terça-feira, 12 de agosto de 2008

O narcoterror e seu fundamento

Vi a expressão ser usada pela primeira vez em 1990, num artigo do Coronel da polícia boliviana Edgar Prudêncio Medrano. O professor Oscar Vieira da Silva, da Polícia Militar de Minas Gerais, havia traduzido, para o português, o trabalho do oficial intitulado "El Narcoterrorismo". A tradução e notas explicativas haviam sido publicadas na revista O Alferes, da PM mineira.
Eu servia na CIOE, Companhia Independente de Operações Especiais, que mais tarde iria se transformar no BOPE. Já naquela época tínhamos uma "secreta intuição" de que algo muito grave iria acontecer à Segurança Pública do Rio de Janeiro. Os fuzis de assalto estavam chegando em quantidades razoáveis e, naquele início de década, algumas dezenas de armas já estavam nas mãos de traficantes de drogas que ensaiavam reação quando os agentes da lei buscavam desarmar-lhes, consoante a destinação constitucional que cabe ao Estado de detenção do monopólio das armas para uso legal e legítimo.
O texto, que não saberia dizê-lo um trabalho acadêmico ou técnico-profissional, alertava-nos para o risco da expansão da traficância internacional de drogas num formato diferenciado, para além da vontade de lucro e com um ingrediente explosivo de concepção ideológica: a participação subterrânea e operacional de grupos terroristas e guerrilheiros em ação na América do Sul, como as FARCs, o M19 e o Sendero Luminoso. Estes, segundo o coronel, estavam dando proteção aos narcotraficantes com cobrança de vultosas taxas sobre o lucro da produção.
É verdade que não temos isso no Brasil. Não temos, e espero que não tenhamos a ação terrorista-política com objetivos revolucionários ou insurrecionais.
É verdade, também, que os narcotraficantes brasileiros não estão aparelhados política e ideologicamente e suas armas não estão a serviço de "exércitos populares".
Todavia, temos aqui uma espécie de narcoterrorismo, posto que, para manutenção e divulgação de sua "ideologia de facção", os traficantes de drogas se utilizam fartamente de táticas de intimidação e terror. Se não pretendem uma "sociedade mais justa e igualitária", como afiançaram ser possível os festejados ideólogos das lutas de classes por processos fratricidas, pretendem, todavia, exibir seu poder de organização e força das armas para promoção da insegurança e do medo, e, para isso, queimam pessoas vivas, atacam e assassinam policiais em serviço e mutilam "inimigos", para, com seus pedaços, alimentar animais famintos em rituais horrendos de iniciação dos mais jovens. Já se foi o tempo que o problema maior era o comércio da droga "viciadora". Já se foi o tempo que o maior problema estava nas armas de guerra.
O risco de hoje é maior.
O risco, a ameaça dos nossos dias é mil vezes pior, porque não necessita de objeto material para promoção de submissão e naturalização da loucura.
O risco dos nossos dias é um ente metafísico, plasmado na idéia, diluído em pichações de muros e paredes das casas nos bairros, cantado nos "proibidões", exibido nas iniciais formadas com os dedos das mãos, exigida sua manifestação de adesão em comunidades, estabelecimentos penitenciários e cadeias.
O risco de nossos dias é baudrillardiano, pois está no valor de signo o cerne de sua existência.
A criminalidade, os delitos, a ordem, tudo isso cabe fundamentalmente ao sistema de segurança pública estatal manter sob controle, com os recursos de prevenção e repressão qualificada dos seus órgãos de polícia, como tem ocorrido de forma incansável por abnegados e intimoratos agentes da lei.
Identificar, prevenir e desconstruir a ideologia do medo e da servidão, cabe a todos nós, interessados no bem-comum.
Publicado no BLOG DA SEGURANÇA, de O Dia on line, de 11 de agosto de 2008
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8 comentários:

Anônimo disse...

O Cel. Mario Sergio nos brinda com mais um brilhante texto, com análise clara e objetiva dos tentáculos do narcoterror. Gostaria de ressaltar ainda, o outro lado do narcoterror, travestido de assistencialismo socio-econômico nas comunidades em que estão instalados, transformando os moradores em reféns "full-time". Basta observarmos quando o telejornalismo nos mostra as ações policiais nestas comunidades, muitas vezes nem um só tiro é disparado e já se forma uma turba "organizada" gritando palavras de ordem contra a polícia, sendo este tipo de manifestação também utilizada pelas milícias. Basta lembrarmos a prisão do deputado Natalino, a confusão que se formou à porta da DP de Campo Grande.
Nelio (nlf@brascanqs.com.br)
Ter, 12 Ago 2008 08:01:52 GMT

Anônimo disse...

coronel bandido bom é bandido morto?

Anônimo disse...

Prezado Mário Sérgio:

Parabéns pela sua promoção (AGORA CORONEL PM ). Apesar de tardia, não deixa de ser mais do que justa. É natural que outros tenham as "broncas" ou até mesmo "inveja" , mas , para um CAVEIRA , não seria novidade dizer que são "OSSOS DO OFÍCIO".
De sorte, que lhe desejo: parabéns, saúde e sucesso e que seja ( QUEM SABE ), nosso COMANDANTE GERAL DA PM.

