segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A boca fala daquilo que está cheio o coração - JC

Foi sorte minha estar cortando o cabelo e ter ficado posicionado bem em frente à TV, enquanto passava o RJ - 1ª Edição.
Quase não vejo jornais televisados.
Claro, acompanho a mídia, mas por jornais impressos e na leitura sôfrega da resenha que a Madrinha generosamente nos oferece todos os dias, atualizada quase que hora a hora, às vezes com intervalos menores quando a notícia é substancialmente importante.
Mas, por sorte, e não por acaso, eu estava ali, de frente para a tela quando Edney Silvestre passou a entrevistar o músico Samuel Muniz.
Eu não o conhecia, nunca ouvira falar nada dele, algo bem comum na minha vida lamentavelmente alienada para sucessos musicais, em especial para as novas bossas.
Edney Silvestre começou de chofre. Lascou uma pergunta dessas que muito entrevistador fica tergiversando, tentando ser diplomático quando sabe que precisa fazê-lo, mas com cuidado para não ferir suscetibilidades:
Samuca, você não esconde que foi um criminoso. Por quê?
Eu não conhecia Samuca.
Não conhecia nem o músico nem o ex-presidiário Samuel Muniz.
Não por culpa dele.
O desinformado sou eu.
O primeiro Samuel, o que afortunadamente já não existe, como exibe a matéria, o Samuel que fora bandido, eu já não conheci.
Na época em que ele “brilhou” como assaltante e seqüestrador eu trabalhava em Niterói e sua atuação se dava marcadamente do outro lado da poça.
O Samuel músico, voluntário em obras sociais eu nunca ouvira falar, mas isso acabaria acontecendo, suponho, na medida em que se tornasse um sucesso como é o Seu Jorge, um dos poucos novos que conheço e que é capaz de me arrancar um troco para comprar seu CD/DVD, para mim ou para presentear alguém. E não é porque ele é de minha terra São Gonçalo, ou morou lá, como dizem. É porque eu o julgo ótimo: nível Djavan, Martinho da Vila.
Edney fez dez perguntas ao Samuca. Das dez, cinco para extrair-lhe uma remontagem histórica de sua vida como criminoso; duas para que falasse de sua família, sua infância, uma sobre sua iniciação musical, uma sobre o trabalho social e a última pedindo-lhe que falasse sobre planos para o futuro.
Samuca se saiu bem em todas. Respondeu a cada pergunta sem titubear.
Não sei nada de Samuca, quer dizer, não sabia e vou buscar saber mais, talvez comprar seu CD.
É fato: Samuca não cantou nenhuma música, mas creio que ele fez algo que o exibiu tão importante quanto é por ser artista, formulador de estéticas, bossas, conceitos.
Ao ser questionado sobre sua vida em casa, quando ainda jovem, ele tratou de deixar claro para o mundo o seu papel, sua responsabilidade pessoal na vida que adotou e disse: ....talvez até em função de ter perdido minha mãe, a rebeldia ficou mais à flor da pele e eu comecei a partir para esse outro lado. Foi uma opção minha, uma escolha minha. Decidi que seguiria para aquele lado.
Samuca poderia ter seguido o discurso do presidente Lula no Complexo Alemão, pondo sobre as costas do Estado a responsabilidade da vida bandida; a que se permitem os traficantes de drogas e outros marginais, violadores das regras sociais.
O músico reconhece que a ausência da mãe contribuiu para sua escolha, mas ele diz isso com dignidade, sem absenteísmo de sua responsabilidade. Sua fala é quase um pedido de perdão àquela que ele gostaria de não ter decepcionado, jamais.
Samuca não teologiza o discurso, mas deixa evidente que há um espaço definitivo para a fé na sua nova jornada: Senhor, entrego minha vida em suas mãos, peço que me dê forças para que eu não precise mais usar drogas, não me envolva com a criminalidade e seja uma pessoa honesta, que me dê forças para eu crescer com a minha música – diz, como quem já sabe que a Providência Divina o levará ao rio farto, mas à pesca lhe caberá o trabalho.
Eu posso estar errado, que não seja verdade, que o detento do passado e cidadão pleno de hoje esteja simulando e que tudo seja uma enganação dele, mas eu não gostaria de estar errado porque senti verdadeiro seu discurso assertivo, sem marcas de ódio ou ressentimentos.
Eu quero estar certo na impressão que colhi da entrevista, da fala do músico Samuca, do cidadão brasileiro Samuel Muniz.
Há quem não acredite em recuperação de apenados, egressos do sistema carcerário. Eu acredito.
Claro, não creio que isso aconteça com todos, com a massa, aí considerando a esmagadora maioria de egressos.
Não creio no homem meramente mesológico, aquele que os defensores do coletivismo e do culturalismo fazem crer como mero repetidor do ambiente social, e que basta uma boa “política pública” de ressocialização para termos um novo homem identificado com o mundo da norma.
Balela.
É preciso ajuda externa, sim, como aconteceu com Samuel que encontrou ajuda de um advogado desinteressado em honorários fantásticos; mas é preciso decisão interior, vontade pessoal, principalmente, para abandonar o gozo do crime.
Creio no homem autodeterminação, no homem livre-arbítrio, no homem-decisão, no homem-querer.
Samuca estava tranqüilo na entrevista.
Foi bandido, não nega.
É artista agora.
É voluntário em trabalho social também.
Acredita na família; quer engajar as mães e pais – a figura paterna - de jovens em sua lida para afastá-los do crime.
Quer engajar mães e pais trazendo-os para próximo dos filhos no aprendizado de uma atividade com retorno financeiro legal e legítimo, situado numa dimensão ética que compreenda os valores da paz e do bem.
Ele quer trabalhar contra as desigualdades sociais sem culpar essas desigualdades pela mal que o homem pode fazer ao seu semelhante.
Eu acredito em bem, em paz, em concórdia, em oportunidades, em recuperação, em virtude, em recomeço, em trabalho, em Deus.
Eu acredito em perdão, afinal preciso dele a maior parte do tempo.
Eu acredito em coisas que Samuel Muniz acredita hoje também.
Vou ouvir a música do Samuca.
Pode ser que não goste, como não gosto da bossa do AfroReggae, mas vou fazê-lo torcendo pra que seja algo assim, com talento gonçalense tipo Altay Veloso, tipo Seu Jorge.
Alguém sabe onde está vendendo?
Ps: para ter acessso à matéria bastar clicar no título do artigo.

