sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A dor nossa de cada dia

Finalmente a dor policial-militar foi motivo de notícia.
É verdade que como fato diário os meios de comunicação, principalmente os jornais impressos, veiculam eventos que envolvem policiais militares e policiais civis como vítimas.
A espetacularização da violência é uma estratégia segura para atração de leitores, e os jornais não podem deixar de faturar a vitimização dos agentes da lei que ocorre quase diariamente no Estado do Rio de Janeiro.
A dor policial militar, que poderia ser a dor policial civil, ou simplesmente a dor policial, a qual me refiro com um "finalmente" para iniciar o texto, é a dor passada a fenômeno social, tamanha sua recorrência: dor desprezada, dor menoscabada, dor não percebida pela indiferença crônica da sociedade em relação às corporações policiais e seus agentes, no que lhes atinge o corpo físico e o mecanismo psíquico propiciadores de suas existências.
A dor policial militar noticiada, tema de capa da Veja Rio, da semana que se iniciou no dia 21, é um conjunto de desgraças, de imolações, de martírios, de eventos fatais envolvendo centenas de dedicados profissionais que, quase ao desamparo, acabam deixando viúvas, órfãos, irmãos e pais inconsolados com a separação derradeira de seus amados nesta vida que antecede àquela outra, a que nos juntará todos para ser ou para não-ser.
Lamentei que a matéria exibindo o destino de seis famílias atingidas pelo trágico, não tenha sido publicada na parte de veiculação nacional, mas apenas no encarte destinado ao Estado do Rio.
O Brasil precisa saber o que se passa com os policiais cariocas.
Precisa saber que ser policial no Rio de Janeiro é contabilizar muitos amigos mortos ao longo da carreira. É ver crescer a galeria de fotos no saguão dos quartéis, batizada por Patrulha da Saudade, aumentar a cada ano.
O país precisa saber que ser policial aqui é manter uma expectativa sombria de não ver os filhos crescerem, não ver os netos chegarem e de não se alcançar a “reforma” ao término da carreira. É a pura incerteza da vida, pela incerteza de tê-la plenamente vívida e vivida.
O Brasil precisa saber que para o policial do Rio de Janeiro a morte ronda e espreita sem descanso, sem trégua.
A Veja acordou para nosso problema, só que ela é uma revista “reacionária”.
Claro, são os que se intitulam “progressistas” que dizem isso.
É preciso ser "reacionário" no Brasil para se interessar por uma categoria profissional como a PM, ou a PC.
Duvido que a Carta Capital, a Caros Amigos, a Fórum e talvez até a Piauí, publicariam algo assim.
Elas assentam o edifício de suas ilações jornalísticas no toco assegurador das ideologias revolucionárias com fundamento nas lutas de classe.
Por esse prisma, as forças policiais devem ser entendidas como integrantes da superestrutura odiosa que atenta todo tempo contra as bases populares da sociedade, criminalizando-as.
Com silogismo elementar e a partir de tal premissa, mais do que se extrair deduções pode-se fazer induções: os progressistas não se interessam pelos dramas dos policiais e de suas famílias e, seguramente, jamais se interessarão, pelo menos enquanto nosso regime não se transformar numa república socialista, bolivariana ou qualquer coisa similar.
Carta Capital, Caros Amigos, Fórum, Piauí são revistas "progressistas" e a Veja é uma revista "reacionária".
Interessar-se pelos percalços e pelo sofrimento dos familiares dos encarregados de fazer cumprir a lei, é uma atitude reacionária.
Interessar-se pelas dificuldades das mães viúvas, frente à necessidade de alimentar, educar e vestir filhos desamparados, órfãos de policiais, é uma atitude reacionária.
A matéria da Veja não me fez ficar feliz porque não posso ficar feliz em meio a tanta dor dos meus iguais, integrantes da família policial militar. Mas devo admitir que me trouxe certo alívio.
Nem tudo está perdido, esquecido, não estamos tão sós.
Se é verdade que os próceres do Ministério da Justiça ainda não conseguiram vislumbrar o horizonte de gravidade que há duas décadas atravessa o Rio de Janeiro, talvez o que necessitem para apreender o fenômeno de forma mais aguda seja justamente o conhecimento de conteúdos de realidades que exibam o paroxismo dos nossos dias, quando segurança pública se confunde com guerrilhas, trabalho policial se confunde com campanha militar e área de policiamento se confunde com teatro de operações.
Não há conteúdos de realidades mais expressivos que os rostos e as lágrimas dos familiares que perderem seus entes queridos, policiais por profissão, no árduo trabalho de se fazerem policiais comunitários, mediadores de conflitos, parteiros, salva-vidas, pontas de patrulha, psicólogos de ocasião e tantos outros papéis que lhes foram exigidos em vida, sem reconhecimento, sem distinção.
Reafirmo que não acredito, e nem espero, que os “progressistas” da mídia façam algo que contrarie os postulados ideológicos que lhes guiam a consciência e imprimem curso às construções.
A Veja é uma revista “reacionária”.
Ela escreveu suas páginas com as lágrimas de sangue dos familiares de PMs assassinados.
Ela está dizendo que eles, nossos mortos e nossos vivos, são dignos de respeito.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

E os blogs, ó !

Vamos reconhecer: as dores, os problemas, os dilemas, as necessidades dos Policiais Militares, isso não é do interesse de ninguém, não é mesmo?
Não dá IBOPE!!!
O que fomenta a curiosidade, a vontade de “ficar por dentro”, de saber de detalhes são aquelas situações desqualificadoras, destrutivas da imagem individual - de quem se fala - e da imagem coletiva da PM.
Ora, vamos ser francos, é assim não é? Estou exagerando?
Não, não estou não, querem ver?
Vou dar um exemplo; vai ser um só, mas emblemático.
No último dia nove, a Fundação Oswaldo Cruz fez o lançamento do livro Servir e Proteger: condições de vida, trabalho e saúde dos policiais militares, do Rio de Janeiro, como anunciei aqui.
Fui ao lançamento. Uma festa bonita, com a PM homenageada.
O livro resultou de uma investigação sociológica realizada entre 2005 e 2007, na Corporação, com autorização do Comando Geral.
Por se tratar da “PM falando”, ou seja, seus Oficiais e Praças dizendo de suas dificuldades, seus dramas, eu mesmo cheguei a compartilhar um certo otimismo com as cientistas do CLAVES, com as quais mantive contato todo tempo. Achávamos que o lançamento receberia a atenção mesmo da mídia engajada, aquela que simula isenção para não parecer militante anti-Estado; afinal, era um trabalho inovador. Nunca cientistas de humanidades haviam se aproximado de nossa Corporação para auscultá-la dessa forma.
Verdade que a FIOCRUZ havia tentado, ainda no início da década, realizar a pesquisa, mas a PM se recusara com receio de ver suas tripas (sociais) à mostra.
Querem saber, eu teria feito o mesmo.
Eu não conhecia a FIOCRUZ até 2005, para além da visão do seu “Castelinho” e da história da “Revolta da Vacina”, ou seja: eu conhecia um pouco sobre a história do homem que propiciara uma rebelião popular no Rio de Janeiro, há um século, porque a população preferira acreditar nas “notícias”, no senso comum, nos mitos, nas historinhas, nos boatos e não nas ciências. Eu sabia algo sobre o homem que dera o nome à fundação e tinha gravada na memória a imagem do prédio histórico da FIOCRUZ.
Eu negaria também a pesquisa como fora negada a primeira vez.
Para nossa sorte, o Comandante Geral a autorizou em 2005, e ela foi realizada.
Não só nós, PM, ela pesquisou, mas à PCERJ, no que resultou o “Missão Investigar”; isso alguns anos antes.
Mas, voltando, a mídia foi avisada, convidada, convocada, chamada, requisitada para o lançamento com direito a coquetel e tudo e só vi por lá a TV Brasil.
É verdade que o “Estadão” “mandou ver” e fez uma matéria superextensa sobre o livro.
Mas, e nossos jornais?
Nada.
E nossos blogueiros profissionais de polícia?
Nada
Vasculhei os blogs. Procurei com cuidado. Vi com calma. Revi.
Nada, nenhum blog falou do livro, da pesquisa, dos resultados. Uma mísera linha.
Mas procurem ler neles as coisas ruins!Ou aquelas com as quais podem mobilizar a opinião pública contra a instituição.
Procurem a notícia da absolvição do PM do 6º BPM. Vejam o que está escrito.
Procurem postagens relacionando as comemorações dos sessenta anos da declaração dos direitos humanos, com ações de PMs violando direitos humanos (sem referência às violações que os PMs sofrem, é lógico).
Procurem notícias sobre a morte do ex-PM/ex-marido-global. Vejam o que falam. Vejam quantas informações, quantos comentários de leitores.
Vejam quantas informações sobre a ação da PM por ocasião da “rememoração” do AI-5.
Vejam se não vão encontrar nos blogs pelo menos uma noticiazinha que exiba um PM fazendo algo errado, qualquer uma que seja, a “ca....dinha” da semana, que possa reforçar o coro Hay PM? Soy contra, mesmo que o PM tenha recebido o necessário látego da lei.
Mas, sobre o livro, sobre a pesquisa, sobre o PM e seu ser-sacrifício, ser-incompreensão, seu ser-mágoa, seu ser-indignação, não, sobre isso: SILÊNCIO.
Perdôo um jornalista blogueiro: Gustavo de Almeida.
Perdôo o Gustavo porque estou certo de que não foi por indiferença. Ele agora está numa revista e as revistas não receberam resumos executivos da obra, até onde sei. E também ele não está obrigado a ler meu blog, onde poderia encontrar a notícia sobre o lançamento da obra.
Os jornais, todavia, sabiam e os blogs profissionais por certo.
Os “blogs profissionais de segurança e polícia”, embotados na vontade de servir seus leitores com “sangue de aroma agradável” dos PMs cujas reputações caçam, implacavelmente, e sacrificam ao seu público como rituais religiosos ultrapassados, mas redivivos, fizeram ouvidos moucos às nossas súplicas.
Não importa.
Sigamos em frente procurando fazer o melhor; mesmo caindo, levantando e pagando por cada erro.
Somos uma Corporação de Bravos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Missão Prevenir e Proteger

O Centro Latino-Americano de Estudos da violência e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz – CLAVES/FIOCRUZ – lança hoje, às 19:00h, no Espaço Rio-Carioca, Rua das Laranjeiras, 307, o livro Missão Servir e Proteger: condições de vida, trabalho e saúde dos policiais militares, resultado de um profundo estudo realizado na nossa PMERJ entre os anos de 2005 e 2007.

Por essas coisas do destino, eu estava no comando do 22º BPM quando fui informado sobre a pesquisa e que minha Unidade seria uma das pesquisadas.

