda sorte de violações e arbítrio, quando ocorrem mudanças nos cenários políticos com as “aberturas” e ações similares. Em geral, as personagens alijadas do cenário político pelas estruturas que estiveram no poder, quando assumem funções executivas que lhes permitam manipular as forças de garantia da lei e da ordem, como os governadores, com as instituições policiais, logo tratam de talhar-lhes novo perfil, deixando explícito seu repúdio pelo organismo que serviu ao sistema anterior. Então, uma nova postura na política de segurança é alardeada e, por sedutora, logo recebe os aplausos da opinião pública: “as violentas e impiedosas forças da repressão devem ficar longe de suas vítimas”, o que deve ser entendido pelas forças policiais na forma: - quero vocês longe das favelas.

O que aconteceu no Rio a partir de 1983, foi que o governante que assumiu, o Brizola, tratou de estereotipar a atividade policial por “contrária aos interesses do povo”, argumentando em favor da “cidadania e dos direitos humanos” para frear as forças policiais, essas sim, segundo eles, promotoras exclusivas da violência nas comunidades pobres, ou contra as camadas sociais marginalizadas, devido a sua condição de pobreza.

Ora, somente a ingenuidade pode argumentar que a ausência dos serviços de polícia, em qualquer lugar, e em especial onde invariavelmente se homiziam criminosos, como nos espaços de desorganização social, é preferível para promoção de justiça.do que sua existência.

E foi justamente seu afastamento intencional e dirigido das favelas, que provocou tal situação. Ao invés de se priorizar a inclusão daquelas áreas, criando estruturas regulares de serviços públicos de polícia com a implantação de batalhões, companhias ou pelotões da PM, nas áreas mais carentes, o Estado preferiu retirá-las, abrindo mão, tacitamente, do monopólio da força, abandonando as comunidades ao seu próprio destino. O resultado hoje é este que vemos: áreas, bairros, empórios, em todo lugar há espaços onde a polícia é entendida como força invasiva, e o tráfico poder reconhecido.



5. Lendo o seu texto, percebo que nossa responsabilidade (digo na terceira pessoa para ressaltar que se trata de uma responsabilidade institucional, embora, individualmente, sabemos que muitos não contribuíram para tal) passa ao largo da questão nele levantada. Sinceramente, acho que seria uma tremenda covardia de nossa parte se jogássemos toda a responsabilidade nos ombros de políticos e de pesquisadores (os policiólogos).

Resposta: Nossa responsabilidade? É total, Robson! É total porque aplaudimos um sem número de experimentos que já sabíamos que iriam falir. Estamos há quase vinte anos convivendo com “ideólogos” que, sem nenhum constrangimento, se acercam do nosso mister para nos ensinar o que nos cabe. E pior: nos calamos.

Não tem muito tempo que o doutor Luis Eduardo Soares tentou sua sorte por aqui (antes de tentá-la em Brasília) e discursou, e concedeu entrevistas, e analisou, e prognosticou, e participou de fóruns, seminários e blá, blá, blá, blá.

Estamos, prezado amigo, desde o Coronel Nazareth Cerqueira, traçando rumos para a nova polícia com o Grupamento Especial Prático Escolar (lembra?) aquela que tinha seu campo de atuação limitado, dentro da favela, pelo narcotráfico, igual ao GPAE de hoje.

Nossa responsabilidade é total! Fomos nós que permitimos tudo isso! Fomos nós que cedemos! Fomos nós que não tivemos coragem de dizer: olha! Não é assim não! Não, vocês conhecem de olhar, nós conhecemos de bulir, entendem!

A responsabilidade é nossa. Nossa covardia foi nossa sementeira e agora a colheita está sendo obrigatória.


6. Antes mesmo dessa guerra se tornar realidade nós a imaginávamos; sonhávamos para que ela fosse a remissão de nossas ambigüidades institucionais, que ora nos põe como uma instituição militar pronta para uma guerra convencional que não vem, ora como uma instituição policial ainda que ociosa de seu papel numa sociedade.

