sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sobre a Síndrome Irresponsabilizadora Fetal Umbrática - SIFU

O dia de ontem foi marcado por fatos que indubitavelmente estão ligados aos históricos problemas de violência e criminalidade do Estado do Rio de Janeiro.

Vou me deter apenas naqueles que receberam maior veiculação pelos jornais. Se pretendesse falar de todos os eventos violentos teria que abrir um leque de considerações que ultrapassaria, em muito, a dimensão onde tenho situado meu alvo de perscrutações e reflexões, ou seja, o narcotráfico e seu poder.

Essa decisão teleológica não é casuística nem oportunista. Seu fundamento está no exercício exaustivo da atividade policial propiciadora de observações aproximadas, e participação teórico-operacional na busca constante da promoção da tranqüilidade pública e da paz social do povo fluminense.

Assim, os eventos de ontem me asseguram o quanto este artigo é oportuno, considerando o apelo midiático de seus acontecimentos, atraindo a atenção geral.

O primeiro, e mais triste, muito mais triste, infinitamente mais triste, está marcado de sangue inocente. Uma criança é atingida mortalmente por um disparo na porta de sua casa, na favela da Baixa do Sapateiro, onde, ladeando-lhe, situa-se o 22º BPM – o Batalhão da Maré – unidade operacional da PMERJ a qual tive a honra de comandar por um ano e quatro meses, período no qual, enlutado, sepultei uma dúzia de valorosos policiais militares.

Ali, mais uma vez, outra dessas desgraças que procuramos evitar a todo custo enluta a população sedenta de paz, justiça e liberdade, valores naturais da existência humana, tão irrefreáveis no espírito ao ponto de encontrarmo-los desfraldados como bandeira de ideais até por grupos avessos à lei e à sociabilidade legítima.

E, novamente, como enfrentei ao longo do meu comando, nas vezes em que inocentes pereceram vitimados nos embates desse conflito urbano armado que atravessa o Rio há vinte anos, as acusações sobre a autoria do crime recaem sobre policiais, atribuindo-lhes uma deliberada intenção em promover a dor; quando muito, para menos, uma indiferença sobre os riscos de cometê-la.

É claro que se foram os policiais, que lhes caiam sobre as costas o látego da lei.

Mas, e se não tiverem sido os agentes da lei os responsáveis pela morte?

E se o infortunado menino tiver tido sua vida subtraída por um dos muitos (muitos mesmos) traficantes que ali gastam seus dias em maquinações tenebrosas e disputas sangrentas de mercado?

É lógico que, para a família, o conhecimento da origem do disparo não aplaca a dor da perda, não obstante trazer algum alívio ao espírito saber o criminoso exposto à lei.

Mas, agora, independente do “culpado da ação”, já há um culpado por inferência ideológica.

Algo ruim ocorreu? Foi a polícia – garantirão alguns, sempre.

Independentemente de uma solução futura do caso que aponte em direção diversa, a PM já é a culpada. “Foi um tiro certeiro (intencional) de uma corporação atrapalhada que não sabe trabalhar em comunidades”, segundo uma versão.

Todavia, é possível que tenha sido outra a origem do tiro. Claro que é possível.

Ali, como já disse, traficantes de drogas de uma facção se postam diuturnamente em franca oposição às leis do país, e, por conseqüência, ao Estado Democrático de Direito.

Subjugadores da vontade individual e coletiva daquelas comunidades da Maré fazem valer suas vontades, transformando em verdade toda e qualquer versão que lhes interesse e favoreça.

Não obstante serem uma minoria, pequena e poderosa minoria em meio a um oceano de moradores sintonizados nos valores do bem, operosos, produtivos, cidadãos, mantêm acorrentadas essas almas a um odioso anel abstrato que lhes inflige valores e signos.

Essas criaturas dedicadas ao mal-comum que, é bem certo, têm-lhes a incentivar a inserção e permanência no crime toda sorte de situações desfavoráveis - da família desestruturada ao não pertencimento de grupo social destinatário de atenção e afetos - não podem se escusar, de forma absoluta, de suas responsabilidades nas escolhas, justamente pelo mesmo motivo: a imensa maioria dos integrantes das suas comunidades se encontra na mesma situação e, nem por isso, opta pela vida criminosa.

Mas ontem, ali perto, retomando um discurso que parecia ter abandonado há tempos, o presidente Lula, falando a milhares de pessoas no Complexo do Alemão em evento do Programa de Aceleração do Crescimento, afagou carinhosamente a cabeça dos criminosos inocentando-lhes de toda conduta, dando o tom de uma interpretação “neomarxista” de desigualdades sociais e ausência de Estado.