Confesso que fiquei receoso. Até então todo meu contato pessoal com o “mundo das ciências sociais” estava restrito à pós-graduação que fizera na UFF, em 2003, para atendimento ao Curso Superior de Polícia, e, seguramente, não fora um contato dos melhores, pelo menos no início: o relativismo epistêmico radical, espécie de verdade protocolar inerente àquela comunidade científica, me causara uma impressão melancólica, impelindo-me a entendê-la uma ciência de axiologia pendular.

Mas, eu já estava dois anos mais velho e menos disposto a polêmicas emocionais. Recebi o CLAVES sem receios e facilitei o seu trabalho como pude, atendendo não apenas as ordens superiores, mas satisfeito e com uma certa intuição de que o resultado final seria muito importante para nossa amada PMERJ.

Agora, em 2008, fiquei novamente envolvido com o trabalho; desta vez como consultor da pesquisa, a convite do CLAVES.

A professora doutora Cecília Minayo, responsável pela obra, me presenteou com a “orelha”. O Capitão Paulo Roberto Storani Botelho, Mestre em Antropologia e Caveira da bicentenária, fez o prefácio.

De minha parte posso garantir que NÃO HÁ NADA NA OBRA QUE DESMEREÇA A PM E SEUS INTEGRANTES, OU SEJA, NÓS MESMOS!
Ela só nos revela nossa humanitude.

Ficam aqui minhas congratulações e agradecimentos à socióloga Maria Cecília Minayo e às psicólogas Ednilsa Souza e Patrícia Constantino, de sua equipe, pelo trabalho grandioso que realizaram com persistência incomum e qualidade inigualável.

Abaixo transcrevo a “orelha” do livro:

O difícil diálogo entre as ciências sociais e as corporações policiais parece advir, prevalecentemente, de preconceitos cultivados nos círculos restritos dos “maiorais” dessas atividades e vão, muito lentamente, se esvaecendo, na medida em que o tempo avança em benefício da concórdia e tolerância que integram a idéia do bem.

Invoco a sucessão de momentos e fatos nomeando-os aqui por tempo, na consideração que é esse o grande facilitador do aperto de mão respeitoso que abre espaço para o abraço fraterno entre entidades outrora em conflito, quando se punham em campos antagônicos que as ideologias constroem e limitam, com linhas demarcatórias do exclusivismo da verdade.

Menos por produção de saberes conflituosos, e mais pela posição que ocuparam no contexto político e social dos tempos de força e intolerância, vencidas há pouco mais de vinte anos, policiais e cientistas de humanidades, principalmente, permitiram-se alimentar com ressentimentos que lhes obliteravam a razão, mas que não sobreviveram à ação do tempo e seus benefícios.

A seu turno, a democracia plena restabelecida em nosso país, que, como um ensinamento de Gandhi “nos permite ver a outra face da realidade e a não acusar adversários de idéias como inimigos apenas por não partilharem do nosso critério”, cumpriu seu papel de mediadora espiritual dos conflitos entre diferentes legítimos.

Foi, e é, essa democracia que trazemos em nossa alma como uma secreta desconfiança de um valor universal, a porta mágica que tem permitido, justamente, a pluralidade e a relativização das verdades defendidas por cada um, a partir de suas subjetividades.

Quando as ciências humanas se aproximam das polícias e dos policiais com claros sinais de boa vontade e respeito às suas existências, abrem portas, conquistam corações e mantêm intacta sua credibilidade pela manutenção dos métodos e critérios científicos que lhes norteiam o caminho da isenção e do rigor, fazendo com que todos ganhem: - É o bem comum - costuma-se dizer.

Assim, vejo este profundo, sistemático e vigoroso estudo científico realizado por pesquisadores da maior seriedade e competência, esses produtores do conhecimento na inigualável Fundação Oswaldo Cruz, sob a batuta da respeitadíssima doutora Maria Cecília de Souza Minayo, como um grande abraço na família Policial Militar. Ao auscultar o corpo social da nossa amada Instituição, descobrindo e revelando-nos nossas patologias físicas e psíquicas, conseqüência de um cotidiano de muitas lutas, a Ciência nos envolve num amplexo que afasta qualquer receio.

A presente pesquisa intitulada Missão Prevenir e Proteger que perscruta as condições de vida, trabalho e saúde dos Policiais Militares do Rio de Janeiro, realizada por: Maria Cecília de Souza Minayo, Ednilza Ramos de Souza, Patrícia Constantino, Simone Gonçalves de Assis, Adalgisa Peixoto Ribeiro, Mirian Schenker, Liane Maria Braga da Silveira, Cleber Nascimento do Carmo, Thiago de Oliveira Pires, com apoio técnico de Marcelo da Cunha Pereira e normalização bibliográfica de Danúzia da Rocha Paula é, para a Ciência, uma nova e preciosa fonte de conhecimento e referência; para a PMERJ, uma messe de esperança e uma oração para seus aflitos.
Mário Sérgio de Brito Duarte
Coronel do Quadro de Combatentes, da PMERJ

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sobre a Síndrome Irresponsabilizadora Fetal Umbrática - SIFU

O dia de ontem foi marcado por fatos que indubitavelmente estão ligados aos históricos problemas de violência e criminalidade do Estado do Rio de Janeiro.

Vou me deter apenas naqueles que receberam maior veiculação pelos jornais. Se pretendesse falar de todos os eventos violentos teria que abrir um leque de considerações que ultrapassaria, em muito, a dimensão onde tenho situado meu alvo de perscrutações e reflexões, ou seja, o narcotráfico e seu poder.

Essa decisão teleológica não é casuística nem oportunista. Seu fundamento está no exercício exaustivo da atividade policial propiciadora de observações aproximadas, e participação teórico-operacional na busca constante da promoção da tranqüilidade pública e da paz social do povo fluminense.

Assim, os eventos de ontem me asseguram o quanto este artigo é oportuno, considerando o apelo midiático de seus acontecimentos, atraindo a atenção geral.

O primeiro, e mais triste, muito mais triste, infinitamente mais triste, está marcado de sangue inocente. Uma criança é atingida mortalmente por um disparo na porta de sua casa, na favela da Baixa do Sapateiro, onde, ladeando-lhe, situa-se o 22º BPM – o Batalhão da Maré – unidade operacional da PMERJ a qual tive a honra de comandar por um ano e quatro meses, período no qual, enlutado, sepultei uma dúzia de valorosos policiais militares.

Ali, mais uma vez, outra dessas desgraças que procuramos evitar a todo custo enluta a população sedenta de paz, justiça e liberdade, valores naturais da existência humana, tão irrefreáveis no espírito ao ponto de encontrarmo-los desfraldados como bandeira de ideais até por grupos avessos à lei e à sociabilidade legítima.

E, novamente, como enfrentei ao longo do meu comando, nas vezes em que inocentes pereceram vitimados nos embates desse conflito urbano armado que atravessa o Rio há vinte anos, as acusações sobre a autoria do crime recaem sobre policiais, atribuindo-lhes uma deliberada intenção em promover a dor; quando muito, para menos, uma indiferença sobre os riscos de cometê-la.

É claro que se foram os policiais, que lhes caiam sobre as costas o látego da lei.

Mas, e se não tiverem sido os agentes da lei os responsáveis pela morte?

E se o infortunado menino tiver tido sua vida subtraída por um dos muitos (muitos mesmos) traficantes que ali gastam seus dias em maquinações tenebrosas e disputas sangrentas de mercado?

É lógico que, para a família, o conhecimento da origem do disparo não aplaca a dor da perda, não obstante trazer algum alívio ao espírito saber o criminoso exposto à lei.

Mas, agora, independente do “culpado da ação”, já há um culpado por inferência ideológica.

Algo ruim ocorreu? Foi a polícia – garantirão alguns, sempre.

Independentemente de uma solução futura do caso que aponte em direção diversa, a PM já é a culpada. “Foi um tiro certeiro (intencional) de uma corporação atrapalhada que não sabe trabalhar em comunidades”, segundo uma versão.

Todavia, é possível que tenha sido outra a origem do tiro. Claro que é possível.

Ali, como já disse, traficantes de drogas de uma facção se postam diuturnamente em franca oposição às leis do país, e, por conseqüência, ao Estado Democrático de Direito.

Subjugadores da vontade individual e coletiva daquelas comunidades da Maré fazem valer suas vontades, transformando em verdade toda e qualquer versão que lhes interesse e favoreça.

Não obstante serem uma minoria, pequena e poderosa minoria em meio a um oceano de moradores sintonizados nos valores do bem, operosos, produtivos, cidadãos, mantêm acorrentadas essas almas a um odioso anel abstrato que lhes inflige valores e signos.

Essas criaturas dedicadas ao mal-comum que, é bem certo, têm-lhes a incentivar a inserção e permanência no crime toda sorte de situações desfavoráveis - da família desestruturada ao não pertencimento de grupo social destinatário de atenção e afetos - não podem se escusar, de forma absoluta, de suas responsabilidades nas escolhas, justamente pelo mesmo motivo: a imensa maioria dos integrantes das suas comunidades se encontra na mesma situação e, nem por isso, opta pela vida criminosa.

Mas ontem, ali perto, retomando um discurso que parecia ter abandonado há tempos, o presidente Lula, falando a milhares de pessoas no Complexo do Alemão em evento do Programa de Aceleração do Crescimento, afagou carinhosamente a cabeça dos criminosos inocentando-lhes de toda conduta, dando o tom de uma interpretação “neomarxista” de desigualdades sociais e ausência de Estado.

O Presidente, diante de uma população que melhor do que qualquer outra conhece bem a força tirânica dos narcotraficantes, e sonha um dia se ver livre da submissão às suas vontades, os absolveu de toda responsabilidade por suas escolhas e atos, e os promoveu, por redução, de sujeitos detentores de vontade e razão à espécie de cera passiva, absorvedora inerte das formas anti-sociais que lhes determina o feitio a as representações.

Lula, nosso Presidente da República, re-inaugurou o estilo argumentador-psicanalista fora de moda por caducidade, aquele que atribui a culpa do erro voluntário, do “gozo, do deleite no mal consciente” a algum trauma abonador, tipo: “a ausência da teta da mãe”. E, aí, a mama faltante e culpada é o Estado, o mesmo Estado que, paradoxalmente, faltou durante todo o tempo àqueles milhares de jovens que ladeiam os criminosos, que dividem com eles os espaços das favelas sem se lhes assemelharem em atitudes e escolhas.

O dia de ontem foi um dia tristemente marcante.

Um inocente morreu.

O Presidente celebrou o culto de remissão do “criminoso não arrependido”.

E quanto a polícia?

Bem...

Não se vai dizer para alguém:
- Meu...sifu.

sábado, 20 de setembro de 2008

Ó Pá!

O jornal carioca “Povo do Rio” veiculou neste sábado, dia vinte de setembro, interessante matéria publicada no periódico português "Correio da Manhã", sobre a existência em Portugal de um grupo auto-intitulado "Primeiro Comando Português.