Resposta: Esse é um argumento frágil e ideológico. Muito usado para fundamentar o conceito de que o militar é um ente bélico, em si. Com tal idéia, constrói-se outra, a que “sendo o militar um belicista, sua motivação profissional não é proporcionar a paz, mas a guerra”.

É uma lógica insultuosa, mas vigorosa nos chamados “círculos intelectuais acadêmicos”. O militar não é o homem da paz, mas da guerra, ou seja, por estar obrigado a fazer guerra em defesa de sua pátria, ele é alguém que deve (por suposição) ansiá-la.

Mas a PM não é uma força Militar com tal investidura de guerra. Seu treinamento (desde 1980, quando nela ingressei) privilegia o ensino policial, em muito. Se é verdade que nos nossos dias a formação está ainda mais voltada para as atividades tipicamente de polícia, como a concebemos, já naquela época o treinamento militar de combate para defesa interna, acontecia com reduzidíssima carga horária, e apenas num período de toda formação.

Ocorre que toda nossa cultura, baseada em ordem, disciplina, respeito e hierarquia, muito incomoda aos estudiosos das ciências sociais. Cultuadores de Nieztche (e sua aversão à ordem) e Foucault (e sua histeria contra a disciplina), principalmente, não é contra a formação para a guerra, no policial militar, que não existe, que os sociólogos investem, mas contra o ethos, identificado com os valores acima. É contra a continência, a ordem unida, o tratamento de “senhor” revelando a hierarquia que as ciências sociais investem. Dizer que nossa formação militar impõe ao homem um caráter bélico, de destruição, de morte é desconhecer até a missão das Forças Armadas, que é, numa guerra, sobrepujar o inimigo. Se ele se disser “vencido”, mesmo antes dos combates, e se render, nesta condição, a força vencedora tem por obrigação preservar a vida do oponente.

Ora, se isso na guerra é assim, se o militar de guerra tem que igualmente estar apto tanto a matar como a preservar, como querer argumentar contra a condição de “militar”, marcadamente organizacional das PMs, querendo inferi-la assassina em sua gênese?




7. Por tudo isso, você há de convir que nós também produzimos essa guerra.

Resposta: Sim, produzimos. Produzimos porque custamos a vencer a letargia. Demoramos a acordar para o caos. Esperamos nossos homens serem caçados nas ruas, como patos; esperamos inocentes serem queimados bestialmente nos ônibus, esperamos o jornalista ser retalhado e seus restos postos em pneus de microondas. Demoramos, seduzidos pela idéia mal explicada da “mediação de conflitos”, que o conflito que se avizinhava não estava revestido de uma necessária razoabilidade. Também produzimos essa guerra porque permitimos que ela chegasse ao nível que chegou. Mas ainda há como reverter esse quadro. Só que vai haver barulho e fumaça.

8. Talvez a falta da ideologia oponente que o conceito político tanto clama, tenha deixado muito à vontade, e de uma maneira hegemônica, a única ideologia que existe nos dois lados da linha de guerra; livre leve e solta para fazer o que mais sabe: criar a necessidade do consumo, antes mesmo de existir o consumo.

Resposta: Esta é uma grande verdade. Não vou comentá-la. Concordo com essência da afirmação.


9. Nada melhor que utilizar uma instituição de identidade ambígua (policial e militar) para tratar de uma guerra em seu conceito ambíguo. Criamos assim, nossos demônios, ao criarmos a necessidade da guerra.

Resposta: Preconceitos assim vimos muitas vezes, e seria enfadonho enumerá-los. O pressuposto já foi analisado, e está fundamentado no edifício de idéias das ciências sociais, construído nas bases de Nieztche e rematado com os enfeites de Foucault.

10. Enquanto procurávamos essa guerra, a segurança pública, que sempre foi tema para iniciados devido nossa vocação centralizadora -mais acirrada nos períodos de exceção-, era implementada como política pública verticalizada, ou seja, de cima para baixo sem que a sociedade efetivamente participasse. Tratava-se de assunto a ser resolvido pelos estados e, conseqüentemente, pelas polícias estaduais.