DEUS O ABENÇOE E SUA FAMÍLIA.

"UM AMIGO"

Anônimo disse...

Parabéns pela sua promoção. Guando servi nuna Unidade da PMERJ havia um espelho com os seguintes dizeres: ... ¨ O espelho reflete você e você reflete a PMERJ ... ¨ Por conhecê-lo também, tenho a certeza que neste mundo não existe um espleho que consiga relfetir a grandeza de Vossa PESSOA.

Força e Honra.

Anônimo disse...

Caro Cel., também quero parabenizá-lo pela sua promoção e mais: pela coragem do ISP em publicar a pesquisa sobre a confiabilidade de nossas polícias junto à sociedade carioca. Mas já que o sr. citou nosso "querido" Jean Baudrillard, será que o resultado desta pesquisa não é mais uma(das muitas)"intoxicações midiáticas sobre a massa crítica?"Devaneios à parte, chama-me a atenção a citação de movimentos político-militares que me são tão caros: O Sendero Luminoso(maoista), o M-19 e as FARC-EP(leninistas). Uma leitura hodierna da sociedade, servindo-me, se me permite,da "gnosiologia baudrillardiana", impõe a todos nós, espacialmente distantes das circunstâncias que levaram à formação destes movimentos, uma cultura de massa, "realidade virtual", i.é, repetição de "jaculatórias" tais como: narcoterroristas,terroristas. Será que o estado, vido o estado colombiano, não poderia ser, com mais razão, adjetivado assim? A democracia falhou para estes povos, assim como a soberania de seus países foi violada por seus próprios governantes e seus ideais esvaíram-se ao limbo.A democracia falhou aqui também! Uma mera reação democrática, como alardeia o nosso glamouroso TRE, pelo voto, é uma respostaeficaz? Por isso, a luta armada destes movimentos foi e é legítima, pois lá, não aqui, deram o salto qualitativo para além da subjetividade abstracional dos discursos.Não há ideologia alguma na traficância carioca, mas intimidação, cerceamento de direitos, assassínios.Como bom caveira, o sr. sabe que este é o único caminho: a retaliação! Ou o sr. acha que o PAC e o "cimento social" resolverão o problema?Permita-me citar Goebbels: "uma mentira dita muitas vezes, torna-se verdade absoluta", que não nos ouça Baudrillard.

EL CURA PEREZ

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Discordo Perez, mas registro tua reflexão com judiciosa atenção.
Não sou baudrillardiano, a rigor estou mais para Descartes, o que não torna inexorável usar, sei lá...Deleuze, por exemplo.
Creio que há ideologia, sim. E cada dia mais espraiada.
Claro, ideologia como espectro de conexões mentais gerando subcultura, diferente de ideologia política.
É isso.
E sobre a pesquisa, obrigado pelo elogio, mas...há quem não gostou nem um pouco.
Força e honra!

Anônimo disse...

Prezado Cel. Mário Sérgio,
Se bem entendi o que disse o "Cura Perez", também partilho da opinião, ou suposição, de que o resultado da pesquisa seja mais uma "intoxicação midiática da massa crítica". A idéia me veio à mente logo que foi publicada a pesquisa. Como pode a população confiar na polícia, depois de décadas de propaganda no sentido de desmoralizá-la? Décadas em que a mídia destacou todos os erros da polícia, silenciando sobre os seus esforços, os seus sucessos, as suas carências. Um filme que não faz justiça aos policiais, que os mostra como corruptos, torturadores e assassinos, pareceu até um elogio à polícia e virou "cult" de parcela conservadora da sociedade - apenas por mostrar o lado do policial. O Brasil ignora o policial, por uma inversão de valores que contamina os meios de comunicação. Que outro resultado se poderia esperar dessa pesquisa?
Também me parece natural que esta sistemática e persistente difamação da polícia acabe por, efetivamente, contaminar os seus quadros, atraindo para a instituição elementos que se identificam com a imagem negativa que a ela foi associada.
Em suma, parece que a polícia se ocupa muito - com razão - do "ser" e do "fazer", enquanto seus contrários se ocupam - com astúcia - do "parecer". E, numa sociedade exposta à influência dos meios de comunicação de massa, mais do que em qualquer outra, não basta ser honesta, é preciso também parecer honesta.
Estou sabendo agora da sua promoção, que é muito merecida. Meus parabéns e meus votos de pleno êxito em tudo que diga respeito ao seu trabalho. Como já lhe disse, o seu sucesso - e de todos os bons policiais - é a nossa esperança de um futuro melhor.

Anônimo disse...

Enquanto isso...

Na madrugada dessa sexta para sabado, houve OUTRO ARRASTÃO nas cercanias da residencia do Sr Cel PM ANTONIO CARLOS SUAREZ DAVID , Chefe do EMG (e do Sr. também). Dessa vez, foram a 200M ao sul, na R Maxwell. Ja cortaram a cabeça do P-3, e agora? Vao cortar a cabeça de quem?