Formado por jovens brasileiros que lá residem e sobre os quais o jornal afiança haverem indícios de possuírem fichas criminais e serem originários “de favelas de vários estados do Brasil”, o grupo se exibe em Orkuts com armas, materiais produtos de roubos, e simbolismos de violência, como um certo “hino do PCP” com o qual se declaram “revolucionários, terroristas e sanguinários”.

Segundo o jornal lusitano o grupo se estabeleceu na cidade de Setúbal, onde, conforme informa o jornal, “este ano já se registraram cerca de 400 assaltos à mão, enquanto durante os 12 meses de 2007 foram apenas 70 casos do gênero”.

Não obstante a onda de medo que tomou conta da cidade, fenômeno exibido na matéria (http://www.correiomanha.pt/Noticia.aspx?channelid=00000228-0000-0000-0000-000000000228&contentid=6609931F-4665-4D92-A7A1-96EFB3A8C7AE), as autoridades de segurança de Portugal parecem não terem dado muita importância ao fato, havendo o responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança, Tenente General Leonel Carvalho, dito, em entrevista ao periódico, que “são meninos a brincar no YouTube [site de partilha de vídeos onde o grupo incita à violência, exibe armas e dinheiro roubado], mas podem ser claramente perigosos. A questão da 'brincadeira' diz respeito à comparação com as favelas do Brasil – não são elementos ao nível de máfias criminosas”.

Alto lá!

A relação “criminosos brasileiros” com “oriundos de favelas”, pode carregar apenas um preconceito contra a população das áreas de favelas do Brasil.

Digo isto porque o jornal não apresenta nenhuma evidência de que os brasileiros sobre os quais noticia ações criminosas - e exibicionismo igualmente criminoso - são originários de estratos sociais de qualquer posição. Daí, dizê-los “de favelas” é especulação e acaba comprometendo o que é de fato importante na questão, ou seja, a clara demonstração de completa ousadia e desprezo à hipótese punitiva frente às leis do país-irmão. E, o que creio ser ainda mais grave: o espargimento da IDEOLOGIA DE FACÇÃO, com seus elementos subculturais perversos, sanguinários e desumanizadores.

Se oriundos de favelas ou não, para Portugal isso é o que menos deve importar na consideração sobre os magotes marginais que andam furtando, matando e botando a cara na internet, com claros objetivos de se fazerem conhecer para conquistar, numa espécie de “contra-colonização pós-moderna”

E, se no Brasil as armas de guerra do narcotráfico estão nas favelas, isso em hipótese alguma se deve em função dos valores cultuados pela imensa e esmagadora maioria da população dessas comunidades; gente produtiva, criativa, pacífica e solidária. As armas do narcotráfico são os grilhões que submetem a população pobre das favelas à vontade da estupidez naturalizada, mas em hipótese nenhuma poderá impor-lhes o “rótulo de exportadores do mal”.

As naus da “Ideologia do Narcotráfico” atravessaram o Atlântico.

“Santa Maria, Pinta e Nina” espectrais do medo.

Torcemos para que as tribos portuguesas não sejam indefesas perante tais conquistadores.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O narcoterror e seu fundamento

Vi a expressão ser usada pela primeira vez em 1990, num artigo do Coronel da polícia boliviana Edgar Prudêncio Medrano. O professor Oscar Vieira da Silva, da Polícia Militar de Minas Gerais, havia traduzido, para o português, o trabalho do oficial intitulado "El Narcoterrorismo". A tradução e notas explicativas haviam sido publicadas na revista O Alferes, da PM mineira.
Eu servia na CIOE, Companhia Independente de Operações Especiais, que mais tarde iria se transformar no BOPE. Já naquela época tínhamos uma "secreta intuição" de que algo muito grave iria acontecer à Segurança Pública do Rio de Janeiro. Os fuzis de assalto estavam chegando em quantidades razoáveis e, naquele início de década, algumas dezenas de armas já estavam nas mãos de traficantes de drogas que ensaiavam reação quando os agentes da lei buscavam desarmar-lhes, consoante a destinação constitucional que cabe ao Estado de detenção do monopólio das armas para uso legal e legítimo.
O texto, que não saberia dizê-lo um trabalho acadêmico ou técnico-profissional, alertava-nos para o risco da expansão da traficância internacional de drogas num formato diferenciado, para além da vontade de lucro e com um ingrediente explosivo de concepção ideológica: a participação subterrânea e operacional de grupos terroristas e guerrilheiros em ação na América do Sul, como as FARCs, o M19 e o Sendero Luminoso. Estes, segundo o coronel, estavam dando proteção aos narcotraficantes com cobrança de vultosas taxas sobre o lucro da produção.
É verdade que não temos isso no Brasil. Não temos, e espero que não tenhamos a ação terrorista-política com objetivos revolucionários ou insurrecionais.
É verdade, também, que os narcotraficantes brasileiros não estão aparelhados política e ideologicamente e suas armas não estão a serviço de "exércitos populares".
Todavia, temos aqui uma espécie de narcoterrorismo, posto que, para manutenção e divulgação de sua "ideologia de facção", os traficantes de drogas se utilizam fartamente de táticas de intimidação e terror. Se não pretendem uma "sociedade mais justa e igualitária", como afiançaram ser possível os festejados ideólogos das lutas de classes por processos fratricidas, pretendem, todavia, exibir seu poder de organização e força das armas para promoção da insegurança e do medo, e, para isso, queimam pessoas vivas, atacam e assassinam policiais em serviço e mutilam "inimigos", para, com seus pedaços, alimentar animais famintos em rituais horrendos de iniciação dos mais jovens. Já se foi o tempo que o problema maior era o comércio da droga "viciadora". Já se foi o tempo que o maior problema estava nas armas de guerra.
O risco de hoje é maior.
O risco, a ameaça dos nossos dias é mil vezes pior, porque não necessita de objeto material para promoção de submissão e naturalização da loucura.
O risco dos nossos dias é um ente metafísico, plasmado na idéia, diluído em pichações de muros e paredes das casas nos bairros, cantado nos "proibidões", exibido nas iniciais formadas com os dedos das mãos, exigida sua manifestação de adesão em comunidades, estabelecimentos penitenciários e cadeias.
O risco de nossos dias é baudrillardiano, pois está no valor de signo o cerne de sua existência.
A criminalidade, os delitos, a ordem, tudo isso cabe fundamentalmente ao sistema de segurança pública estatal manter sob controle, com os recursos de prevenção e repressão qualificada dos seus órgãos de polícia, como tem ocorrido de forma incansável por abnegados e intimoratos agentes da lei.
Identificar, prevenir e desconstruir a ideologia do medo e da servidão, cabe a todos nós, interessados no bem-comum.
Publicado no BLOG DA SEGURANÇA, de O Dia on line, de 11 de agosto de 2008
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sábado, 5 de julho de 2008

Alvíssaras

Recebi a notícia por volta das dezessete horas. Ouvi na rádio, numa chamada extraordinária marcada pelo tom aliviado do locutor que anunciava o esperado há anos por milhões de pessoas em todo mundo, gente nutrida de esperança e fé luminares da confiança por um desfecho feliz, daquilo que se tornara uma verdadeira agonia coletiva e transnacional.

Confesso que particularmente receei que já não houvesse tempo. Temi que pudéssemos não mais sabê-la viva, após tantos anos de cativeiro insular na selva inóspita, padecendo de doenças e privada de contato com o mundo.

Não são poucos os que desapareceram para sempre, vítimas das intransigências que encontramos sob diferentes formas e matizes ideológicos. Pessoas que sumiram sem deixar rastros, como que abduzidas para outro sistema estelar, inatingível àqueles que pelo resto da vida irão tatear cada milímetro ao seu alcance e usar cada segundo de suas existências, seguindo, incansavelmente, cada pista ou rastro dos desaparecidos, os privados criminosamente de sua liberdade.

Temi que jamais pudéssemos receber a boa notícia da libertação de Ingrid Betancourt. Temi que jamais soubéssemos até do paradeiro dos seus restos mortais. Diante da inexorabilidade do assassínio, algum conforto existe no sepultamento digno do imolado.

Mas Ingrid Betancourt foi liberta.

Para alívio e alegria de milhões, entre os quais me incluo. Ingrid Betancourt, cidadã franco-colombiana, atenção do mundo, foi resgatada das mãos dos seus aprisionadores, sã e salva.

Sua aparência é boa. Suas primeiras palavras não denotaram ódio, mas alegria e gratidão aos seus libertadores.

Sua soltura, além de toda felicidade que promove nos corações aflitos dos que lhes dedicaram orações, e dirigiram vibrações mentais de otimismo formando uma corrente de crença e positividade, deve acarretar uma série de inferências a partir das muitas considerações que o evento suscita.

O arrebatamento da ex-Senadora colombiana das garras do terror narco-marxista das FARCs, deve estimular, para além das fronteiras das Colômbia, a discussão sobre estratégias de enfrentamento da violência deliberada e ideologizada, assumida como ferramenta de pressão e poder.

Torço para que nós brasileiros nos engajemos nessa discussão. Temos problemas aqui, hoje, tão graves quanto os da Colômbia em passado recente, marcadamente no que diz respeito à perda de soberania de micro-áreas do território (as favelas do Rio de Janeiro são o maior exemplo) para bandos militarmente armados e igualmente negociadores de drogas ilícitas.

Como por longo tempo ocorreu à Colômbia, nosso país se permitiu pautar pelos discursos sedutores da justificativa do crime e da criminalidade como resultantes das desigualdades sociais entre as classes estratificadas em luta permanente entre si. Presos à crença de uma dívida histórica herdada pela criminalização dos pobres, promotora inconsciente de uma culpa coletiva misógina, políticos com responsabilidades executivas de Estado e gestores de Segurança Pública encolheram-se diante dos desafios de contenção da criminalidade violenta em expansão, principalmente aquela que mais merecia suas atenções em razão da exibição franca de ethos belicoso, construído na idéia coletiva de facção com pretensões de representação social-simbólica.

Vivemos os últimos vinte anos assistindo a colombinização do Brasil; alías, colombinização nos moldes da antiga Colômbia, não a de hoje, aquela da desordem e do medo criados pelos ELN, Cartéis, ADUC e FARCS. Em vinte anos nos permitimos o CV, o ADA, o TCP, o PCC e as Milícias, além daquelas outras facções ainda não armadas, mas desrespeitadoras das leis e da ordem constitucional, como o Movimento Sem-Terra, declaradamente incentivador de uma revolução fratricida que implante no país o sistema político-econômico que lhe apetece.

Que a determinação da Colômbia (Vejam! Não apenas a de Álvaro Uribe Vélez, seu presidente, mas da maioria do seu povo!) para reconquista da ordem que reconduza a nação a um definitivo e salutar estado de tranqüilidade pública e paz social, possa contaminar o Brasil.