Resposta: Concordo com a essência da idéia.


11. Assim, a ideologia da segurança nacional e a ideologia do consumo, de braços dados naquele momento, realizaram a alquimia de um caldeirão cultural explosivo. Nesse contexto, transportar a tão sonhada guerra para o campo da segurança pública foi um pulo. Nada melhor que utilizar uma instituição de identidade ambígua (policial e militar) para tratar de uma guerra em seu conceito ambíguo. Criamos assim, nossos demônios, ao criarmos a necessidade da guerra.

Resposta: As metralhadoras do tráfico chegaram muitos anos antes. Os fuzis do tráfico chegaram sete anos antes. As condutas defensivas e ofensivas de combate do tráfico foram desenvolvidas muito antes do BOPE capacitar as tropas dos batalhões, e objetivavam as guerras de facções, antes de descobrirem o que poderiam fazer com as polícias. Os Blindados chegaram após a PM perder algumas centenas de policiais durante a “execução do serviço”. A assertiva é intelectualmente sedutora, mais inverídica.

12. Como você mesmo disse, não havia guerra na ditadura (nos anos 80), mas eu digo que foi ali, no momento em que a concebemos simbolicamente, que também ajudamos a criá-la. Acredito que naquele momento inicial, fosse mais fácil quebrar as barreiras simbólicas do apartheid social que isola essas espaços esquecidos pelo Estado e que, atualmente, foram apropriados por grupos armados. As chances de agirmos naquela oportunidade como polícia, e sem precisar fazer “uso da espada”, eram factíveis. Ali, sem dúvida, seria muito mais fácil livrar seus moradores do futuro sombrio que os aguardava e que inapelavelmente nos atinge a todos agora. Agindo assim, não ajudaríamos a criar ou reforçar diferenças, mas, com certeza, as teríamos diminuído ao longo do tempo. Ao invés disso, preferimos ouvir e ser orientados por falácias belicistas que (incrivelmente) não partiam de políticos profissionais e nem de policiólogos.

Resposta: Novamente a tese da luta de classes, num mix de “responsabilidade dos Generais”. A miséria é o vetor principal do crime? São, de fato, classes perigosas as menos favorecidas socialmente? Em que nível de desfavorecimento? E os generais, são cegos e belicosos, daí estúpidos e insensíveis, e os sociólogos é que realmente sabem e estão aptos para a faina? Por que? Quem disse? Onde está a prova? Onde está a evidência? Não há garantia em nenhuma direção.


13. Em conseqüência, o diagnóstico enviesado da guerra foi exportado para mundo afora com a ajuda da mídia. E o mercado, que além da mão invisível tem ouvidos e olhos bem abertos, percebeu que o capital acumulado com o varejo do narcotráfico nos morros e favelas cariocas fez do “zé-ninguém” um potencial consumidor, inclusive para adquirir poderosas armas de guerra. Afinal de contas, onde existe “guerra”, precisa-se de armas de guerra.

Resposta: É uma tese bem lógica, mas errada na questão sobre a gênese da guerra.

14. Agora o tapete apodreceu e leva junto os alicerces da casa. O pacto tácito do apartheid (nós aqui e eles lá) tem sido desrespeitado pelas armas de longo alcance. Todavia, os mesmos fatores que geraram o problema ainda se intensificam sem que nada seja feito para saná-los, e tem cabido à polícia (como sempre coube) atuar nas causas como escora desse muro simbólico. Nesse sentido, é necessário refletirmos se queremos mesmo livrar homens bons do jugo dessa realidade nefasta que causou tantas diferenças e conflitos reprimidos (tanto aos de lá quanto aos de cá da cidade partida), ou se, na verdade, não estamos mais uma vez lutando apenas por nossa honra militar ofendida e, assim, reproduzindo também as mesmas estruturas que propiciaram o problema.