14 comentários:

Anônimo disse...

Samuca é uma figura. Parabéns pelas lúcidas colocações. Cheguei ao seu blog através do blog Modus Operandi. Abração

Anônimo disse...

Conversei com o Sr. sobre esta reportagem e sua postagem no blog, mas não encontrei um link para o original do RJTV. Realmente finalmente alguém reconhece a responsabilidade pessoal inequívoca da opção pelo crime e, evoluindo, pela honestidade. Muito bom.

Anônimo disse...

O Samuca precisa de perdão e merece, se tem consciência e arrependimento, se mudou seus atos.
Um bom policial merece mais do que perdão. Que Deus o perdoe por algum pecado privado. Que os homens o enalteçam pelos sacrifícios pessoais na luta contra o crime, num cenário público marcado por distorções. Se não o enaltecem, que pelo menos os homens perdoem o policial. E sem que precise se arrepender de ter cumprido suas funções.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Para acessar a matéria, basta clicar no título dela.
É um link.

Anônimo disse...

NÃO "ENGOLIRAM" O Cap.Nascimento ainda:

Prezado Coronel Mário Sérgio:

Que a mídia sempre foi a inimiga da polícia, todos nós já sabemos ( com algumas raras exceções ), mas, depois desta, agora vem o cinema:

Recentemente, a população demonstrou através das "telonas", o perfil de policial que ela deseja ( vide o grande sucesso " Tropa de Elite"). Pois bem. A esquerda não gostou né? E quis fazer de um crminoso, uma vítima (Sandro)( se fosse assim, o Brasil seria o País dos homicidas,traficantes,etc..), Resultado? FRACASSO do filme " 174", nem " em sonho, passou pela cabeça de alguém, indicá-lo para o Osar, MUITO DIFERENTE do outro.
Agora, navegando na internet, vejo a excelente atriz Daniela Escobar, em entrevista dizer que está gravando o filme " Quatrocentos contra um",vivendo a bandida Teresa ou seja: mais uma vez, é a tentativa de fazer do bandido ( agora, de uma facção!!!!), uma vítima. Claro, que " não vou ensinar o Padre a rezar Missa", mas, depois desta, É O CÚMULO!
CLARO que o senhor sabe o pq de tudo isto, mas, é impressionante ver COMO ELES QUEREM FAZER COM QUE O POVO SEJA contra o Policial Militar, Civil,Federal, Agentes Penitenciários,entre outros, e "proteger" a bandidagem.

OBS: ESPERO QUE O FILME MOSTRE A DECISIVA PARTICIPAÇÃO ( A MAIOR DE TODAS ), DE INTELECTUAIS, POLÍTICOS tiveram na criação da conhecida facção crminosa.