Que possamos compreender da necessidade de participarmos ativamente das discussões sobre violência, segurança, lei e ordem, exigindo das autoridades posturas compatíveis com o Accountability decorrente de suas investiduras. Em nosso país, infelizmente, responsabilidade é expressão vazia para muitos detentores do poder. Trabalhamos apenas com a precariedade dos conceitos culpa e dolo. Se fosse diferente, se a profundidade que nos permite a perscrutação filosófico-sociológica da responsabilidade dos mandatários existisse, e não somente aquelas dos executores na ponta da patrulha, todos esses governantes que permitiram que o Rio de Janeiro chegasse ao ponto que chegou, deveriam responder pelo “que” e “quanto”, devem ao povo por suas omissões e excentricidades demagógicas.

Claro, não objetivo aqui declarar que conflitos de ordem político-ideológica não possam ser mediados por ações diplomáticas. Aliás, podem e convém o quanto possível. Todavia, o que não convém, em nenhuma situação e sob nenhuma hipótese, é a afazia frente ao delito apenas porque esse assume forma coletiva suscitadora de teses permissivas, justificadoras de práticas odiosas apresentadas sob o argumento das construções sociais e lingüísticas.

Não podemos, pois, aceitar a existência do narcotráfico coletivo, belicoso, impostor se apoderando de espaços públicos e infligindo à população dominação e apatia espiritual.

Precisamos do engajamento de todas as expressões do poder legal na luta contra esse flagelo e, aí, especialmente das instituições com capacidade de enfrentamento das armas de guerra do tráfico. Por que não a participação do Exército Brasileiro?

Na Colômbia de Uribe o exército nacional patrulha ruas, resgata seqüestrados e promove segurança; vi isso com meus próprios olhos.

Em nosso país, diante da hipótese de se combater o narcotráfico com o emprego do Exército Brasileiro, logo se insurgem vozes esganiçadas de forte apelo ideológico subliminar em sentido contrário a atuação da Força Terrestre, enquanto, por outro lado, o Exército é obrigado a expor-se sem poder de polícia, ao chiste de narcotraficantes incomodados com sua forte presença em “seus territórios”, para lamentável atendimento de ambições políticas irresponsáveis; e, diante da tragédia anunciada, conseqüência do equívoco de se supor uma convivência harmoniosa entre a ordem das armas legítimas e a subcultura do desrespeito a qualquer poder que não se identifique na simbologia do narcotráfico, extrai-se a força regular sob remoques, politizando-se a estupidez criminosa de alguns membros do Corpo – que devem e serão levados a julgamento por seus atos – para atiçar anátema a todo Corpo, como se ente estranho ao ser nacional.

O narcotráfico bélico dos nossos dias é um grande mal. Tenha inspiração capitalista ou marxista, é um mal; um mal terrível que seduz, escraviza, manipula e destrói, e o Estado do Rio de Janeiro tem-lhe dado combate sem tréguas, com ações policiais pautadas em inteligência e investigação das suas polícias.

Por se tratar de um quadro grave, com similitudes de conflito urbano armado encetado pelas facções criminosas, infelizmente ainda há danos colaterais, indesejados por todos nós que desejamos o bem comum e a concórdia entre os diferentes legítimos, mas que um dia, esperamos, só existirão nos compêndios de história, nos registros esclarecedores de uma época difícil para nossa população.

A exemplo de Uribe e da maioria dos colombianos, não podemos nos aconselhar com receios.

Que a libertação de Ingrid Betancourt sirva de alvíssaras de um novo tempo, para todo mundo.

Tempo de coragem, obstinação e certeza de dias melhores.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Cubabatan


Vamos imaginar o seguinte: uma área, um território geográfico, um país, um lugar qualquer; comecemos assim. Tal lugar é marcadamente caracterizado pela pobreza, pela fealdade de sua arquitetura depreciada, pelas precárias condições de transporte e de iluminação pública, pela ausência ou/e abandono de áreas de lazer, pelas dificuldades inexoráveis vividas por sua população sofrida, extenuada de tanto trabalho para aquisição de bens primários de sobrevivência e, principalmente, pela inexistência de liberdades plenas, impeditivas mesmo do exercício de opinião, em submissão a um regime ditatorial, opressor, tirânico, não sufragado. Há nesse território idéias divergentes sobre suas situações: uns celebram o status de ordem e controle despótico reinante; asseguram que a contrapartida é compensatória, pois contempla a distribuição equânime de segurança (educação e saúde) para a coletividade, embora implique aceitar a preterição de outras necessidades individuais ou comunitárias. A opinião divergente acredita (mas não pode falar!) que o regime sob o qual vivem é, na realidade, um sistema opressor. A estrutura de poder que se instalou pela força, derrotando os dominadores que lhes submetiam até então, são verdadeiramente oportunistas, hipnotizadoras das consciências que manipulam com uso de recursos ideológicos, escravizando suas vontades e suas forças. Cubabatan vive sob olhares perscrutadores: primeiramente dos seus dominadores atuais, que se entranharam em cada célula do seu corpo social, controlando tudo; depois, das forças que lhes dominavam anteriormente, por meio de espias (aliás, ansiosos por retomarem o poder e se vingarem dos colaboradores do regime) e, de resto, de “todo do mundo”, que das suas dores possam faturar algum benefício, principalmente por simulacros de intenções dignas que lhes camuflem aquelas menos dignas, guardadas nos cofres seguros da respeitabilidade que costumam exibir, farisaicamente, nas praças públicas da veiculação midiática moderna.
Mas, feliz és tu, Cubabatan, porque tua existência é irreal.
Feliz és tu porque os homens que transitam nas terras de sua virtualidade, povoam terras e lugares reais, sim, miseravelmente tão semelhantes a ti em pobreza e despotismo mascarado de benefício, de benemerência, de benfeitoria, de bem-comum.
Feliz és tu, porque é Cubabatan e não Cuba e nem Batan, onde violações atingem tanto a carne sensível como o espírito invisível de seus filhos indignados.
Pobre ilha de Cuba. Pobre favela do Batan. Pobres lugares que só recebem atenção dos “homens de bem” quando a desgraça que lhes afeta todos os dias pode ser utilizada em proveito de ideologias subreptícias, faturada substancial e providencialmente na dor alheia, mazelas transformadas em capital fomentador de intolerância como bandeira política, e ferramenta de pressão e poder.
Pobre és tu, Cuba, exilada e escravizada pela demência fratricida, implorando dos céus um milagre libertador que retire seus filhos dos cárceres onde foram entulhados há décadas por não calarem-se ante a tirania e o autoritarismo.
Pobre és tu, favela do Batan, dominada pelo tráfico, dominada pelas milícias, dominada pela descrença, sobrepujada pela esperteza dissimulada como “interesses legítimos” numa mimese tão bem urdida que oblitera nossa capacidade de enxergar violações outras, tão bárbaras quanto as que lhe sobrevém, mas protegidas pela seletividade ideológica que lhes encobre a face terrorista.
Feliz és tu, Cubabatan, posto que, não existindo, se livra do constrangimento de ver correndo em seu socorro as mesmas personagens que toleram a violência real dos EMEESSETÊS da vida, seus correligionários, investindo contra a ordem social, pregando revoluções sangrentas, atuando contra os poderes legitimamente constituídos, tudo sem o mínimo pudor que deveria revestir suas ações considerando os postos que ocupam na mais alta hierarquia da nação.
Feliz és tu, Cubabatan, e também sua parônima Kubanacan nas suas inexistências reais. Estão, ambas, livres dos serviços de segurança pública para-estatal com qualidade de produto de camelô, vendidos pelas milícias nas portas de suas casas; estão livres do terror inexprimível promovido pelas hordas de narcotraficantes arrastando seus filhos para um pertencimento sem retorno, e, por fim, estão livres de serem trapaceadas pelos mercadores da ilusão do falso bem; esses, piores do que todos os outros porque teorizam por “justiça social” para justificar selvageria de aliados e atiçam ódio contra “as elites”, como nomeiam qualquer individuo ou coletividade que não se lhes assemelhe em desígnios.
Felizes sois vós, Cubabatan e Kubanacan, pois não serão relegadas ao esquecimento quando se apagarem as luzes da ribalta.

domingo, 1 de junho de 2008

Uma reflexão inadiável

Não é exatamente do meu feitio replicar textos ou artigos em meu blog, preferindo comentá-los e citar a fonte para consultas dos interessados.
Todavia, a entrevista publicada hoje, 01 de junho de 2008, pelo jornal O Dia , com o sociólogo colombiano Hugo Acero, merece detida atenção.
Estive conversando com o doutor Hugo por três vezes nos últimos dois meses. A impressão que tive dele foi muito boa.Pareceu-me uma pessoa lúcida e capaz de dialogar com defensores de ideologias diversas, desde que legítimas.
A questão colombiana, no que se refere a quadros de violação da ordem e perda de soberania sobre o território, em muito se assemelha com o Rio de Janeiro, abstraindo-se o movimento marxista-revolucionário que por sorte aqui não temos, estando o problema adstrito ao narcotráfico.
Aí está o artigo com Hugo Acero:


Limpeza policial é solução para combater o crime, explica especialista
Thiago Prado

Rio - Era para ser uma palestra sobre segurança pública. Mas, em alguns minutos, se tornou uma aula de combate à impunidade. Convidado para falar a oficiais e praças da PM, o sociólogo colombiano Hugo Acero deixou boquiaberta a platéia quando detalhou a limpeza que a polícia colombiana sofreu em três anos da década de 1990. A receita apresentada pelo ex-secretário de Segurança de Bogotá é simples e ao mesmo tempo impressionante: com inquéritos que chegavam a ser concluídos em uma semana, 17 mil agentes foram expulsos sumariamente por envolvimento com esquemas de corrupção. No entanto, a ‘faxina’ não foi a única iniciativa que fez a criminalidade da cidade ter redução significativa — entre 1995 e 2003, o número de homicídios caiu 70%. Em entrevista a O DIA, Acero relata as diferenças entre a polícia colombiana e a brasileira. O atual consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) ainda analisa a atuação das milícias no Rio e faz críticas à maneira como é conduzido o Programa de Aceleração do Crescimento nas favelas.

—O senhor afirmou na palestra que 17 mil policiais foram expulsos entre 1992 e 1995 em um grande processo de expurgo (a polícia nacional na época tinha 90 mil homens). Como expulsaram tantos policiais em tão pouco tempo?


—Foi uma decisão política do presidente Cesar Gavíria de reformar a polícia a partir de documento feito por comissão externa. Havia muitos problemas de corrupção, violação dos direitos humanos e indisciplina na instituição. Nessa época, a polícia tinha credibilidade de 17%, hoje tem mais de 70% de aprovação.



—Mas como agilizar o trabalho de órgãos correcionais da polícia? No Brasil,investigações demoram meses e os policiais continuam trabalhando mesmo após acusações graves.


—Na Colômbia, temos um setor de controle interno da polícia e há outros organismos que também investigam servidores, como a Procuradoria. Há um processo apuratório que tem de ser cumprido como em todos os países, mas lá existe a possibilidade do diretor-geral da polícia expulsar com uma simples canetada os integrantes da corporação que se comportam mal.