Resposta: Romântica, mas com evidentes sinais de seus matizes ideológicos essa afirmação. Ora, é bem certo que o assalariado há de viver onde lhe seja possível. Não sou um estudioso disto, mas parece-me que com a redemocratização do país, a política habitacional mudou para pior. (Veja, não estou discutindo aspectos gerais dos regimes, mas o habitacional, e, assim mesmo, utilizando-me de recursos de memória para teorizar). Então aconteceu o que seria lógico: as massas trabalhadoras, sem o requerido amparo governamental para aquisição de moradia, optou pela única saída que tinha para manter-se próximo aos “centros de emprego”. Essa coisa de nós cá e eles lá cabe, claro que cabe, muito arrumadinho no discurso antropológico, e me desculpe Robson, muitas vezes farsante, de uma série de pensadores. Nós cá e eles lá vale para qualquer coisa, em qualquer lugar: nós doutores, eles mestres e os outros...bem os outros são os outros.

Para se chegar ao coletivo, passa-se, necessariamente pelo individual. Aliás, inicia-se nele. O problema não está na nossa opção por qualquer individualidade, mas no individualismo de nossas opções. O problema não está no reconhecimento de nós e os outros, mas no sectarismo e no segregacionismo que se alardeia contrário, no discurso acadêmico, mas que é puro simulacro, consideradas as realizações, o que, reconheço, não é o seu caso.

Encerro aqui.
Digo-te que é sempre bom, para mim, a peleja com tua inteligência; até porque, em sentido contrário, me fazes pensar.
Um abraço do seu amigo.
“caminhamos tanto para lados opostos, que culminamos por nos encontrar”
Força e honra!
Mário Sérgio

Marcelo Augusto disse...

Prezado Coronel Mário Sérgio, primeiro quero parabenizá-lo por este Blog, inteligente e limpo.
Gostaria de voltar no tempo, tempo em que no Rio as mortes se davam na favela com total desprezo da "elite". hoje, vemos estas mesmas pessoas ou seus entes, fazendo "caminhada pela paz", pedindo para que vistam branco pela paz! e por ai vai. "Nós só sentimos a dor quando ela bate à nossa porta". Nada disso vai resolver nosso problema, a desigualdade social é fator para toda esta violência? com certeza!
"Só quem já lutou contra a pobreza, sabe o quão duro é ser pobre" Os meios de comunicação com seus programas alienadores, passam para os nossos jovens que para ele ser "aceito" na sociedade tem que "ter" e não "ser". O ser só não basta, aliás, não vale nada, vivemos em um país onde ser honesto é vergonhoso para a maioria, um país onde quem tem espaço na mídia são as prostitutas, traficantes e os piores bandidos do nosso país; os políticos.
Não há interesse dos poderes constituídos em acabar com esta violência que assola nosso país, eles fazem parte de tudo isso, seja por omissão ou por participação efetiva.
Estive no Rio algumas vezes, e como tenho parentes que moram no Morro do Dêndê, por lá fiquei. A situação é muito mais compicada do que podemos visualizar, andando pelo morro me encontrei com um adolescente de 13 anos que estava sendo olheiro do tráfico, na cintura uma 9mm com carregador alongado, e um rádio transmissor para sua comunicação com os que estavam mais acima no morro. Descobrir mais tarde que este adolescente era filho de uma amiga que eu não via há muito tempo. Conversando com ele, nos disse que sabia que iria morrer cedo, mas que não veria mais a sua família passando necessidades, queria usar tênis Nike, bermuda Cyclone e tudo que a sociedade disse que ele teria que ter para ser aceito nela.
Na semana passada, sem surpresa, soube que ele tinha morrido faziam 3 meses.
Em um país onde o dinhheiro fala mais que qualquer lei, onde juizes se corrompem por R$ 14.000,00, onde as pessoas que tentam de alguma forma ajudar na solução dos problemas são assassinadas, e os seus algozes ficam impunes, é difícil pensarmos em solução.
Trabalho como educador em um projeto social, que visa a capacitação e inserção de adolescentes em desvantagem social no mundo do trabalho, estamos perdendo muitos jovens para o tráfico e, consequentemente para o cemitério, sem que nenhuma medida concreta seja tomada para mudarmos esta triste realidade.
Mais uma vez, parabéns pelo Blog.

Marcelo