Forte abraço!

Anônimo disse...

Luis Eduardo Soares está de novo na área se esforçando para aparecer.
Deu uma entrevista para o Le Monde brasileiro que merece comentário.
Já li e limpei a bunda com o jornal.

Joana disse...

Cel. parabéns pelo blog. Cheguei a ele fazendo uma pesquisa sobre o livro "Servir e proteger" (o título do livro lembra o "vigiar e punir" do Foucault rs). Esta postagem é de uma sensibilidade ímpar, fala com beleza de um processo de adoecimento e cura de uma alma. Infelizmente algumas doenças matam e não há como recuperar a "alma morta". Por isso que há a frase bíblica que adverte a temermos o que mata a alma e não o que mata o corpo. Policiais (pessoas) iguais ao senhor nos enche de letícia e esperança.

Emir Larangeira disse...

Prezado Cel Mário Sérgio

Parabéns pelo artigo! A nossa sociedade exige que se faça a ressocialização dos condenados, mas os "cidadãos" não os perdoam nem depois de regenerados. A maioria atira logo a primeira pedra, como se não tivesse pecado a pagar. São uns sacripantas! Não sei quem é o personagem Samuca, mas creio que o ser humano é capaz de se superar em tudo, como ele o fez.
Tomara que ele vá em frente com muito sucesso e felicidade para a família, os amigos e os fãs dele!
Com a admiração incondicional deste gonçalense,

Emir Larangeira

george disse...

Caro, Cel.
É com grande honra que lhe escrevo, para parabenizá-lo, pois seu conhecimento e exoeriência são incríveis.
Me chamo George Cleber (Binho), sou formando em Ciências Sociais, trabalho junto com o Samuca no Centro Cultural A História Que Eu Conto.

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Prezado George

Prazer em tê-lo por aqui.
Aproveito para parabenizá-lo e à sua equipe pelo trabalho que estão fazendo no Centro Cultural.
Se um dia quiser aparecer para cambiarmos experiências é só me escrever no e-mail do blog para agendarmos.
Será uma honra para mim.
Um abraço para você e outro no Samuca.

LORENA disse...

Tenho o privilégio de conhecer essa pessoa que é tão especial, o Samuca. Inclusive ontem eu estive com ele em uma festa de amigos, que me recomendou a entrar em seu blog para ver um documentário falando sobre ele! Fico muito feliz em saber que pessoas tão importantes quanto o senhor tem esta admirição por este homem-cultura. Pode ter certeza de que ele também está!
Abraços

Mário Sérgio de Brito Duarte disse...

Coronel Larangeira, obrigado por vossa presença sempre bem-vinda.
Caso queira assistir a entrevista do Samuca, é só clicar no título da postagem.
Um grande abraço

Nádia Regina disse...

Quero parabenizar esse novo homem chamado Samuel...que Deus o abençõe com muitas e muitas vitórias, que novos jovens venham ser resgatados da vida do crime através de seu testemunho e de sua nova vida. Que esse trabalho que está sendo feito na Vila Aliança possa se lastrar por todo o mundo. E eu creio que será...parabéns a todos tb de sua equipe que voluntariamente contribuem para esse trabalho. Pois todos nós sabemos que uma só andorinha não faz verão. Vitória !!! Já e sempre !

JANETE disse...

ola coronel sou viuva de um policial militar que faleceu em 94, fiquei com 2 filhos menores um de 3 e outro de 8 anos, minha vida mudou muito apos a morte de meu marido, fiz tudo oque pude ate oque não pude para dar uma boa educação aos meus filhos, mas infelizmente o destino me pregou uma peça, e perdi meu filho com 21 anos baleado com 11 tiros, eu queria dar um tiro na minha cabeça porque eu me perguntava a onde eu errei com meus filhos, e foi num desses momentos que encontrei samuca, e hoje um ano e cinco meses depois estou junto de samuca lutando por dias melhores para mim e para todos os jovens do meu bairro, samuca foi a luz que deus colocou em minha vida,hoje eu posso lhe dizer não tenho nada material, e a pensão que ganho da pm mal da para as despesas basicas mas tenho samuca, e o centro cultural que hoje e tudo na minha vida, e tenho fé em deus que vamos fazer do centro cultural uma casa de sonhos, onde todos os jovens teram o direito de sonhar e realizar se deus quizer. um abraço bem forte da neti ( se quizer me conhecer um pouquinho mas escreva no google assim>>( unicef tres mulheres ) e vera a entrevista que dei ao unicef ABÇS!!!