—Não há um inquérito para avaliar se o policial era ou não corrupto?


—Há todo um cuidado para revisar muito bem a vida do policial. Toma-se cuidado de consultar a inteligência e todas as pessoas que já investigavam policiais envolvidos com corrupção. A cautela foi tanta que não houve reclamações dos policiais que foram expulsos. Eles nem recorreram na Justiça.



—O que deixa as polícias com a credibilidade baixa diante da população?


—Se os índices de credibilidade da polícia não são bons, a instituição tem de fazer uma reflexão para saber como mudar. A polícia não pode ser um órgão do qual as pessoas tenham medo. Ela tem que ser respeitada, tem que proteger a pessoa, seja ela negra, pobre ou rica. Na Colômbia, além das expulsões, houve uma mudança cultural importante.

—Uma das maiores preocupações da Secretaria de Segurança atualmente é com a ação das milícias, compostas, muitas vezes, por policiais civis e militares. Como a Colômbia combateu e ainda lida com os grupos paramilitares?


—Todos os grupos fora da lei, chamem-se milícias ou narcotraficantes, devem ser combatidos da mesma maneira. Algumas pessoas consideram normal um grupo de pessoas se reunir para matar delinqüentes. Na Colômbia, os paramilitares cresceram porque, inicialmente, seu objetivo era combater as guerrilhas. O que não nos demos conta como país é que estávamos criando um outro monstro, igual ou pior que a guerrilha. Eles chegaram com a idéia de proteger os camponeses, mas depois começaram a abusar do poder que tinham, pedindo dinheiro por tudo. A única maneira de vencer esse monstro é fazer com que as autoridades garantam a segurança dos cidadãos sem precisar que grupos paramilitares o façam.



—Por que o senhor não é a favor da atuação da polícia comunitária nas favelas antes de acabar com a violência nelas? É a estratégia adotada pela polícia do Rio, com os Grupamentos de Áreas Especiais.


—Nas favelas de Medellín e Bogotá, em um primeiro momento, era impossível existir polícia dentro das comunidades dominadas pelos grupos armados. Quando existia, os policiais eram assassinados ou ficavam ali sem fazer nada. Não se pode expor a polícia. Têm que ser analisadas a força e o poder de fogo que o outro lado tem e, com esse mesmo poder, o ideal é combatê-los. Uma vez controlados estes grupos e territórios, aí sim pode entrar a polícia comunitária. Nunca antes.



—O que o senhor pensa do andamento do Programa de Aceleração do Crescimento nas favelas do Rio? Apesar do início das obras, os grupos armados continuam atuando nas comunidades beneficiadas.


—Estão fazendo metade do trabalho. Estão recuperando as favelas no que tem a ver com o desenvolvimento social, mas não em relação à segurança pública. Enquanto os grupos armados controlarem comunidades, a segurança não existirá.



—Como é feita a distribuição do efetivo da polícia na Colômbia? No Rio, áreas mais pobres e com maiores índices de criminalidade são preteridas em relação a regiões mais ricas.


—Lá priorizamos quatro quesitos: instalações, comunicações, mobilidade e recursos humanos. Fizemos uma distribuição racional da polícia com base na população, extensão do território e quantidade de conflitos.



—Como é o turno de polícia na Colômbia?


—Eles trabalham oito horas, como trabalhador normal. Antes, o policial de férias podia trabalhar fora. Hoje, não pode trabalhar em outro lugar, senão é expulso.



—Na Colômbia há muitos policiais desviado de suas verdadeiras funções?


—Fizemos uma reestruturação para que o menor número de policiais trabalhasse administrativamente. Não pode ser 50% administrativos e 50% no operacional. Acredito que o ótimo seja, para cada cinco operacionais, um administrativo.



—O Rio tem solução?


—Claro (risos). Se Bogotá pôde, o Rio pode! Em Medellín, em uma época, à noite, todos ficavam em casa, inclusive a própria polícia, senão morriam. Se essas cidades tiveram solução, todas têm.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

ÔRRA MEU!!

A intenção era seguramente provocar uma detonação; um barulhaço como a explosão de uma carga de nitropenta em ambiente imediato, de maneira que balançasse e comprometesse definitivamente as estruturas do alvo.
Posso imaginar o gozo pré-saboreado pelo arautismo profissional das terras do Ôrra meu, a cada etapa bem sucedida que se dava a consecução do plano subcriminoso que os parceiros de ofício haviam decidido aplicar nos cana carioca; uma treta de responsa, preparada com requintes de profissionalismo e organização de gênero.
A parada mais difícil coubera a um dos mano mais corajosos; um dos véio mais firmeza, mais talento da rapaziada.
Constava do seguinte: o cara se alistaria pra ser samango, entraria de cara limpa na muvuca, na maior moral; ficaria infiltrado entre os alemão, tentando descobrir os lance de tudo que era usado pra que os cara virasse PM.
O voluntário, o firmeza, no maior caô se meteu entre os verme e ficou vinte e três dias só na atividade, pescando tudo, garimpando as ideia que os cana mais coroa dava nos novinho; afanando as sugestas de conceito que ouvia.
Serviço terminado, matéria de capa, e neguim comemorando:
- Aí maluco!!! Sei não, heem!!??. Vai dar Pulitzer, ta ligado?!
Mas...
Não repercutiu!
Ninguém esperava por isso na Folha de São Paulo, estou certo que não, estou apostando que não. E olha que odeio apostas!
A equipe havia traçado um plano infernal, com requintes de genialidade monstruosa. Havia de dissimulação de intenções a comportamentos sorrateiros e falsificação de ideais. Tudo com risco à saúde física e psicológica do secreta infiltrado, como se pôde depreender do próprio relato das agruras do insuspeito recruta-jornalista.
Todavia, a matéria não repercutira.
Tanto esforço e a única coisa que realmente haviam conseguido fora tornar o repórter na mais abjeta das criaturas entre as rotulações sociais: um ex-PM.
A matéria não repercutira, incrivelmente, indesejadamente e tenho uma tese para isso: acho que a população do Rio, e mesmo a de São Paulo, está cansada dessa tentativa manjada de manipulação de sua opinião. Já se foi época de se abdicar do próprio juízo em favor do jugo da intelectualidade com pretensões de pastoreio sobre as ovelhas do seu rebanho, como crêem ser os seus leitores.
A folha de São Paulo não contava com isso. RAPHAEL GOMIDE, o intruso xereta, esbaforiu-se por vinte e três dias quase pondo os bofes para fora nas “terríveis” seções de treinamento físico e ordem unida. Teve pesadelos, perdeu peso, estranhou o desconforto, a dureza da voz dos instrutores.
Um hor-ror!
Não me surpreenderia se ele recebesse um Pulizter, ou um outro prêmio desses que fazem os caçadores de premiação suspirarem como debutantes antes de baile; prêmios assim são conferidos como se dá o cômico: à gargalhada antecede o vilipêndio.
RAPHAEL GOMIDE terá, para sempre, anotações de assentamentos na PMERJ. Será, neste caso, um ex-PM. Mas vejam, só em seus assentamentos! Para nosotros, PM ou Ex-PM ele NUNCA! NUNCA SERÁ!
RAPHAEL GOMIDE participou de uma farsa. Teve a chance de fazer como George Kirkham, professor assistente da Escola de Criminologia da Flórida, que na década de setenta, movido pelo espírito científico, resolveu ingressar na polícia de Jacksonville, onde se graduou policial e por um tempo de sua vida encarnou a profissão com suas dores e gozos. O professor George queria conhecer o que a Folha de São Paulo queria, mas usaram de uma ética diferente para satisfação de suas intenções.
RAPHAEL GOMIDE teve a chance de saber muito mais da formação do Policial Militar; e de conhecer da profissão para além dos discursos que ouviu e dos treinamentos que recebeu nos curtos vinte e três dias do curso de oito meses. Perdeu a chance de entender, se levasse a cabo o curso e se formasse, o que sente um policial sob fogo dos AK-47 do narcotráfico mirando-lhe a carne por alvo; só assim saberia a diferença entre tese e tesão.
Ei! Que otário sou eu para crer que seria assim?
Acho que tem uma voz em algum lugar dizendo:
- É ruim, heem!

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Manual EPC para Especialistas em Segurança Pública

Infelizmente não participei da organização do magnífico Manual EPC (Embusteration Picaretation Corporation) para Especialistas em Segurança Pública.
Ele é de autoria de Décio Leão, Capitão da Polícia Militar de São Paulo, meu amigo e grande conhecedor do seu ofício.
No seu manual, Décio exibe os “fundamentos” e as condições sine qua non dos sujeitos que detêm o saber epistêmico desse campo.

Confira:

Nunca ter sido da polícia
Não ter nenhum vínculo com uma dessas instituições ou não mesmo conhecê-las. Isso não impede que ele fale delas com propriedade, dizendo como elas deveriam fazer seu trabalho.

Possuir formação genérica
Seja engenheiro, administrador, economista, sociólogo, psicólogo ou bacharel em direito, o Especialista em Segurança Pública já “estudou” profundamente o assunto e participou de alguns seminários.

Aparecer bastante na mídia
O Especialista em Segurança Pública não pode deixar de aparecer na mídia, quer seja imprensa escrita, falada, televisionada ou internetada. Não se mede a qualidade desse profissional pela sua experiência profissional ou sua formação específica. É a quantidade de vezes que ele aparecer na imprensa que irá dar a sua qualificação de conhecimento e experiência.

Falar o óbvio
O Especialista em Segurança precisa ter soluções mágicas para solucionar problemas de Segurança Pública (bem semelhantes aos discursos eleitoreiros para o assunto). Por exemplo: o especialista deve afirmar que as autoridades policiais precisam “intensificar o policiamento preventivo” ou “investir em inteligência policial”. Quanto mais óbvia for a solução, melhor será o efeito tipo: “como-ninguém-pensou-nisso-antes-!!” E, obviamente, o Especialista não precisa dar detalhes sobre como serão conseguidos os recursos humanos, materiais e financeiros, qual o impacto sobre o orçamento e outros problemas que “são meros detalhes técnicos”.

Fazer a polícia parecer incompetente
Ao comentar os problemas de Segurança, as crises e as dificuldades em ocorrências policiais, o Especialista em Segurança Pública mostra como a polícia errou, o que ela deixou de fazer e o que ela poderia ter feito. Sutilmente, dá indicações de a polícia não sabe fazer bem o seu serviço.

Não ter responsabilidades
O Especialista em Segurança Pública não precisa se preocupar com o que fala, pois não tem que tomar decisões, não tem responsabilidades e não é cobrado pelos seus resultados. Se seu projeto der certo estará comprovada sua genialidade; se der errado sempre há alguém para culpar, principalmente a Polícia Militar e a Polícia Civil, que não se empenharam corretamente em suas obrigações para fazer dar certo o magnânimo projeto do Especialista. Essa é uma das maiores vantagens de ser um Especialista em Segurança Pública. Por mais absurda que seja a idéia, ele não é responsável pelo “como” ou “quão custoso” será sua aplicação, muito menos as conseqüências do fracasso.