O Presidente, diante de uma população que melhor do que qualquer outra conhece bem a força tirânica dos narcotraficantes, e sonha um dia se ver livre da submissão às suas vontades, os absolveu de toda responsabilidade por suas escolhas e atos, e os promoveu, por redução, de sujeitos detentores de vontade e razão à espécie de cera passiva, absorvedora inerte das formas anti-sociais que lhes determina o feitio a as representações.

Lula, nosso Presidente da República, re-inaugurou o estilo argumentador-psicanalista fora de moda por caducidade, aquele que atribui a culpa do erro voluntário, do “gozo, do deleite no mal consciente” a algum trauma abonador, tipo: “a ausência da teta da mãe”. E, aí, a mama faltante e culpada é o Estado, o mesmo Estado que, paradoxalmente, faltou durante todo o tempo àqueles milhares de jovens que ladeiam os criminosos, que dividem com eles os espaços das favelas sem se lhes assemelharem em atitudes e escolhas.

O dia de ontem foi um dia tristemente marcante.

Um inocente morreu.

O Presidente celebrou o culto de remissão do “criminoso não arrependido”.

E quanto a polícia?

Bem...

Não se vai dizer para alguém:
- Meu...sifu.

8 comentários:

Anônimo disse...

Vi na TV a PM em forma, sob o sol, a escutar as sandices proferidas pelo Apedeuta, aqueLLe. Os rostos perplexos.

Que vergonha.

Quem votou nesse cara ?!

Anônimo disse...

Eu votei...dá próxima comento este poste. Tô triste mesmo é com o Nosso Vascão que agora tá vasquinho. Puxa MS! A Nau afundou...que tristesa.

Anônimo disse...

Eu votei...dá próxima comento este poste. Tô triste mesmo é com o Nosso Vascão que agora tá vasquinho. Puxa MS! A Nau afundou...que tristesa.

Anônimo disse...

Fetal, não! Fecal!
Foi dia do presidente Lula fazer cocô em público.
Não foi perdoado nem no site da presidência da república.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Parei de acompanhar futebol quando Andrada ainda era goleiro do Vasco (aquele time tinha Andrada, Fidélis, Moacir, Renê e Eberval - Alcir e Bugleaux - Luiz Carlos, Valfrido, Silva e Gilson Nunes). Mas vi o jogo sim.
Fica algo bom nesse rebaixamento: a torcida exorciza o Eurico de vez.
Bola pra frente.

Anônimo disse...

esse blog esta cada dia mais interessante..

mais um inocente morto
a culpa é da polícia (que novidade)
a derrota do vasco (outra novidade)
o presidente ta "sifu" pro país?

Pelo amor de Deus me conte uma nova!!!!!

Anônimo disse...

Prezado Coronel Mário Sérgio:

Permita-me sair um pouco do assunto, para adentrar em outro. Assiti ao Filme 174. Pois bem. O FRACASSO DO MESMO ( obviamente, não divulgado pela mídia ), já diz por si só 3 coisas:

1) Nós, sabemos que existem sim, vítimas do descaso do Estado,MAS, NÃO JUSTIFICAM ATOS CRIMINOSOS.

2) Nós, ESTAMOS DE SACO CHEIO de discursos baratos ( galera dos Direitos Humanos ) e nenhuma ação de ONG'S, por exemplo, quando polciais morrem, e nada é feito.

3) Sim, o Brasil tem um herói. Ele se chama Capitão Nascimento. Se você acha o oficial truculento, desequilibrado, despreparado, doente e tudo o mais...a sociedade lhe responde um sonoro : PEDE PRA SAIR!!!!

Ass: POVO BRASILEIRO

Joana disse...

Vivemos um dilema básico. A sociedade não quer ser incomodada pelos criminosos, mas uma parte da sociedade não quer que os criminosos sejam incomodados. Realmente fica difícil ser policial, tenho realmente muita (me perdoem) dó desses que dedicam suas vidas a travar uma luta em defesa da segurança pública, que deveriam ser apoiados, tratados como heróis e no entanto, a palavra de qualquer traficantezinho é mais considerada que de um policial para os "socioapedeutas" de plantão. Querem que os policiais enfrentem os traficantes com o quê ? com balas de chiclete ? querem por no mesmo pé de igualdade um Homem que dedica sua vida, na legalidade, a combater o crime, com um que dedica sua vida, na ilegalidade, a disseminar violência ? Infelizmente esses criminosos "coitadinhos" não mamaram na teta materna. Que não venham mamar sob a proteção do Estado, no meu direito de viver em segurança. E se alguém tem que se fu... que seja um criminoso, não um policial.