sábado, 20 de outubro de 2007

Nós, os "Caveiras"

O sociólogo Luiz Eduardo Soares e o cineasta José Padilha selaram importante parceria, há poucos dias. Autores respectivamente de Elite da Tropa e Tropa de Elite – livro e filme -, eles formam a mais recente dupla de sucesso nacional na onda de suas criações, as quais, segundo disseram a um jornal paulista, em artigo recente, “nasceram e cresceram como obras distintas e autônomas”, mas com similitudes de essência que culminaram por propiciar-lhes identidade.

Num texto dirigido a segmentos sociais pertencentes aos níveis de ápice, as camadas de estratificação onde se acomodam intelectuais e eruditos, Luiz Eduardo e Padilha fazem crer que se anelaram numa empreitada pedagógica com a mídia, por recurso globo-facilitador, para lançar luz sobre algumas questões fundamentais à visualização da “barbárie em nome da civilização”, que imputam ao Batalhão de Operações Especiais da PM carioca, mas que parece não ter ficado muito claro, a considerar pela reação do público, e agora julgam conveniente esclarecer, a fim de não haver dúvidas sobre as intenções pretendidas na ficção e abstrações que um materializou em livro e o outro na sétima arte.

O que parece complicado é muito simples: as obras têm um condimento identitário, o horror, e nossos próceres culturais procuraram reunir forças para exibir suas imprecações aos comportamentos desviantes da razoabilidade imprescindível à natureza humana, consideração que prefeririam até relativizar, mas que por ora julgam previdente não refutar, em defesa dos direitos humanos contra violações e aviltamentos promovidos pelo BOPE, como garantem acontecer de forma contumaz, genérica e institucional. Daí as lições de moral no populacho que se deleita na paródia “metalingüística”, presente em suas criações, e que, por não decifrá-la, supõe-nos condescendentes com a vingança, pelas mãos do BOPE, contra o inferno produzido pelo exército das drogas, que há anos lhe tira a paz e mina-lhe as esperanças.

Os autores talvez tivessem até crido que isso não seria preciso, afinal tudo ia bem; o filme já é um sucesso estrondoso e o livro vende muito. O que fez com que as renomadas personalidades se adiantassem em explicar essa incursão pela arte mórbida, posando ora de Francis Bacon, e ora de Gilles Deleuze, foi justamente a necessidade de não se permitir acusações de imprevidência ideológica. Aos poucos, vozes aliadas nas cores das idéias que professam e que podemos enxergar no curso de suas produções tornadas públicas, emitem opiniões de dissonância sobre o conceito de suas criações; foi assim com o escritor peruano Daniel Alarcón e com o jornalista Arnaldo Bloch.

É disso que precisam se precaver; faturar com a fantasia do horror sim, mas com o cuidado de não parecerem burgueses insensíveis, anestesiados pelo lucro, cuidando, com as explicações em parceria, de livrarem-se de qualquer desconfiança que lhes recaia. É por isso que confundem ficção com fatos: o objetivo é atirar na cara dos Soldados do BOPE, e da população que aplaude o “sapeca iá iá” no lumpesinato bestial, a pecha de bárbaros, incivilizados, condescendentes e assassinos.

Nossos intimoratos norteadores de conduta moral, espécies de “grilos falantes” acima de qualquer suspeita, estão sendo vistos com desconfiança, e já sofrem acusações que variam de “reacionarismo à farsa”. Eles precisam imediatamente desenterrar e destruir qualquer semente de suspeita sobre suas intenções mais secretas e inconfessáveis; essas que não se apresentam no “dito”, mas que são captadas por experimentados estudiosos do psiquismo e criminologistas, mesmo quando dissimuladas (ou simuladas) por falsificações quase perfeitas daquilo que “não é”. Numa tese psicanalítica: “o que declaro não querer é justamente a minha intenção”.

Luis Eduardo e Padilha gostam de sangue, tortura e horror, mas como manifestação de entretenimento e cultura, a exemplo de Bacon e Deleuze, mas precisam, antes, imputá-las como fato a outrem, para não parecerem despretensiosos metafísicos da dor social. Nós, Caveiras do BOPE, gostamos de combater o mal que a pós-modernidade insiste não existir.

O José e o Luis não conhecem os fuzis. Não conhecem a guerra urbana real na qual vivemos e que mimetizam sob aplausos. Eles exibem o que refutam, em nome do belo. Eles expressam o que repudiam, em nome da arte.

Mário Sérgio de Brito Duarte é ex-Comandante do BOPE e Filósofo.

Publicado no jornal O Globo em 12 de outubro de 2007
Caderno Opinião - página 7



5 comentários:

Anônimo disse...

Os autores têm contas a prestar com a comunidade intelequitual, como escreve Reinaldo Azevedo. Os cursos de ciências humanas das Universidades, viveiros dessa espécie, são retratados de modo muito desonroso no filme.
A pergunta que eles têm que responder pros superiores é: como passaram essas m* burguesas?
Pelo visto, não sabem responder, terão que fazer muitos anos de análise....

Anônimo disse...

é uma grande tristeza rotular o trabalho dos Sociólogos e atribuir aos mesmos o mesmo caminho, as mesmas análises. os rótulos demonstram a ignorância,a antipatia camuflada pela retórica e isso não é bom para ninguém. colocar num mesmo saco o Soares e o Michel Misse é o mesmo que comparar o Capitão Nascimento ao coronel Mário Sérgio.

Abç,
Leão

Marcello disse...

Texto inteligente e sutil. Mesmo não sendo gramisciano,valho-me de digamos uma de suas "idéias': um lidimo "intelectual rgânico".Folgo em ratificar que há vida intelgente (como o sei) nos quadros de sua corporação.Parabéns,
Prof.Marcello.
e-mail marcelloy@hotmail.com

Daniel disse...

Caro Mário Sérgio,

Apesar de não ser membro de nenhuma corporação policial, desde há muito simpatizo com os princípios e ideais daqueles que mantém a ordem, garantem o cumprimento da lei e a soberania da Justiça.

Li o seu livro, assim como o Elite da Tropa e, sinceramente, como não faço parte da PMERJ, prefiro não dizer qual dos dois é mais fidedigno. Porém, uma coisa é certa: se pudesse escolher uma polícia, se pudesse fazer parte de alguma corporação, preferiria, sem dúvidas, a corporação da qual o senhor faz parte.

Ainda espero o dia em que a segurança seja não só um dever do Estado ma, também, uma obrigação de todos. Enquanto este dia não chega, saiba que, se algum dia precisa, estarei aqui, ao seu lado e ao lado de todos aqueles que um dia juraram dar a própria vida pela lei e pela vida e bem-estar dos demais cidadãos.

Um abraço e boa sorte em sua tão gloriosa senda!

SEMPER FIDELIS

Hugo Rodolfo disse...

Caro Mário.
Sempre esteve claro a real intenção destes dois "elementos", GANHAR DINHEIRO. Que os mesmos gostam de agir sobre o pretexto de combater desigualdades, já está mais do que claro... mas não passa de pretexto. Na realidade estas pessoas, que prefiro não citar os nomes, verdadeiramente embarcaram no que poderia ser, e realmente foi, um sucesso rentável, com pretexto de exibir a "sociologia do crime".
O povo em geral já está cansado de atitudes como essas. Verifiquemos nas próximas eleições, como eles vão se sair????? ...caso tenham a coragem de se candidatarem...
Abraços
Semper Fidelis
Caveira 48
Hugo Rodolfo