Eis algumas frases que podem ser usadas pelos Especialistas em Segurança Pública iniciantes. Mesmo já tendo sido usadas anteriormente, essas frases-padrão representam o discurso que se espera de um bom Especialista:

“A conjuntura macroeconômica da globalização desenfreada tem impactado sobre a sociedade marginalizada, forçando uma busca por recursos alternativos nem sempre éticos com a legalidade”.

“A polícia precisa urgentemente investir em policiamento preventivo e em inteligência policial”.

“Os capitães comandantes de companhia e os delegados titulares de distritos policiais devem se reunir periodicamente e detectar onde e quando estão ocorrendo os delitos. Com essa informação, o policiamento deve ser direcionado para os locais de maior incidência criminal”.

“A crise de segurança ocorre porque a polícia não está fazendo o seu papel. Os policiais civis não fazem o preventivo e os policiais civis não investigam.”
Gostou?
Candidate-se.
Crie uma ONG e vá em frente.
Mas siga o manual!

terça-feira, 22 de abril de 2008

Alemão: a hora de acordar*

Por Mário Sérgio de Brito Duarte, tenente-coronel da PM, ex-comandante do BOPE e do 22ºBPM (Maré), autor de "A Verdade da Tropa - Incursionando no inferno"

Nem sempre foi assim no Complexo do Alemão.
Arrisco com segurança dizer, que há vinte e oito anos, quando ingressei na Polícia Militar, o quadro era outro.
Não que não houvesse violência, ou que essa se limitasse a pequenos conflitos entre moradores.
Com efeito, a criminalidade no Complexo do Alemão, mesmo naquelas épocas pré-fuzil, já ultrapassava a ação pitoresca dos ladrões de galinha e bandidos pés-de-chinelo, que, em tempos quase remotos, tinham sido vetores de um medo “pitoresco” e exagerado para a população “remediada” de sua vizinhança; da Penha e bairros arredores.
Havia quadrilhas de traficantes drogas e outros bandidos, sim, com seus revólveres, algumas escopetas e talvez uma ou outra metralhadora de mão; todavia, preferiam fugir da presença da polícia, não enfrentá-la, e isso perdurou até meados da década de oitenta, quando armas poderosas foram sendo adquiridas e granadas, lança-rojões, fuzis de assalto e metralhadoras. 30 surgiram na cena carioca, modificando-lhe completamente os quadros de segurança pública.
Não vou asseverar que as políticas adotadas desde então foram lenientes ou complacentes com o tráfico de drogas, mas ouso dizer que até o início do ano passado, uma certa ingenuidade e uma excessiva contemplação sociológica do problema empurraram governantes para estratégias não efetivas de controle da criminalidade e promoção da tranqüilidade pública e paz social.


Se de um lado a ação policial mais ativa para desarmamento de quadrilhas e bandos ocorreu em alguns momentos, ações outras, de natureza social requeridas para desestimular a vontade coletiva de crime com ingredientes psicológicos característicos de subcultura, foram absolutamente procrastinadas.
A antítese da política de polícia de repressão, como se costuma rotular a primeira, quando e quanto pôde tratou de refrear a ação das polícias, teorizando pela predominância das desigualdades sociais como fatores essenciais, fundamentais ou genéricos, promotores do crime, semeando uma espécie de culpa coletiva na população e fazendo-a co-responsável da própria vitimização, identificando, subliminarmente, no criminoso, a verdadeira vítima.
Ora, é certo que haveríamos de acordar de tal sono letárgico. Mais dia menos dia haveríamos de ver que crime, criminosos, combustíveis e comburentes de fatos anti-sociais de anormalidade jurídica, devem ser considerados conjuntamente para se viabilizar políticas de segurança pública; e haveríamos de buscar soluções que aglutinassem os diferentes poderes e esferas do Estado Legal, como vemos agora pela aplicação do PAC, PRONASCI e POLÍCIA de pacificação, que, cada qual com seu papel, espera concorrer na promoção definitiva da tão sonhada inclusão social das populações dessas zonas de conflito e dor.
Às sofridas e mal-remuneradas polícias cabe, certamente, o papel menos sedutor e menos simpático; enquanto houver narcotraficantes empunhando fuzis no Complexo, e se comportando como narco-soldados, Policiais Militares e Civis do Rio de Janeiro e os homens e mulheres da Força Nacional que os apóiam, estarão trabalhando diuturnamente ali, em condições dificílimas de ocupação temporária, com a morte rondando, para cumprir seus deveres traduzidos em suor, sangue e honra, em duro processo de libertação das comunidades das garras do crime.
O Complexo do Alemão completa um ano de intensa movimentação policial. Os números revelam uma impressionante belicosidade, agregada como valor coletivo pelo crime local. Somente na delegacia onde se registram ocorrências do Alemão (lembremos que as Especializadas também fazem registros, apreensões, inquéritos e flagrantes), tivemos apreendidas, pelas Polícias Civil e Militar, de 18 de Abril de 2007 a 17 de Abril de 2008, 366 (trezentas e sessenta e seis) armas, e 62 (sessenta e dois) artefatos explosivos. Além disso, quatro agentes da lei morreram em confronto e registraram-se 107 (cento e sete) autos de resistência de criminosos vitimas de suas escolhas, além de outras 470 (quatrocentos e setenta) prisões realizadas.
Um preço caro, o da liberdade, mas que importa e convém.
O Complexo é do bem.


*Texto publicado parcialmente na edição deste domingo, 20 de abril, de O DIA

segunda-feira, 17 de março de 2008

Jorge "Bocanca"

Não me recordo exatamente se foi em 93 ou 94, mas me lembro bem como tudo se passou.
Havíamos realizado uma operação durante o dia na Vila Cruzeiro, a pedido do comandante do 16º BPM que andava assustado com o poder de fogo dos traficantes de drogas, do Complexo do Alemão.
Lembro-me que um atirador com fuzil fez fogo por duas ou três vezes, de uma laje, bem próximo de onde eu progredia com minha "patrulha mais”, ou seja, reforçada de cinco ou seis homens (devíamos ser uns quinze Caveiras), deslocando-nos à pé pelas ruas e becos da grande favela.
Os tiros, eu não saberia dizê-los se foram dados em nossa direção, ou em qualquer outra, como às vezes acontece e que chamamos de “guerra de barulho”. Embora os vagabundos do tráfico já dispusessem de um bom arsenal, ainda não haviam desenvolvido a cultura de enfrentamento diurno, como temos nos nossos dias, quando privilegiam o combate ao comércio de drogas e enfrentam a polícia, sempre.
De qualquer forma, eu solicitara apoio aéreo e logo uma aeronave Esquilo sobrevoava nossas cabeças, pilotada, se não me engano, pelo excelente Adonis, da Polícia Civil, que logo encurralou os marginais surpreendidos pelo desembarque espetacular do Cabo Lotério (se não me engano, também), além de outro companheiro da PC que eu não saberia dizer o nome.
Regressamos da Delegacia ao BOPE por volta das dezoito horas e nem chegamos a subir as escadarias do regimento Caetano de Farias, o antigo Quartel de Cavalaria que abrigava nossa Unidade Especial, quando recebi do Coronel Rangel a ordem de seguir para a Favela da Varginha, onde uma equipe do 22º BPM estava encurralada desde cedo. Havia suspeitas de policiais feridos, e mesmo mortos, em poder dos traficantes. Os celulares naquele tempo eram artigos de luxo e rádios transceptores portáteis só o BOPE possuía. Não havia jeito; sem comunicações para sabermos da situação da tropa na favela, só indo ao local para saber, de verdade, o que se passava: era com o BOPE mesmo!

Senti um nó na garganta.
Eu não conhecia nada da favela. Sabia só que ficava em Manguinhos e que era uma área muito pobre, de barracos misérrimos. Já era noite, não daria para fazer um reconhecimento aproximado...
Não tivemos tempo sequer de nos abastecer com munição. Partimos em alta velocidade em várias viaturas que seguiam um carro-guia, e em vinte minutos chegamos à Rua Leopoldo Bulhões, entrando por Benfica.

Foi um inferno!
Ficamos eu, falecido Sargento Retameiro e... acho que o então Cabo Vasconcelos, abrigados num poste magricelo, de luz fraquinha, enquanto as balas batiam no chão, roçando nossos pés. Os projéteis saiam em fachos de luzes traçantes das bocas dos canos dos fuzis dos narcotraficantes, que não souberam aguardar o momento e o local para uma emboscada, posto que ficamos a cerca de cem metros de suas confortáveis posições barricadas em muros e lajes das construções, e separados por um rio fétido cujas margens estavam unidas por uma ponte tipo “pinguela”, miserável, de madeira apodrecida e descadeirada.
Expulsei um combatente do 22º que se aproximara do "nosso poste" para ajudar. Seu equipamento branco, de trânsito, estava nos transformando em alvos seletos na quase escuridão do local; ele seguiu para um ponto seguro e nós fomos avançando por lanços quase irrefletidos, para onde pudéssemos nos abrigar.
Chegamos a um conjunto de casas de alvenaria e ocupamos suas lajes. Retameiro localizou um traficante e atirou em sua direção, com o FAL em intermitente. O Caveira Amaurício fez o mesmo. Um tiro acertou a caixa d’água sobre a cabeça do bandido. Ouvimos um barulho de cachoeira e um “filho da p...” do “soldado do pó” que tratou de fugir dali.
Nossos alvos de resgate estavam um pouco mais à nossa esquerda; a outra patrulha os havia localizado e tentava retirá-los. Lopasso, Everaldo “Bate-Lata” e falecido Getúlio ficaram atrás de um monte de lama endurecido, retirado do rio podre que estava sendo dragado. Notava-se que logo haveria uma ponte de verdade substituindo aquela pinguela esquálida, considerando as obras que estavam sendo iniciadas.
Pouco a pouco retiramos todo pessoal do 22º BPM que estava encurralado. Getúlio, que sequer portava fuzil, queria atravessar para o outro lado para pegar os vagabundos. Reuni o grupo para ouvir-lhes a opinião e a única dúvida sobre se deveríamos atravessar ou não veio do Cabo Lopasso. Os demais foram unânimes:
- A gente pega eles na terça-feira, meu capitão!


Não consegui dormir naquela noite. Fui para o quartel no sábado e contei meu drama para o então Tenente Ronaldo:
- Cara, cristalizei na pinguela. Que merda! Que raiva!
Ronaldo fez que não deu importância:
- Vai atravessar outras, primo! (somos primos, sim).

Voltei lá na segunda-feira com outra patrulha. Pedi ao Coronel Rangel e ele autorizou que eu voltasse ao meu inferno particular, com algumas recomendações sobre o cuidado com a população inocente. Fizemos o mesmo trajeto, beco a beco; poste a poste, laje a laje até chegarmos à pinguela.
A tropa ficou me olhando. Ninguém dizia nada. As ruas vazias, estranhamente vazias. Pensei e falei para mim mesmo: - É emboscada!
Mas precisava atravessar a pinguela. Era questão de honra! Eu estava preso às minhas pernas, aos meus receios, aos gritos dos traficantes naquela noite de sexta-feira:
- Aí, bota a cara mermão! Vai voltá gelado, hem ?!! – Bota a cara seus verme!

Eu tinha que atravessar a pinguela.
Senti uma mão no meu ombro. Era Jorge “Bocanca”, Cabo do BOPE, pára-quedista militar, discípulo de mestre Zé-Pedro, o velho Zé, 1º Sargento à época, hoje capitão QOA reformado e trabalhando mais na equipe de instrução do BOPE, gratuitamente, do que qualquer um que por lá tenha passado.
Era Jorge “Bocanca” que me ladeou e disse:
- Posso atravessar meu capitão, se o senhor fizer minha cobertura. O senhor conta até três.
- Vai, Jorge. Eu faço tua cobertura e te sigo. - falei sem pestanejar.
Atravessamos a pinguela com ele fazendo a ponta e eu o segundo homem. Não houve tiros.

Já voltei lá muitas vezes. Comandei, anos depois, o 22º BPM e participei de pelo menos dois combates pesados ali, como Comandante da Unidade. Numa vez, perdemos um soldado e matamos um traficante. Acho que estavam comigo os majores Louzada e Parrini.
Não voltei mais lá com Jorge “Bocanca”.
Estivemos juntos na semana que passou. Ele precisa agora atravessar uma outra pinguela. Talvez seja a pior da vida dele.
Não quero saber. Estou com ele. Jorge Bocanca não fez julgamentos sobre se eu merecia ou não o risco da vida dele.
Vou fazer a ponta e ele vai atravessar.
Tenho fé em Deus!
Tenho fé em “Bocanca”
Ele tem fé em nós .
- No tempo três, Sargento Jorge:
Um, dois, três...CAVEIRA!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Pra Não Dizer Que Não Falei de Pedras

(**) James Petras é Professor Aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de Binghamton, em Nova Iorque (EUA), há 50 anos é um intelectual marxista do campo dos trabalhadores, consultor dos sem-terra e piqueteiros – no Brasil e na Argentina, respectivamente – e co-autor do livro “Globalização Desmascarada”. Seu novo livro foi escrito em parceria com Henry Veltmeyer, “Movimentos Sociais e o Estado: Brasil, Equador, Bolívia e Argentina”.

As informações acima e com a qual dou início ao presente texto, extraí do endereço www.pstu.org.br/autor_materia.asp?id=4992&ida=44 subseqüente à publicação de artigo do chamado intelectual comprometido (http://www.galizacig.com/index.html) James Petras, autor da Carta aberta ao presidente Sarkozy, escrita e divulgada em dezembro do ano passado. Quem quiser conhecê-la, basta acessar o endereço http://www.correiocidadania.com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=1256 e poderá lê-la na íntegra para formar opinião isenta, além das minhas opiniões aqui expressas.

Trata-se de uma correspondência aberta ao líder da França, na qual o sociólogo contesta a posição do presidente francês em relação às “Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia” – FARC.

A carta à carta, visto que a missiva gerada dá à luz uma entidade que se dirige a outra que lhe é semelhante, tem um tom debochado, e se destina a passar uma descompostura no presidente francês em razão do que escreveu ao líder terrorista colombiano, Manuel Marulanda.

O sociólogo, professor aposentado como informa o site, cuja base do pensamento se assenta nas construções ideológicas de Karl Marx, usa e abusa da sofisticação cínica para exibir o que ele julga haver de “inconseqüência e desonestidade” na posição de Sarkozy, assegurando que o líder francês adota no seu julgamento, uma posição “parcial, não recíproca e de má-fé”.

Desonesto e inconseqüente são algumas das expressões com as quais ele adjetiva Sarkozy em seu pleito de libertação dos cativos das FARC, e assim o considera porque não faz o mesmo em relação aos integrantes farcistas, prisioneiros do estado colombiano que estariam (padecendo) em masmorras do país.

Não vou realizar qualquer análise sobre a legitimidade, status ético, razoabilidade e racionalidade dos movimentos revolucionários marxistas, ou mesmo sobre governos instalados após sangrentas guerrilhas em busca da utópica “sociedade sem classes”, pregada por comunistas como James Petras.

Todavia, vou tentar desentranhar e evidenciar algumas questões seguramente fundamentais, para um bom julgamento da prédica de Petras que, com habilidade, tentou camuflar, ao tempo que imputava como “desqualidades” em Sarkozy, aquelas que enxergava em si mesmo, e acreditou não evidenciá-las enquanto se exibia.

Vejamos:

1. James Petras (e eu acredito que ele acredite nisso) assegura que ambos os estados beligerantes (a expressão é minha) - o legal, constitucional, com reconhecimento internacional e, d’outra sorte, o revolucionário em curso – ocupam patamares no mínimo equivalentes, concernentes à questão dos prisioneiros que mantém consigo. “Se a guerrilha deve se precaver de não violar acordos e tratados internacionais para tratamento de prisioneiros de guerra - aliás, a Colômbia é signatária da Convenção de Genebra que prevê tratamento digno a prisioneiros de guerra – o Estado, principalmente por esse motivo, deve cumpri-los”, parece ser o que ele insinua; embora Petras não invoque tal acordo quando reclama da unilateralidade na proposição de Sarkozy, não nos é difícil inferir que o sociólogo expõe justamente sua compreensão de que os homens das FARC não podem, e não devem, receber tratamento de presos comuns, principalmente quando tratamento comum a presos comuns, não respeitem condições universais de direitos humanos.

2. Petras desfila argumentos para explicar sua defesa das FARC ao não promover, ou mesmo não permitir aos cativos que mantém, a aplicação de direitos reclamados para si, como: dignidade e tratamento humanitário; para àqueles que mantêm refém nas selvas da amazônia colombiana, as FARC sequer permitem o socorro dos doentes e feridos, envio de notícias a familiares e muito menos ajuda humanitária de natureza psicológica, não autorizando visita de nenhum organismo nacional ou internacional às suas instalações prisionais (chamemos assim aos tapiris onde mantém-nos acorrentados), nem mesmo a Cruz Vermelha; num momento, o sociólogo alega que suas posições geográficas seriam descobertas, o que facilitaria ao governo Uribe massacrá-los com ajuda americana; noutro, ele assevera que dois guerrilheiros das FARC estão presos nos Estados Unidos, daí a necessidade de manterem prisioneiros americanos como uma espécie de moeda de troca.

3. Petras, além de outras considerações, também obtempera que a Igreja (creio que católica) não merece confiança (das FARC), e não pode, por conseguinte, fazer parte do processo de negociações: ela seria aliada de Uribe.

As proposições iracundas de James Petras poderiam, até, carregar algum significado de justiça, se as questões por ele colocadas se limitassem ao universo da guerra e dos soldados, dos combatentes, dos engajados de alguma forma pessoalmente nos conflitos, como sectários de qualquer lado. Aí eu diria que James Petras, o sociólogo marxista, teria lá suas razões.

Se os cativos feitos pelas chamadas FARCS não fosse um sem número também de pessoas inocentes, como as crianças retiradas das portas das escolas em uniformes escolares, para desespero de seus pais e amigos; se não fossem aqueles idosos indefesos cujo pecado é tão somente possuir familiares adversários políticos das FARC; se não fossem as mulheres cujo “grave erro” é não se curvar às vontades e interesses de “soldados do povo” que lhes procuram para as “socializações” que só interessam à guerrilha; se não fossem turistas, de qualquer profissão e de qualquer nacionalidade, que atraídos pela beleza de paisagens tão paradisíacas acabam nas mãos da insanidade ideologizada e “cult”; se não fosse aquela gente sem ligação ideológica, política, não adversária por qualquer critério lógico da “revolução popular”, eu não teria dúvidas por declarar o escrito de Petras como legítimo e louvável.

Mas não é isso.

Aliás, pouco importa para as FARC, e para Petras, quem são os encarcerados que mantêm em condições misérrimas no inóspito das selvas, padecendo enfermidades psicossomáticas sem notícias do mundo e sem vontade de viver, desde que possam usá-los como barganha para a liberdade de seus combatentes, dos homens e mulheres das FARC que se decidiram pelas armas revolucionárias em vista de "um mundo mais justo, melhor e pacífico".

E pouco lhes importa, também, se para conseguirem recursos financeiros que sustentem sua luta, as FARC tenham assumido, na Colômbia, parte do controle da produção e do tráfico internacional de cocaína.

Pouco lhes importa, ainda, se seus aliados são líderes de países de organização política-econômica de mesma coloração que defendem, ou se são chefes de outras coletividades um tanto quanto, diríamos, afastadas dos compromissos éticos alardeados nos tempos de sua ingenuidade existencial.

Pouco lhes importa se seus aliados são presidentes de países ou chefes de quadrilhas, de bandos e facções criminosas, como ficou evidente no caso das estreitas ligações das tais Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e o Comando Vermelho, posta a claro pela prisão, há alguns anos, em terras colombianas, do traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar quando negociava armas e drogas com os narco-marxistas.

James Petras é um professor aposentado, diz a informação a seu respeito, mas na defesa das violações de direitos humanos praticadas pelas FARC contra civis inocentes que seqüestram, isolam e reduzem a nada, ele continua em plena ação multidisciplinar e transversalmente pedagógica.

A rigor, se considerarmos uma certa corrente de hermenêutica dos Direitos Humanos que rola por aí, Petras está coberto de razão, posto que, para tal, direitos humanos só vale para algozes e não para vítimas.

Que pena essa estreiteza conceitual !

Há gente no Brasil capaz de se oferecer como escudo humano em holocausto pelo outro, por desprendimento e idealismo, e que poderia se aventurar a furar o bloqueio das FARC.
Sei de um defensor-DH que inclusive fala muito bem espanhol.

Parabéns dona Caveira!

O BOPE completou trinta anos de sua gloriosa existência desde sua criação como Núcleo da Companhia de Operações Especiais da PMERJ, no 19 de Janeiro de de 2008.
Uma festa simples e extremamente significativa tirou os Caveiras de sua rotina de treinamentos e combates.
O Comandante, Caveira 41 Tenente Coronel Alberto Pinheiro Neto, leu emocionado a Ordem do Dia na presença dos convidados e de sua tropa.
O evento, coberto pela mídia, teve a presença do Comandante Geral, do Secretário de Segurança, dos Subsecretários de Planejamento Operacinal e de Inteligência, e de vários ex-Comandantes do Batalhão.
Adiante, segue a significativa e histórica fala do Ten Cel Pinheiro que dispensa qualquer comentário adicional.





ORDEM DO DIA



Para se falar da importância e do significado do BOPE, é preciso voltar 30 anos no tempo.

No final dos anos 70, havia a necessidade de se especializar policiais militares para o cumprimento de missões num cenário de crescente violência urbana.

Era preciso contar com homens para ações de combate nas complicadas situações operacionais que estavam por vir.

Para tanto, um grupo de oficiais e praças deslocou-se para unidades especiais das Forças Armadas brasileiras, com objetivo de realizar cursos de comandos e operações contra-guerrilha – os primeiros “caveiras” da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Dessa forma, adquiriram capacidade para o desenvolvimento de uma doutrina própria.

Não obstante os importantes conhecimentos adquiridos naquelas instituições, adaptados e aplicados no primeiro Curso de Operações Especiais em 1978, o então NuCOE rapidamente adquiriu identidade própria.

A determinação e a perseverança de policiais militares apaixonados pela sua profissão, nortearam o hercúleo trabalho de construção dos pilares do BOPE. Não apenas pilares físicos, mas também os de uma mística que se consolidou ao longo dos anos.


A partir do privilegiado conhecimento acumulado nas chamadas operações policiais em área de alto risco e dispondo de milhares de horas operadas em área conflagrada, passadas já três décadas, esta unidade de excelência, tem solidificado sua tradição de ser um verdadeiro celeiro no fomento e estudos de idéias relacionadas às Operações Especiais de Polícia.
As organizações só envelhecem quando perdem a capacidade de sonhar, de projetar e de implementar seus projetos. Nesse aspecto, quero lhes afiançar que o BOPE continua sendo uma jovem unidade.

Para que se possa ter uma rápida noção do volume de trabalho desenvolvido pelo BOPE, somente no ano de 2007, foram mais de 2.200 horas de operação contra o crime, 100% em área de conflito, uma média de 06 horas operadas por dia, durante 365 dias do ano, num total de 52 marginais presos e 40 mortos em confronto; 78 armas apreendidas, dentre as quais 18 fuzis de assalto, 39 pistolas, 12 revólveres, 01 metralhadora e 05 granadas; além de apreensão de drogas e recuperação de automóveis roubados.

A Unidade de Intervenção Tática, sub-unidade do BOPE, especializada em resgate de reféns, foi empregada em 06 ocorrências de crise com tomada de reféns, resgatando com vida e sem ferimentos todas as pessoas que se encontravam sob o jugo de armas, de psicopatas e assaltantes. Nove cidadãos fluminenses tiveram suas vidas salvas diretamente pelas mãos de nossos policiais.

A Seção de Instrução Especializada, ministrou treinamento para 1.657 policiais e militares de 12 instituições diferentes. O BOPE é na atualidade, a Unidade de Operações Especiais que mais dissemina conhecimento técnico e tático no Brasil. Doutrina desenvolvida pelo BOPE e considerada de excelência por unidades policiais e militares do Brasil e do exterior.

Gostaria de mencionar também o trabalho que vem sendo considerado por muitos um símbolo na luta contra o tráfico de drogas: a pacificação da comunidade Tavares Bastos. Uma parceria do BOPE com a comunidade, em conjunto com instituições governamentais e não governamentais que já dura oito anos e que mantém livre do tráfico de drogas, em paz e prosperidade, uma localidade com 6.500 habitantes.



Neste momento, gostaria de lembrar e agradecer a todos aqueles que tiveram sua passagem, com glórias, por esta unidade, ao longo destes trinta anos, em especial, os que perderam a vida no cumprimento do dever.

Na conjugação de todos estes fatores, contribuintes para a formação de “profissionais de elite”, reside algo intangível, mas que se pode “sentir no ar”, aqui no quartel do BOPE, em nossas bases de instrução ou durante as nossas operações: a mística do espírito do cumprimento da missão, independente das adversidades.



“Lealdade, destemor, integridade
São os primeiros lemas, desta equipe sempre pronta a combater toda a criminalidade,
A qualquer hora, a qualquer preço
Idealismo como marca de vitória.....”

É assim há trinta anos!



Alberto Pinheiro Neto
Ten Cel Comandante
Caveira 41

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Como pode um peixe vivo?

O jornal Estado de São Paulo do dia 28 de Dezembro veiculou artigo do Doutor Cláudio Beato, intitulado: Triunfo da Ideologia-Caveira, texto produzido com intenções de análise sobre segurança pública e violência no Brasil, considerações que ele se permite na condição de cientista social.

A rigor, o doutor Beato limitou-se a comentar um curto período de tempo, ora centrando sua fala nos acontecimentos de fevereiro a outubro de 2007, ora estendendo um pouco mais suas considerações, e remontando de 2002 à data do seu artigo.

Embora tenha primeiramente mostrado fatos ocorridos no Estado do Rio de Janeiro, como símbolos do que considerou “mais marcante” no ano que se findou, Cláudio Beato, fazendo-me lembrar as garotas do tempo dos telejornais, voltou-se para São Paulo e Minas Gerais para exibir o sucesso de políticas de segurança para controle do crime e redução da violência, na limitada interpretação de que números menores de mortes definem padrões de excelência em segurança pública.

Todas as vezes que escrevo sobre os ditos dos cientistas sociais sobre minha área de atuação, ou participo de debates em fóruns, seminários e encontros do gênero com esses representantes do universo acadêmico sem encarnação no mundo sensível dos nossos misteres, procuro me esforçar para manter a idéia como centro da questão, me pondo nos limites da minha humanitude e não expondo a pessoa dos interlocutores.

Todavia, há momentos que isso se torna impossível fazer, e, em regra acontece quando não conheço meu alvo (no sentido de “contrário que refuto”), e preciso pesquisar sua atuação para compreender melhor a base que sustenta o “ser” de sua idéia, a estrutura de onde derivam os acidentes do discurso que o tornam indivíduo, ente, ou seja, a ideologia que é fonte do seu logos.

Não consegui encontrar muita coisa sobre a formação acadêmica do Dr Cláudio particularmente ao campo da segurança; não encontrei, ainda, o tema de sua tese de doutorado, mas apenas a de mestrado, onde constatei sua especialidade em músicos populares: “eruditos e populares”.

Na verdade, até me preocupo pouco com argumentum ad verecundiam (apelo à autoridade), mas muitas vezes a única credencial que apresenta meu interlocutor é uma tese acadêmica que lhe confere “autoridade no conhecimento”; daí minha precaução sobre quem não conheço e, no caso do doutor Cláudio, compreendi que seu interesse sobre crime, vítimas, violência etc é posterior à sua jornada no terreno dos musicistas; suas histórias, culturas e socializações, e isso contribuiu por me deixar entre arriscar a fazer abstrações do que poderia não estar presente no dito, no ideológico, não evidente, ou apenas inferir conclusões restritas unicamente ao texto.

Não vou publicar aqui o artigo do Dr Beato, mas quem quiser conhecê-lo basta acessar o site http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup102472,0.htm . Lendo-o, o interessado em compreender melhor minhas assertivas tirará melhores conclusões, mas vou resumir aqui algumas idéias do texto:

1. Os marcos da segurança pública de 2007 são: a morte do menino João Hélio e o filme Tropa de Elite. Esses definem os pontos de ápice mobilizadores da opinião pública, em todo Brasil.
2. O país não tem um projeto nacional de segurança pública.
3. O momento é de reforma policial, diante da necessidade de controle da brutalidade e da corrupção policial.
4. Embora os homicídios venham diminuindo ano a ano, o quadro é pessimista.
5. As campanhas de desarmamento e a lei do desarmamento seriam uma explicação (não definitiva) para a redução das taxas de homicídio.
6. São Paulo e Minas investiram maciçamente em segurança, de formas diferentes, mas com sucesso, posto que reduziram as taxas de homicídios.
7. A integração (não é unificação!) das polícias, articulada com projetos de prevenção e parceiras com universidades de organizações da sociedade civil (ongs?) foi a receita de sucesso de Minas Gerais, enquanto São Paulo optou por construir presídios e investir em inteligência e reestruturação da delegacia de homicídios.
8. Monitoramento e avaliação operacionais são as novidades, via dois órgãos: Infocrim, em São Paulo, e Igesp, Minas (doutor Beato é membro dele, sim! Veja http://www.comunidadesegura.org/?q=pt/node/30817 ), que permitiram o sucesso das gestões de segurança de ambos.

Eu sei, eu compreendo, e você também deve estar pensando a mesma coisa: que ninguém vai fazer propaganda contra si mesmo, e o artigo tem um tom de propaganda. Aliás, e muito pelo contrário, a princípio é razoável que falemos bem das nossas realizações. Dr Beato não está falando de um lugar externo ao problema. Ele faz parte da solução mineira; do staff de pensadores das soluções, se não das decisões, que são tomadas sobre estratégias de segurança em Minas Gerais e é natural um “confetezinho” sobre si, desprezando verdades verdadeiras, como a existência do PRONASCI (“não existe projeto nacional...”), mesmo que pegue mal.

Parece-nos óbvio e ululante, também, que: integração, articulação, incremento tecnológico, busca de resultados, gestão de sistema, ou seja, melhoria de todos esses vetores de administração, alguns de origem imemorial com roupagem nova e perfumaria de estilo, são fundamentais para a qualidade da segurança pública. Para o quadro mineiro, então, onde não há narcotráfico requerendo status de instituição para-militar; onde uma dupla de policiais entra e sai das favelas sem o risco de serem emboscados e levados a algum canto para serem imolados vivos, cortados em partes para alimentar jacarés, e onde AK 47, Ruger, G3, Fal, AR-15 etc, são armas que felizmente não estão em mãos criminosas e só freqüentam Belo Horizonte nas telas dos cinemas, lá, principalmente, uma boa gestão que contemple esses “ingredientes” de “diplomacia de mediação de conflitos para quadros de paz”, deve ser eficaz para a realização dos misteres da segurança.

Lá, e até em São Paulo, onde, mesmo já não se podendo dizer não haverem armas longas, de guerra, suas quantidades são pífias, próximo do seu número em mãos criminosas no nosso Rio de Janeiro, para nossa tristeza e infortúnio.

São Paulo e Minas Gerais merecem e têm nosso respeito por suas conquistas, realizações e sorte, mas sem essa do doutor Beato querer fazer crer que há algo de excepcional nas suas teorias e práticas, capazes de superar, em qualquer contexto, outros modelos para segurança, ordem e cidadania.

Sem essa de querer desqualificar o BOPE, seu trabalho, seu cotidiano de lutas, riscos e sacrifícios numa luta sem tréguas contra o exército do narcotráfico e seus milhares de fuzis, granadas, lança-rojões e outros “trens”, rotulando seus combatentes por “truculentos e vingativos”, adjetivos com os quais os classifica abstraindo-os do símbolo que carregam nos seus uniformes silenciosos.

Ideologia-caveira? Não creio. Prefiro o que disse uma das maiores autoridades em futebol do país, ao comandante do BOPE, em sua recente visita de honra à Unidade: - Vocês são o quinto grande clube do Rio de Janeiro, mas o que tem a maior torcida.

Ê trem bão uai!